Entrevista

Maria Clara Spinelli defende Oscar de Jared Leto por personagem trans

"Dizer que somente pessoas transexuais podem interpretar personagens transexuais é estigmatizar' /Aline Arruda

Atriz premiada no cinema e no teatro, Maria Clara Spinelli se posiciona contra as críticas que o norte-americano Jared Leto vem recebendo, depois interpretar uma mulher transexual no filme “Clube de Compras Dallas” e de quebra vencer o Oscar de "Melhor Ator Coadjuvante" neste ano. De acordo com as críticas, sobretudo no texto ‘Filme enfraquece atrizes e atores trans’, de Chelsea Hawkins, o argumento é de que os diretores sempre escalaram atores homens cisgêneros para interpretar mulheres transgêneros, o que invisibiliza o talento de artistas que são trans e não retrata de maneira fiel o grupo.

Para Maria Clara, que é uma mulher transexual, a reivindicação não deveria ser para que pessoas trans fossem sempre escaladas para personagens transexuais, mas que abrissem o leque de possibilidades e motivassem que artistas, independente de sua história, simplesmente fossem reconhecidos e tivessem trabalho pelo talento e não por uma característica pessoal. A artista já deu vida 
à travesti Anita da novela Salve Jorge, da TV Globo, e à advogada Suzana, que é transexual, no premiado filme Quanto Dura o Amor?, de Roberto Moreira.

“Não existem atrizes e atores trans, existem atrizes e atores, ponto. E não, eu não concordo. Eu não quero fazer apenas personagens transexuais. Então a recíproca é verdadeira. Dizer que apenas atores e atrizes que são pessoas que nasceram transexuais podem interpretar personagens transexuais é estigmatizá-los ainda mais. Em minha opinião, deveria ser o contrário: a militância deveria lutar para que atores e atrizes que são pessoas que nasceram transexuais pudessem fazer qualquer tipo de papel, de personagens transexuais ou não”, defende. "Nenhum ator ou atriz terá uma carreira apenas interpretando papeis de personagens transexuais", complementa.

Vale ressaltar que no filme Clube de Compra Dallas, Jared dá vida à transexual Rayon, que tem o vírus HIV e que ajuda o caubói Ron Woodroof [Matthew McConaughey, também vencedor do Oscar] a contrabandear medicamentos mais eficazes para pessoas com aids. Jared emagreceu 14 quilos em um mês para interpretar Rayon. 

Em conversa exclusiva com o NLucon, a atriz detalha com sinceridade o que pensa sobre a questão. Entenda: 

-  Diante dessa polêmica com Jared Leto, você se sente confortável quando vê geralmente atores que são homens cisgêneros interpretando personagens transexuais? 

Se eles fizerem um bom trabalho, eu fico grata. Aliás, sempre fico grata quando algum ator me emociona, me toca, me faz sentir a minha própria humanidade através do seu trabalho. E, quando isso acontece, eu não fico pensando a qual gênero pertence aquele artista.
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Maria Clara Spinelli e Gustavo Machado no filme "Quando Dura o Amor?".
Como a traficada Anita, da novela Salve Jorge, da Globo

- Mas você acredita que o ator ou atriz cisgênero pode e geralmente retrata de maneira fiel uma personagem trans? 

Penso que a “a arte IMITA a vida”, e não é uma reprodução fiel. O nome disso é ´documentário´. E, mesmo nesse gênero, hoje em dia há uma tendência a hibridismo entre realidade e ficção. Parto do princípio simples de que: qualquer ator pode interpretar qualquer personagem. Um homem pode interpretar uma mulher, e vice-versa.  Eu posso interpretar uma ´mulher cis´, e Felicity Huffman pode interpretar uma ´mulher transgênero´, brilhantemente. 

