Entrevista

Aos 75, Phedra de Córdoba celebra carreira, amores e vida: 'Ser quem sou hoje era o meu grande sonho'

"Um dos chefes da ditadura se apaixonou por mim e disse: 'Não serás tocada'"

O olhar, a sonoridade e o talento que exalam com exuberância, maestria e suavidade pelos poros de Phedra D. Córdoba petrificam, intimidam e encantam o espectador. A atriz cubana que conquistou os palcos brasileiros desde 1958 é verbo, é carne e é alma derramada como cuba libre ao palco. A cada resposta, um espetáculo teatral inédito, por vezes musicais, dos mais variados gêneros e improvisos, fruto da energia inter-trans-galáctica de um “Guevara sem charuto”, “colibri, jatobá, loba” – como já compôs, cantou e homenageou Luiz Pinheiro.

Aos 75 anos, Phedra é o nome astral e sidérico mais transgressor da companhia paulistana Satyros e, por sua vez, da Praça Roosevelt, em São Paulo. Com quase seis décadas de carreira [e no início atuava como bailarino e ator], ela continua no topo, encara novos desafios com coragem e é aclamada como uma das maiores divas em atividade do teatro brasileiro pelo público e pela crítica. Tanto que vai estrear a peça “Não Morrerás” no dia 8 de março e também se prepara para a obra “Marquesa”, que Alexandre Staut escreveu para ela. 

Com semblante e corpo que ainda remetem aos mais sedutores tempos de vedete, Phedra recebeu o NLUCON para uma entrevista inédita e emocionante. Foram cinco horas de um mergulho profundo - duas delas no bar La Barca e as demais em seu novo apartamento. Nela, a atriz fala sobre a vida em Havana, o contato com a mãe transfóbica, a saída de Cuba em 1954, a vida no Brasil em tempos de ditadura, as casas gays, os amores e... Um novo sonho, que ela faz questão de dizer ser mero capricho. Realmente, uma diva no mais saboroso teor da palavra e do talento. Leia: 

- É impressionante como a sua figura desperta encanto nas pessoas que aqui passam. Você sempre foi uma diva? 

Existem pessoas que falam que eu tenho sorte, mas não foi sorte, foi luta. Ao contrário do que dizem, não saí de Havana como um monumento. Eu queria ser alguém e foi exatamente por causa disso que saí. Eu cantava, dançava, fazia teatro, mas para mim eram passinhos apenas. Naquela época, ser o que eu sou hoje era um sonho. Sei que esse título de diva é uma consequência de carreira, mas essa confusão se dá porque consegui deixar de ser corista para me tornar a figura principal do teatro e boates muito rápido. Os jornais de todo o Brasil davam:  "Chegou Phedra, o homem que virou mulher” [risos]. Esse título é engraçado, eu ria, mas o mais importante é que realmente chamava atenção e lotavam as casas.

- Sei que aos 15 anos fazia aulas de canto, dança... Mas como se descobriu artista?

Sempre fui artista. Na minha família, o irmão do meu pai foi um dos grandes ícones do teatro cubano: Sergio Acebal. Aliás, Córdoba é meu nome artístico, o meu sobrenome é Acebal. E eu sempre o via nos palcos, jamais de perto. O meu pai ia ao camarim, mas dizia que ele era muito estrela, pois pedia uns minutinhos e o deixava esperando por horas. Nas festas de família, o meu pai, Horácio Acebal, sabia que eu cantava e recitava e me instigava: “Vai, Fofo, mostra para os seus tios e para os seus primos...”. Os meus primos riam, me chamavam de mariquinha, mas os meus tios se encantavam. Com cinco anos, já era um prodígio e a minha madrinha disse: “Horácio, não podemos deixar esse menino aqui. Ele tem talento, tem que estar na academia artística”. E ela começou a pagar as aulas junto com o meu pai. Quando me viam no palco, eles piscavam para mim e diziam: “Mira, mira, las personas o miram com admiración”.

'Transexual francesa, Coccinelle me deu hormônios pela primeira vez'

- Embora não tivesse contato, o seu tio foi uma inspiração? 

