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» » Travesti levanta a perna, deixa 'arara azul' escapar no carnaval do Rio e provoca a ira de conservadores


Uma travesti desfila de topless e é destaque de um carro da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel. Na tela da TV Globo, é elogiada pela beleza e até recebe um repeteco entre as musas mais belas da escola. Porém, no flagra do paparazzo, estrategicamente localizado abaixo do carro, uma ligeira e pequena escapadela do genital é motivo suficiente para a mídia fiscalizar o membro, "sensacionalizar" o flagra, e consequentemente, inflamar os ânimos de quem estava pré-disposto a criticar. "Oh, meu Deus, ela deixou escapar o pênis! Que descarada! Nem para prender direito, um abuso. Que absurdo", disseram aos montes nas redes sociais, sobretudo membros da comunidade trans. 

A travesti em questão é Patricia Araújo, atriz que esteve na novela Salve Jorge, da TV Globo, e que voltava ao carnaval depois de uma temporada na Europa. Sem querer falar da invasão dos detalhes e da hiper exploração dos corpos que ocorre nesta época – afinal, as pessoas se expõem nesta festa porque querem e como querem - prefiro falar sobre o foco desta polêmica. Ou seja, o espanto descabido do público ao ver algo natural no corpo de alguém que é trans

Não é óbvio que dentro da calcinha daquela mulher havia um falo? Principalmente no caso de uma personalidade pública que já falou inúmeras vezes que não passou pela redesignação sexual? A artista Iara Delacruz disponibilizou ao NLucon a tirinha  em que questiona em tom de humor a polêmica: "É claro que apareceu uma parte do corpo, o que mais poderíamos esperar? Uma arara azul protegida pelo Ibama?”. Em outra arte que circulou na rede, o recado é dado: “Passa a vida esperneando pra invalidar o gênero de pessoas trans pelo que elas têm no meio das pernas. Age como se tivesse visto um avestruz verde-limão quando vê o que uma pessoa trans tem no meio das pernas”.

Neste caso, só não é tão óbvio que a pessoa em questão esteja tão à vontade e confortável com o próprio corpo, que não se viu obrigada a prendê-lo, “aquendá-lo” ou a escondê-lo. E muito menos que se incomode com um flagra, com a crítica sobre alguns detalhes e com uma polêmica fajuta. Afinal, essa pressão para que a estética do genital "não marque", que fique esmagado e que seja idêntico à das mulheres cis [ou redesignadas] nada mais é que um pré-formato, um modelo de mulher [e com tal genital] valorizado, cultivado e embutido inconscientemente na cabeça das pessoas. E embora a genitália geralmente seja o foco, essa estética também se estende para outras partes do corpo, sempre com a finalidade de validar o código de mulher de tal indivíduo.

Explico-me: para a mídia e para os críticos de plantão, não basta ter seios, pernas e bumbum. Só é mulher de verdade ou digna de valorização[e isso se aplica às cis também] quem tiver determinado TIPO de seios, determinado tipo de bumbum e determinado tipo de beleza” – e por consequência uma vagina adequada [agora virou moda dar um reparo estético por meio de cirurgia na dita cuja, vide Geisy Arruda]. É por esse motivo que ainda fico surpreso quando vejo pessoas trans – que teoricamente seriam transgressoras por natureza e que já sofrem tais cobranças - criticarem corpos alheios, cobrarem o padrão cis, "perfeito", de outras meninas trans e também se prenderem a algo que, para essas figuras em questão, não é um problema.

Perdoem-me o pitaco, mas talvez as araras azuis [se assim quiserem] pudessem mesmo ser mais livres, confortáveis e felizes. Afinal, nada mais natural que encarar com naturalidade um corpo com todas as suas possibilidades, transformações e belezas. "Ok, ok, mesmo assim é um exagero e um desrespeito mostrar demais no carnaval", dirão. Bom, quanto a isso poderia dar mil exemplos de mulheres cis que expõem os seus corpos com minúsculos tapa-sexos, exibem os seus bumbuns gigantescos nus, outros flagras e nem por isso são julgadas. E se escapou, meus caros e caras, sinto informar-lhes, este é o Brasil, a mídia e o carnaval que temos para hoje...

Algumas chamadas que saíram na mídia sobre Patricia no carnaval

Um comentário

Anônimo disse...
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