Robert De Niro engordou 30 quilos para interpretar o personagem Jake, em ´Touro Indomável´. Matthew McConaughey emagreceu 15 quilos para interpretar Ron Woodroof, personagem que descobre ser portador do HIV, em "Clube de Compras Dallas". Marion Cotillard interpretou Edith Piaf no cinema, da juventude até sua morte. Nos dois primeiros casos, os atores optaram por incorporar alterações físicas em seus corpos para ajudar na caracterização de seus personagens. No caso de Marion, ela usou recursos artísticos de maquiagem para ajudar na caracterização. Recursos esses que foram premiados com o Oscar. 

A atriz Marlee Matlin, que é deficiente auditiva na vida real, interpretou uma personagem com a mesma característica no filme “Children of a Lesser God – Os Filhos do Silêncio", pelo qual ganhou o Globo de Ouro de melhor Atriz Dramática e o Oscar de melhor Atriz. O ator Al Pacino interpreta um militar cego no filme “Perfume de Mulher”, pelo qual também é premiado com o Oscar de melhor Ator. Al Pacino não tem nenhuma deficiência visual.  Características físicas facilitam as coisas, claro, mas não são determinantes. Assim como a experiência real do ator na vivência da sua personagem, pode ajudar, mas não é garantia de um ótimo resultado.

Em todos os casos, o ponto fundamental é a interpretação dos atores, a verdade cênica – como chamamos no teatro, a humanidade que cada ator consegue dar à sua personagem.

- Concordo no sentido de que atrizes e atores, que são transexuais, deveriam ser vistos principalmente pelo talento. Mas não dá para negar que o preconceito existe e que ainda estamos num processo de [in]visibilidade. Será que se apropriar de personagens trans não seria um primeiro passo? 

Roberto Moreira (diretor e co-roteirista do filme ´Quanto Dura o Amor?´) desejou ter uma atriz que fosse uma mulher que nasceu transexual para interpretar a personagem ´Suzana´. A produtora de elenco Paula Pretta foi atrás, e me encontrou. Roberto achava enriquecedor ter uma atriz com a vivência da personagem, porque tinha a humildade de saber que não entendia tanto sobre o assunto. E, como gostaria de retratar com respeito e verdade essa personagem, ele foi atrás de uma atriz que pudesse auxiliá-lo. Ele conseguiu. O trabalho deu muito certo.

Mas, e se ele não tivesse encontrado essa atriz? Isso impediria que outra atriz ´não-transgênero´ (ou ator) interpretasse essa personagem com a dignidade e profundidade com que ela foi interpretada por mim? Mais ainda: ter uma atriz que é uma mulher que nasceu transexual interpretando essa personagem seria garantia de um bom trabalho?  Quando você ´estabelece´ que apenas atrizes e atores que são pessoas que nasceram transexuais podem interpretar bem uma personagem transgênero, você também estabelece o contrário, entende? 
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Felicity Huffman, Jared Leto e Hillary Swank: atores que são cis no papel de trans

- Bom, você está farta de interpretar ou ser convidada para personagens transexuais? 

Não, não estou farta de interpretar personagens transgêneros. Eu fiz apenas dois: a ´Suzana´, do filme ´Quanto Dura o Amor?´, de Roberto Moreira; e a ´Anita´, da novela ´Salve Jorge´, de Glória Perez. Ambas são personagens das quais eu tenho muito orgulho. E se outras grandes personagens transgêneros como elas aparecerem no meu caminho, ficarei muito feliz. O que eu não quero é me repetir. Que sejam transgênero as minhas personagens, mas que cada uma seja um universo diferente, como aconteceu até agora.

- Há quem fale que atores homens cis interpretando mulheres trans assemelha-se ao cinema clássico em que homens brancos se pintavam para interpretarem negros. Por ser uma mulher transexual, você enfrenta dificuldade para propostas de trabalho ou ter personagens variados?