Ele era um ícone do teatro, mas não me inspirava nele. Aliás, nunca me inspirei em ninguém. O meu pai, quando viu que eu seria artista, disse: “No seas metido como su tío” e também: “Sea modesto, pero no se agaches mucho, pois aparece el culo”. E eu levei isso comigo. Comecei a fazer apresentações como corista na companhia Escola Rosalia de Castro, depois fui para a Cavalcata, famosíssima nos anos 50, fazia números de flamenco e tempo depois me tornei a figura principal. Mas para mim tudo aquilo não era suficiente e eu rodei o mundo para ser quem eu sou, sempre seguindo aquilo que meu pai disse. Para você ter uma ideia, você acha que eu não brigo com o Rodolfo [García Vázquez, diretor do Satyros] hoje em dia? Ele diz algo nos ensaios e, dependendo do que for, eu retruco: “Você tem que me engolir, Zagallo” [risos].

- Durante toda a sua carreira em Havana você não possuía uma identidade feminina e nem se apresentava vestida de mulher? 

Eu era ator e bailarino. Mas não era mulher porque a minha mãe, Maria Tereza Betancourt, não deixava. Ela me olhava de um jeito e não suportava a ideia de eu ser uma mulher, de me ver feminina.  Minha mãe dizia: “No es una mujer, MUJER SOY YO” e pá na minha cara.  Ela falava aquilo, me dava, me dava e eu cheguei a odiar a minha mãe. Ela me arrumava namoradas e eu logo dizia para a chica: “Soy maricas” e só dava a mão quando a minha mãe chegava. Talvez, ela quisesse ser artista, mas nunca me atrevi a falar nada, pois ela tinha um gênio... O meu pai era ao contrário, parecia ter pena. Ele tinha um amor tão grande comigo, que é bem diferente do amor que vemos de pais com filhos afeminados. Sabe aquela coisa: “Ah, viado, tome um cigarro e aprendas a ser macho?”. A minha mãe era assim, o meu pai não, nunca. Ele apenas piscava para mim, acariciava o meu queixo e dizia: “Te cuidas”. Acho que tivemos uma relação de outras vidas. 

- Existiam artistas trans na época?

Eram as transformistas... Mas, preste atenção, em 1953, eu tinha 15 anos, e o transformista Omar Ferran me conhecia como bailarino e me convidou para uma boate que iria estrear na rua principal de Havana e falou que eu teria que me vestir de mulher. Eu estava louca para me vestir de mulher, claro, pois só não havia me vestido ainda por causa da minha mãe. Ele disse: “Tu consegues uma peluca e, como es una gracita, conseguimos o vestuário”. Mas no dia do ensaio geral, eu não sei quem falou para a minha mãe, e ela apareceu gritando: “Saia, desces, desces”. Todo mundo do elenco ficou surpreso [arregala os olhos], pois ela mandou eu tirar o salto alto e jogar longe, tirar a peruca... Tudo aos berros. Ela cortou essa carreira como mulher, pois iria começar ali. Aquilo me trucidou, principalmente porque  as artistas da época me falavam: “Que pena su mama, pois tu darias um travesti maravilhoso ”. Ela disse que queria que eu aprendesse a me comportar como hombre e me obrigou a sair da academia de teatro por três meses. Eu chorei pra caralho... Depois de um tempo, ela quis que eu fizesse dupla com uma mulher e combinou tudo. Disse para essa garota que não me deixasse me vestir de mulher e, em troca, ela seria beneficiada. Ela arranjou uma cúmplice!

- O que você mais queria neste período? 

Eu queria engolir tudo, achava que meu talento era demais. Ambição, ganas, vontade! Hoje, penso: Gente, como eu era ambiciosa. Mas se eu fosse uma pamonhita, não chegaria até aqui. Em 1954, com a companhia Cavalcata, saímos de Cuba e fomos para México, Venezuela, Panamá, Nicarágua, Guatemala... Voltei para Cuba e depois, em 1955, saí definitivamente.

- Então você não saiu fugida de Fidel Castro? 

Não. Em 1955, era Fulgêncio Batista quem mandava. O Fidel só fez a Revolução Cubana em 1959 e neste ano eu já estava no Brasil. Saí fugida da minha mãe [risos].
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'Foi uma atitude assustadora, pois ninguém andava de mulher'

- E como você veio parar no Brasil? 

