Canto Nerd

Lirous K'yo Fonseca discute relação de videogames com a diversidade em coluna inédita, Canto Nerd


Por Lirous K'yo Fonseca
Arte: Jackson Adriano

A minha infância foi ilustrada pela presença do videogame. A história é bem cômica, pois sempre fui uma criança levada, ao ponto de não deixar a minha mãe fazer compra no supermercado. E um desses possíveis dias infernais em que a minha mãe passaria momentos terríveis ao meu lado, me deparei logo na entrada com uma pilha de caixas do Atari e, no topo, uma TV de 14 polegadas e o Atari ligado no jogo chamado Oink! Neste dia, minha mãe conseguiu entrar e sair do mercado sem eu falar absolutamente uma palavra, porque eu estava hipnotizada por aquilo que vem me acompanhando desde hoje. E não me refiro a TV de 14 polegadas da Philco.


O videogame foi a minha babá eletrônica, era o que garantiria por vez a minha permanência dentro de casa, já que fugia de casa para ir ao colégio ao lado e observar as crianças brincando na hora do recreio. Estamos falando de quando eu estava com três anos. Cresci ao lado do videogame sempre em busca do diferencial,  sempre acreditei que nenhum jogo era em vão e que algo a oferecer ele deveria ter, e pude presenciar inúmeras injustiças durante toda a minha vida com algumas empresas que não tiveram o seu reconhecimento pelo seu feito.


Criei-me no meio de todos os tipos de jogos, desde os mais infantis até os mais violentos e com apelo sexual. Porém, sempre tive um acompanhamento muito grande dos meus pais que me explicavam o que era possível e o que não era, e que ali eu poderia ser tudo o que eu quisesse da forma que eu quisesse e como eu quisesse, mas que não poderia aplicar muitas das coisas na rua, que o espaço para eu extravasar seria ali e não com outras ou em outras pessoas. Deve ser por isso que  as primeiras experiências de muitas transexuais acabam sendo dentro dos MMORPG, para se experimentarem como mulheres e se relacionarem com outros garotos mesmo que virtualmente.

Em um de seus estudos, a programadora Jane McGonigal foi a hospitais e questionou pessoas no leito de morte o que elas gostariam de ter feito mais em vida. E uma das cinco respostas mais ditas é a de que gostaria de ser a pessoa que realmente era e não mais fingir. Em minha opinião, os jogos eletrônicos, mesmo que virtualmente, proporcionam isso pela liberdade da criação de seus avatares para te representar em grandes aventuras como personagem principal.

Sou muito incentivada pelos meus pais até hoje, e sou grata por ter tido o acompanhamento deles para me ajudar a nutrir esse amor que me permitiu atravessar diversas plataformas.

Hoje em dia, trabalho numa instituição de arte, a Desdobrando Arte, que tem um núcleo específico na área de jogos eletrônicos, a Assopra – Associação Cultural de Jogos Eletrônicos que atua em Florianópolis. A questão não é só o jogo em si, mas a arte que ele representa.  Acho engraçado o fato de os jogos não serem vistos por muitos como uma arte,  sendo que os mesmos profissionais que estão envolvidos em grandes filmes estão também envolvidos nos games, seja ele o roteirista, o compositor musical, o ilustrador, o programador, etc... Todos são considerados artistas se estiverem em trabalhos individuais ou em uma mídia mais conceituada como os dos desenhos animados ou animações digitais, e porque esses profissionais não são valorizados quando estão ligados a um jogo de videogame?
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Lirous: "Acho engraçado os jogos não serem vistos como arte"

Dizer que os jogos influenciam a violência simplesmente por serem jogos e um discurso sem fundamento, já que a mídia que mais mata no mundo é o livro que é consagrado como o mais importante de todos os meios de comunicação e expressão. Não vamos longe, temos desde os livros de Magias negras, o Alcorão e a Bíblia. A mesma imersão que um livro traz, o jogo eletrônico também traz, assim como os seus erros e acertos no meio social. E o videogame tem um respaldo muito menor pelo simples fato de não ser levado tão a sério quanto o livro.

A Ideia da instituição é levar essa arte para os que não têm condições dando acesso e incentivo, já que fazemos parte, aqui em Florianópolis do segundo maior polo de desenvolvimento de jogos do Brasil.  O videogame ajuda na redução de danos, no crescimento, desenvolvimento artístico e coordenações motoras.

Com isso, quero compartilhar as minhas experiências desde os jogos eletrônicos até tudo o que ele pode atingir como filmes e afins dentro das discussões de gênero e diversidade. Espero que juntos possamos construir um espaço agradável com debates e discussões, vamos juntos construir um espaço democrático com muita informação, diversão e curiosidades.

 Sejam bem-vindos ao nosso Canto Nerd.

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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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