Pitacos

Após Salve Jorge, Globo volta a dar personagem transexual para ator cisgênero; trans questionam

Luis Miranda interpreta a transexual Dorothy: "Espero que as pessoas tenham carinho por ela"

Se em 2013 a visibilidade trans esteve latente e foi comemorada na novela Salve Jorge, da TV Globo, com duas atrizes transexuais no horário nobre, em 2014 a primeira personagem trans de destaque voltará a ser interpretada por um homem cis. Trata-se da novela das 19h, Geração Brasil, que estreia no próximo mês com a personagem transexual Dorothy Benson, vivida pelo ator Luis Miranda. Na trama de Filipe Miguez e Izabel Oliveira, Luis será a supermãe do guru Brian Benson [Lázaro Ramos]. Ela teve o filho antes de passar pela cirurgia de redesignação sexual, a mudança de sexo.

"Um passo para a frente, outro para trás na teledramaturgia", avaliam militantes e artistas, como Daniela Andrade, Laysa Machado, Lirous Fonseca, Leonarda Gluck... A polêmica se dá desde o Oscar de Jared Leto, pelo papel de uma transexual no filme “Clube de Compras Dallas”, que desvendou que atrizes transexuais, travestis ou transgêneros tem visibilidade inexpressiva e raramente conseguem oportunidades e um papel, seja na televisão ou no cinema, mesmo quando se trata de personagens com características e vivências semelhantes, uma possível primeira porta de entrada. 


Na verdade, são atores e atrizes cisgêneros [aqueles que tem o sexo biológico em concordância com o gênero] que abocanham todos os papeis. Inclusive os de personagens trans, pecando nestes casos pelo exagero da caricatura, do estereótipo e da falta de realismo para as cenas. Não se trata de falta de talento de atores cis para interpretar trans, mas da contradição de evocar invisibilidade ao querer dar luz para o grupo. A falta desta real visibilidade é comparada ao black face, época em que personagens negros eram interpretados por atores brancos com a pele pintada no cinema clássico. 

Ou seja, um reflexo do preconceito social contra um grupo e da falta de oportunidade de trabalho que apresenta em todos os campos. Até mesmo na arte. Sim, é preciso atentar e falar que há artistas, que são trans, que são maravilhosas e que precisam de trabalho. O ideal, evocam as atrizes, é que haja mais oportunidades para atrizes trans e, com o tempo, derrubem-se então os rótulos de identidade de gênero. Assim como ocorreu com a atriz Rogéria, que pela primeira vez interpretou uma mãe a vó cisgênero na novela Lado a Lado, em 2013. Mas este é um processo longe de ser uma regra e que, se não houver debates, a representatividade continuará inexpressiva.



Exemplos do contrário não faltam na telinha: Luis Salém como Ana Girafa em “Aquele Beijo” [2012], Denise Del Vecchio na pele de Augusta, em “Vidas em Jogo” [2012], Miguel Magno como Dona Roma em “A Lua Me Disse” [2005], Claudia Raia vivendo Ramona em “As Filhas da Mãe” [2002], Floriano Peixoto sendo Sarita em “Explode Coração” [1995] e Luis André como a Mulher Fruta de "Sangue Bom" [2013].

Nos últimos anos, somente Maria Clara Spinelli, Patricia Araújo [ambas em Salve Jorge] e Fabianna Brazil [Vende-se um Véu de Noiva, SBT, 2009], conseguiram destaque em uma telenovela. Bruna Bee teve uma rápida aparição no fim de "Amor à Vida", neste ano. Vale lembrar que Claudia Celeste, a primeira travesti a participar de uma novela brasileira sofreu censura em 1977 e só foi voltar para a tevê 10 anos depois.

Sem saber da polêmica que se instaura entre militantes e algumas artistas, Luis afirmou em entrevista que pretende levar uma trans possível, aceitável e amável para os lares brasileiros. “Estou tentando colocar generosidade nela. Espero que as pessoas tenham carinho por ela”, afirma ele, que é talentosíssimo e já interpretou outros papeis femininos no teatro. 

É o suficiente para acabar com a transfobia no país? Será que é possível ter visibilidade tendo invisibilidade de tais figuras? Pense...

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

valéria houston disse...

não acho suficiente e nem pertinente..estamos em 2014 e várias questões constantemente voltam a tona..ora..depois vem um enxurrada de comentários maldosos em sua maioria a respeito das trans e travestis..pessoas nem ao menos querem conhecer este universo pra poder,ai sim,formar uma opinião de "gosto"ou "não gosto"..mascarar isto é transfóbico sim!temos muitas,muitas atrizes trans com know-how pra afazer este papel..outras nem tanto é verdade,seria uma ótima oportunidade de mostrar com exatidão este universo,e mais que isto mostrar respeito a toda esta classe!não gostei!

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