Estava me apresentando em Buenos Aires – um quadro belíssimo em que recitava García Lorca, cantava e dançava – e o brasileiro Walter Pinto [produtor de teatro brasileiro, 1913-1994] – assistiu, ficou louco comigo e disse: “Você é divino e vai arrasar no Rio”. Cheguei em 1958, para trabalhar no Teatro Recreio. Mas eu não era a Phedra D. Córdoba. Eu era o Felipe D. Córdoba, era um bailarino e ator, e estava com aquela bailarina que me vigiava e era cúmplice da minha mãe. A gente fazia um número de flamenco juntos. 

- E quando foi a primeira vez que você se vestiu com roupas femininas? 

Foi no Rio de Janeiro, no carnaval. Mas essa bailarina, que me vigiava, me viu vestida de mulher duas vezes e mais uma vez ameaçou contar tudo. Como eu não aguentava mais aquela ditadura, disse: “Estou cheia, estou só esperando completar a maioridade, pois verás nascer la mujer que há dentro de mí”.  Ela me chamou de louca, maluca e logo separamos a dupla. Ela até tentou seguir carreira sozinha, mas não conseguiu e me roubou. Havíamos comprado um apartamento juntas, que ela vendeu, não me deu um tostão e se mandou. Simplesmente sumiu. Por quê? Porque mesmo como dupla e eu como homem, a estrela do espetáculo era eu.

No Teatro Rival, no Rio, um dos atores conversou comigo e disse: “Não dá mais para você aparecer vestida de homem. Pois você aparece no palco e as pessoas perguntam se você é sapatão”. Fiquei receio do que o Leal [Américo Leal] iria achar, mas ele incentivou: “Entra, faz o mesmo espetáculo que você faz como Felipe, mas de mulher”. Quando apareci – e era em um show que estavam o Costinha e a Wilza Carla - o Leal ficou assim [arregala os olhos e se afunda na cadeira]. Mas escutou de um empresário de Manaus: “Que coisa linda, que espanhola maravilhosa”. Após o espetáculo, ele entrou no meu camarim, questionou o fato de eu não ter falado nada, mas aprovou: “Tu ficas bonita, adorei. Mas Felipe não é nome de mulher e Felipeta é um horror”. 

- Phedra é por conta da mitologia? 

Corretíssimo! Todo mundo queria me dar um nome – Carmem, Dolores – mas eu peguei um livro de Mitologia Grega e sabia que meu nome estaria ali. Logo vi: Phedra. Delgada, olhos grandes, nariz proeminente... Pensei: “Felipe, Phedra... Phedra!”. Cheguei ao Rival e logo pedi para o letrista mudar o meu nome. O Leal viu e disse que não combinava nome grego com sobrenome espanhol. Mas Córdoba veio de um ator mexicano, que foi para Hollywood, Arturo de Córdova, aquele fez El Conde de Montecristo. Mas o dele é com “v” e o meu é com “b”. Só não pergunte o motivo, porque isso é coisa minha [risos].

- E depois dessa primeira experiência no palco, você já adotou 100% a identidade feminina? Como as pessoas reagiram? 

Foi uma atitude assustadora porque,  embora existissem shows, ninguém andava o tempo todo de mulher . Nesta época, eu morava com uma bicha uruguaia, costureira maravilhosa que, quando me viu, soltou: “Maricas, não estamos em carnaval”. E eu disse que a partir daquele dia era uma mulher. “Você está louca em querer ficar de mulher o tempo todo?!? Você tem um nome para respeitar”. E eu disse: “Já me reprimi a vida inteira e hoje quero levar a vida de mulher. Não vou perder o respeito que conquistei com a arte”. Num show em Manaus, um homem disse que estava loucamente apaixonado e ficava gritando o meu nome em frente ao hotel. E essa Phedra começou a dar o que falar [risos]. Depois, vim para São Paulo fazer um show de transformistas e logo comecei a ser requisitada pelos jornais. Eles não diziam que eu era uma travesti, mas uma mulher dentre as travestis. 

[Neste momento, o bar La Barca começa a recolher as cadeiras, mas antes que pudéssemos finalizar ou remarcar a entrevista, Phedra me convida para ir até ao seu apartamento, ao lado]. 

- Você conheceu á Coccinelle [1931-2006], a mulher transexual mais famosa da França e que causou alvoroço em todo o mundo? 

Não só conheci como digo que foi ela quem me deu hormônios pela primeira vez. Eu era muito amiga da Ivanah, que foi um ator transformista que trabalhava no Walter Pinto, e durante uma saída nossa em uma boate da Lapa, ela me disse: “Viu quem está aqui? Coccinelle!”. Meu Deus, bicha, a senhora vai me levar lá, porque eu sou louca por ela. Vi aquela loira pequenininha, com aqueles peitões, nossa... 