Sim, enfrento muitas dificuldades para ter novas propostas de trabalho ou de personagens variados. É uma guerra injusta, porque eu não posso lutar de igual para igual com outras atrizes que não nasceram transexuais. Mas isso é assim AINDA. Porque a indústria (produtores, diretores, autores, emissoras) determina que seja. A ´indústria´ não consegue ainda olhar somente para o meu trabalho, porque socialmente eu sou uma atriz que vem carregada de muitos estigmas, de muito preconceito. E tudo isso envolve riscos para me aceitarem em algum trabalho. Por ´riscos´, pode-se ler também ´perdas de audiência e financeiras´. 

Eu sei que muitos autores, diretores, produtores gostam do meu trabalho, como atriz. Mas não depende só deles me escalarem para um papel. Depende de uma série de fatores, que aumentam em proporções gigantescas quando se fala em televisão, por exemplo. Se eu for escalada para fazer um par romântico com um personagem interpretado por um ator, o público aceitará essa relação? Se houver um beijo, o público considerará que será um ´beijo gay´? 

Há muita ignorância sobre o fato do que é ser uma pessoa que nasceu transexual. Há muito preconceito sobre tudo que envolve a questão do Gênero. Pessoas que ´transitam´ entrem os sexos são sempre muito estigmatizadas, e mal vistas.  É uma questão cultural, de educação, e mundial, não só no Brasil. E vai demorar algumas gerações para isso mudar. A primeira protagonista negra, de uma novela das oito, aconteceu há muito pouco tempo. O primeiro beijo gay em uma novela das nove, na emissora de maior audiência do Brasil (e uma das maiores do mundo), aconteceu ontem. Então... há que se ter paciência.

Mas tudo isso já aconteceu! E outras mudanças e evoluções na sociedade virão, quer os conservadores queiram, ou não. Talvez, eu não esteja viva para ver essas mudanças. Mas ficarei feliz por ter feito dignamente a minha parte, mesmo que ela seja apenas um começo.

- Veja bem, você é a primeira atriz que é transexual a estar na tela da Globo com uma personagem e em horário nobre. Não acha que com esse papel ou esses papéis pode-se criar uma visibilidade positiva para o grupo e também transformar essa realidade? 

Eu tento. Mas é impossível agradar a todos. Não tenho essa pretensão. É muito difícil ser uma pessoa pública. E muita responsabilidade também. Tento fazer o meu melhor, para que a sociedade tenha um bom exemplo de uma atriz profissional, dedicada, responsável e que, também, é uma pessoa que nasceu transexual, porque isso faz parte da minha história, de quem eu sou. Mas, por outro lado, isso não é o que me determina. Ter nascido transexual é mais uma das minhas características, que em conjunto com tantas outras, me fazem única. Assim como outras características de outras mulheres, de outras atrizes, as fazem únicas também.

- Quais são os seus próximos projetos?

Estamos tentando captar recursos para produzir a peça ´CHARLOTTI´, texto de Zen Salles, direção de Paulo Capovilla, e produção de Vini Rigoletto. Não está fácil. Se tudo correr bem, devemos estrear no segundo semestre.
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Maria no Festival de Cinema de Paulínia em 2014: ela tem quatro prêmios como atriz de cinema e teatro

- E qual é o seu papel? 

Na peça, eu interpretarei a personagem Esther, mulher de um líder religioso extremamente conservador.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Kimberly Luciana disse...

Na falta de uma pessoa T no papel, serei mas representada por uma mulher cis, me desculpem ,mas um ator caricato vestido de mulher,pode ser o Tom Hanks que não me representa!

No dia que houver de fato uma distribuição legível de papeis, independente de qualquer gênero que seja, aí sim um ator poderá se atrever em se vestir de mulher, caso contrário prefiro esses papéis nas mãos de pessoas T ou Mulheres Cis.

Lastimável quando a atriz Thelma Lipp perdeu o papel para o Boy Magia do Rodrigo Santoro, acarretando em uma profunda depressão a levando para o mundo marginalizado das drogas!

Enfim, sei que veremos isso outras vezes mundo afora!

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