Comentei que queria me assumir como mulher há muito tempo e ela disse em espanhol com sotaque francês:  "Tem que tomar hormônios, toma aqui os meus” e, pá, nas minhas mãos. E acrescentou: “Ela não é um homem, é uma mulher, vai ser uma transexual muito boa” . Coccinelle também comentou que La Bambi [transexual famosa da França] foi amante do Alain Delon. E não adianta falar que é mentira. Foi! Assisti ao show dela, vi todos aqueles homens querendo comer a boceta dela, pois ela foi operada, e, depois, nunca mais a encontrei.
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"Namorei um delegado, que precisava prender comunistas, e ele me mandou viajar"

- Como foi trabalhar nas casas gays de São Paulo? 

Trabalhei na Medieval, Nostro Mondo, Homo Sapiens e tantas outras... No Medieval, por exemplo, fiquei seis anos e, claro, o cenário é bem diferente do que se tem hoje. Eu era a única que cantava e dançava, mas é claro que cada pessoa tem o seu talento, mesmo na dublagem. Mas posso ser muito sincera? Eu não me sentia realizada nesses espetáculos de travestis, pois não tinha a mesma maneira de trabalhar do grupo.  A princípio, os gays não me aceitaram e fiquei dois anos até pegar aquele público. Achavam que eu era muito mulher  e tinha que fazer aquela coisa de “ai”, “ui”, coisas de viado. E eu nunca fiz e não faço até hoje. 

Entre as artistas, havia muita competição e chegaram a colocar cola em um dos meus sapatos. Foi terrível. A única que sempre foi minha amiga foi a Claudia [Wonder]. Fora ela, “ui”... Certa vez, me chamaram para uma festa e... [suspira] me vaiaram! Puta vida, me vaiaram! Um jornal me entrevistou depois, alegou que as pessoas achavam que eu estava fazendo apologia ao heterossexual e eu respondi: “Que bichas burras, que não vão teatro, que não sabem o que é uma apresentação teatral”. Lá havia um palco e eu fiz teatro. Fiquei muito magoada e não quis mais saber.

- Pedi para a artista Marcela Volpato fazer uma pergunta para você. E ela perguntou...

Antes de responder, quero dizer que certa vez eu ajudei o Leão Lobo a selecionar umas meninas para o programa dele e convidei a Marcela para participar. Você acredita que ela vencia todos os programas? Era uma coisa louca, impecável. Chegou ao ponto de o próprio Leão pedir para que eu conversasse com ela, e pedisse para ela dar um tempinho. As outras também tinham que aparecer, né? Depois de um tempo, ela voltou e ganhou de novo!

- Ela quer saber como foi trabalhar no período da ditadura sendo uma mulher transexual e cubana?

Bom, além do medo de eles prenderem todo mundo, a ditadura me custou muito trabalho e eu tinha que ter muito cuidado, pois estava andando no Teatro das Nações.  A minha sorte é que no início um dos chefes da censura era apaixonado por mim e, numa conversa, eu disse: “Você acha que uma mulher como eu merece sofrer?”. E ele: “Não se preocupe, não serás tocada”. Quando ele saiu e outro entrou, a situação não foi nada amigável e eu tive que ir para os interiores, fazer shows em puteiro, me adaptar. Eles estavam me perseguindo, pois eu sou cubana e tinha que falar que eu era espanhola. No Teatro das Nações, fiz a cigana Esmeralda do Corcunda de Notre Dame, mas daí cismaram com a peça, diziam que era comunista e acabou.

Vou para o Rio e começo a namorar um delegado de polícia, lindo de morrer. Até que na nossa conversa ela pergunta de onde eu era, e eu tive que responder a verdade. Ele se desesperou: “Meu Deus, eu tenho que prender comunistas. Você é minha mulher e eu não quero te prender. Vá embora, senão eu serei obrigado a fazer isso”. E eu tive que ir pro Belém do Pará, de um lugar para o outro, de um lugar para o outro, até que ouvi o “Diretas Já”, Falá de Belém... Voltei para São Paulo e me encontrei com a Consuelo Leandro [1932-1999, atriz], minha amiga. Ela me disse: “Bicha, a senhora por aqui, graças a Deus, onde estava enfiada?”. E ela me levou para o teatro, depois fiz uma peça de Zé Celso, foi pintando outros trabalhos, outros trabalhos, outros, outros e eu conheci o Satyros, que é onde estou até hoje. 

[Phedra traz uma pasta com recortes de jornais desde o início da carreira e começa a falar sobre eles].
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Em festa com amigos e Claudia Wonder [acima].
Algumas reportagens sobre Phedra: 'Travesti cubana faz maior sucesso nos palcos do país'

- Em algumas matérias falam que você é travesti e em outras que é transexual. Como você se define? 

Como transexual, porque ser mulher não é aqui [aponta para o sexo], mas aqui [para a cabeça]. Aqui pode haver cirurgia, mas não necessariamente.  A minha cabeça sempre foi de mulher, independente da parte de baixo. Certa vez, namorei um homem do Paraná, que era proprietário de uma empresa de serraria, e ele me levou na casa da mãe. E não é que a mãe não percebeu nada e queria que eu me casasse com ele? Ele me pediu em casamento, mas eu não aceitei porque não havia contado que era uma mulher transexual. Quando falei, ele não acreditou e disse: “Mentira, quando transamos nunca vi um pau”. Mas é que eu sempre tive uma estratégia em relação a isso e muitos homens nunca perceberam [risos]. 

- Por falar nisso, você viveu grandes amores no Brasil?

Sempre fiz muito sucesso com os homens mesmo como Felipe, ator e bailarino. Aqui no Brasil, namorei um policial do DEIC, que me mimava, me tratava como uma dama e que trepava como um deus. Mas descobri que ele era corrupto. Eu morava com ele em um apartamento da Duque de Caxias e ele me chegou um dia e disse: “Pelo amor de Deus, saia daqui, pegue esses dólares e saia já. Eu estou com viagem marcada para fora do Brasil”. Uns dias depois, vejo no jornal que ele foi preso.

- Esse foi o seu grande amor?

Não, não. O homem que eu poderia ter me casado foi o Paulo, maítre da Nostro Mondo. Ele me beijava de um jeito, me chamava para ir para a paia, me dizia cada coisa linda e me comia de um jeito no meio da areia... Mas uma bicha, um cabeleireiro, também o queria, ofereceu dinheiro e acabou levando um soco. A desgraça ocorreu quando a mulher do Paulo foi fazer cabelo justamente com esse cara. Ele contou que o marido dela estava saindo com uma travesti, Phedra. A mulher ficou louca e apareceu na Nostro com um revólver pequeno. Ela assistiu ao meu show, brigou com o Paulo e ele veio correndo ao meu camarim. “Não sai daqui, ela é uma pistoleira e vai te matar”. E eu: “Poxa, com quê mulher você foi se casar, hein?”. 

- Não me diga que aí terminou o romance com o Paulo? 

Essa mulher me perseguiu muito, chegando ao ponto de ir até o bairro em que eu morava e perguntar sobre mim em todos os prédios. Depois, ela fez ele ir embora para Itu. Só fui me encontrar com ele um ano depois, quando estourou uma apêndice, ele veio para um hospital de São Paulo e queria me ver. O meu cunhado chegou até mim e disse: “Vá, você é o grande amor da vida dele. Ele só está casado por causa dos filhos”. Fui... Coitado, como ele me amava, se declarava e estava rendido... Um dia, vejo uma mulher caminhando no hospital e, na hora, percebi que era a mulher dele. Era ela! A gente se olhou, ela não fez nada comigo, mas ao chegar ao quarto deu uma surra nele. Decidi focar na minha carreira porque o meu pai de santo disse: “Ele te ama de verdade, mas larga, eu não quero ver a minha filha morta. Essa mulher vai te matar”. E eu chorei muito, mas já se passaram 25 anos. 

- É verdade que recentemente estava de namoro com um homem de 54 anos? 

O amor é uma idiotice que deixa a gente lelé da cuca, que faz perder a noção e que nos leva à loucura. É algo tão louco que tudo o que a pessoa fala e faz – mesmo sem a gente conhecê-la direito – torna-se a oitava maravilha do mundo. É louco, idiota e maravilhoso. Recentemente, tive uma história com um homem do Facebook que eu não sei se é verdade. Só sei que ele me adicionou, que me chamou no bate-papo e que dizia ser louco por mim. Conversamos por telefone por dias, mas ele começou a querer mandar como se fosse meu marido, sem ao menos ter sexo. Eu não gostei, ele disse que eu sou muito estrela, mas eu respondi: “Eu realmente sou uma estrela”. E a gente terminou. Hoje, eu tenho um ex-namorado que está muito presente na minha vida. Ele me ajuda com a mudança, montou os móveis pesados, me deu presentes para a casa e é um querido. Me perguntam se a gente voltou e se ele está me comendo, mas ele é meu amigo. É uma coisa linda, somos grandes amigos!

[Phedra mostra um recorte de jornal da Folha de São Paulo em que aparece ela, Claudia Wonder e Andréia de Maio assistindo e aprovando o filme “Tudo sobre a Minha Mãe, de Almodóvar].
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"Minha mãe me disse: 'No es mujer, yo soy mujer' e pá na minha cara"
Em turnê com Angela Maria e nos bastidores de uma festa LGBT

- Você comentou como as vaias doeram... O que significa o aplauso para você?

É um alimento para todo artista, é o reconhecimento do trabalho. Anteontem, fui assistir a um ator [Júlio Adrião] que está fazendo A Descoberta das Américas e aplaudi muito, pois ele merece o [prêmio] Shell. Me disseram que há outro bom concorrente também. Bom, eu sou fã do bom ator, da boa atriz, mas quando é bom ator. Hoje em dia, não é todo mundo que nos faz ficar assim [arregala os olhos e suspira], como faz a Angela Barros, a Norma Toledo...

- E o que falta nesta nova geração de atores?

 Ser ator por amor e não por glamour. Muita gente vem para as companhias porque vai ter tal status, vai pra Globo e... Não pensa em estudar, em se atriz, em amar, em fazer algo que saia de dentro, em viver aquele personagem. Quando vou para o palco, eu choro de verdade, eu sinto tudo aquilo dentro de mim, me emociono muito e, com isso, emociono quem está do outro lado. Há quem se surpreenda que em uma simples leitura as lágrimas saiam... Mas é que tem que ser de verdade! Não sou capaz de colocar vidro no olho pra chorar. Não, não! O texto é que tem que ser esse motivador, ele é que tem que tocar o artista para fazê-lo se emocionar. Quando vivi uma senhora de cadeira de rodas que não recebe a visita do filho [em Hipóteses para o Amor e a Verdade], eu chorava tanto, porque aquilo me doía como se fosse o meu filho de verdade.

- No Oscar deste ano, o ator Jared Leto ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante por viver uma trans com hiv. O que você acha de papéis de mulher transexuais geralmente serem preenchidos por atores homens cisgêneros no cinema?

Sabemos que existem atrizes transexuais maravilhosas, inclusive na Espanha há duas estrelas fantásticas e que poderiam ser escaladas para qualquer filme.  Mas Hollywood é preconceituosa, Neto, e dificilmente dará destaque para uma atriz transexual, muito menos um Oscar. É preconceito, simples assim. Eles sabem que existem atrizes trans maravilhosas, talentosas, mas o que mostram sempre? É o homem vestido e fazendo uma caricatura ou então uma mulher [cis] se esforçando para convencer. Nunca uma transexual. Não retratam uma transexual como ela é de verdade. O filme Transamérica foi ótimo, por conta da maneira como foi conduzido, mas não tivemos uma atriz transexual. Foi uma atriz mulher, a Felicity Huffman, e tava na cara! As pessoas me dizem que eu me daria bem em Hollywood, mas sempre falo para estas pessoas acordarem. Eu tenho nome no Brasil, Espanha, Cuba e em vários lugares do mundo, mas nunca seria bem-vinda em Hollywood.

- Como é ter 75 anos, continuar na ativa e no auge da carreira? 

Como você disse, estou sempre trabalhando, atuante, produzindo... Eu tenho uma idade que ninguém diz que eu tenho. Tenho 70 e poucos, e todo mundo diz que eu tenho 50, então está tudo bem...

- Depois de mais de 50 anos, você voltou para Cuba em 2006. Como foi? 

Há algo espiritual na minha vida que me dá algumas coisas inacreditáveis. Eu estava fazendo um espetáculo no Satyros quando, de repente, o Heitor Saraiva diz que havia duas companhias cubanas no Festival de Teatro Latino. Ele contou para elas sobre mim, que ficaram loucas para me conhecer. Deste contato, surgiu o convite da Secretária de Cultura de Cuba para a gente ir para lá. Foi uma coisa linda, pois quando eu cheguei ao aeroporto já estavam todos nos esperando: “Phedra, a diva cubana que mora no Brasil”. Minha família cresceu, meus sonhos ficaram homens, casaram, eu tenho sobrinhos netos, sobrinhos BISNETOS! E até sobrinhos tataranetos!

-[risos]. 

Não ria, porque é verdade [risos]. 

- Foi bem recebida pela sua família?

Poxa, faz mais de 50 anos que não vou. E quando mandei uma carta para o meu pai com uma foto, a mãe rasgou. Hoje, todos os meus irmãos morreram, mas deixaram o legado dos filhos, dos netos... Então, como sou a única viva dessa geração, sou adorada pela família.  Dizem com carinho: “A tia, tia, tia”. E não querem saber se fui tio, sou tia!  É lindo, mas eles não estão tão bem em Cuba até hoje, por conta do Fidel e tem que aguentar... Quer dizer, meus sonhos dizem: “Que bom que você pode fazer o que bem entender no Brasil”. Lá, eles não podem falar nada, só falam para mim, que sou a tia deles. Alguns já foram para os Estados Unidos e não querem voltar. 

- No início da entrevista, você disse que saiu de Cuba justamente para ser alguém, uma diva. Respirou por lá o ar de missão cumprida? 

Claro, me alegrei muito, porque gostei de como eles me receberam, com sala vip, jornalistas querendo saber de mim... Todos me disseram: “Que mulher é essa?”. E depois o Marcelino Freire me mostrou um livro de Cuba, com uma foto minha, escrito: “Esta é uma diva cubana que mora no Brasil”. Era o que eu queria, mas consegui só depois de 50 anos. Também fiquei emocionada quando fui para Amsterdam e ganhei uma bandeira do Brasil. Eu entendi tudo: estava sendo reconhecida como uma artista do Brasil e isso é maravilhoso. É claro que nasci em Cuba, que me criei lá, que sou cubana, mas tenho amor pelo Brasil. Porra, muita gente me abriu os braços, me protegeu e me aplaudiu.

- Phedra, qual é o seu sonho hoje? 

Eu já sonhei muito, agora não é hora de sonhar. É hora de ter projetos fixos. Quero que a peça "Marquesa", que o Alexandre Staut escreveu para mim, seja um sucesso [a peça conta a história de Madame Pompadour,uma cortesã francesa, que se tornou amante e protegida do Rei Luís XV da França]. Eu tenho um sonho, mas que não falo para ninguém. Não posso falar, afinal muitas atrizes já falam o nome dele...

- Sem problemas, Phedra, só fale se você quiser...

Acabei de te mostrar uma reportagem de que assisti a um filme dele... Esse pode ser o meu sonho de hoje, talvez... Porque muitas pessoas me dizem o tempo todo: “Se ele te ver, você engole ele e faz vários filmes. Você é uma atriz dele, para ele, é para isso”. Mas eu quero conhecê-lo assim, de frente, olhar desta maneira, quero sentir ele... Mas não é sonho, coloca aí, é só um capricho...
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"Demorei dois anos para conquistar o público da Medieval"
"Conhecer [Almodóvar] não seria sonho, seria um capricho".


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

4 comentários:

Anônimo disse...

Entrevista mais do que maravilhosa....e como ela mesmo ja disse vc conseguiu tirar histórias inéditas, detalhes jamais contados antes...essa é a diferença de suas entrevistas Neto Lucon parabéns pra vc e pra nossa grande Diva dos palcos, super beijo

Marcela Volpato disse...

Entrevista mais do que maravilhosa....e como ela mesmo ja disse vc conseguiu tirar histórias inéditas, detalhes jamais contados antes...essa é a diferença de suas entrevistas Neto Lucon parabéns pra vc e pra nossa grande Diva dos palcos, super beijo

loren gudarthy disse...

eu não a conhecia hoje por causa da sua morte passei a conhecer sua história..
Parabéns pela reportagem descanse em paz

loren gudarthy disse...

eu não a conhecia hoje por causa da sua morte passei a conhecer sua história..
Parabéns pela reportagem descanse em paz

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