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Chilli Pepper comemora dois anos e conta com cinco profissionais trans; confira histórias de superação

Alcione é chefe da lavanderia e Kelly trabalha como camareira

Comandado pelo empresário Douglas Drumond, o hotel 269 Chilli Pepper comemora nesta terça-feira, 29, os dois primeiros anos de muito sucesso. Além de ser o único hotel para homens [e seus prazeres] da América Latina, o empreendimento tem muitos feitos e novidades para festejar. Foi indicado pela Louis Vuitton City Guide São Paulo 2014 como um dos melhores da cidade, implantou o ISO 9001, que visa a padronização e melhoria dos serviços, soma  11 mil frequentadores mensais, vai inaugurar cinco suítes de luxo, um site repaginado... E tem a exemplar iniciativa de empregar várias profissionais trans.


De 60 funcionários registrados, cinco são mulheres transexuais ou travestis, que trabalham nas mais diversas áreas e funções dentro do espaço. A iniciativa vem da consciência política de dar oportunidade e de confiar no profissionalismo do grupo, que encontra dificuldade de se inserir no mercado formal de trabalho. Lá, Samantha D Saba é supervisora de turno, Alcione Carvalho é chefe de lavanderia.  Kelly Shield e Luisa Marilac – sim a travesti dos “bons drink” – são camareiras. Já Paola trabalha na lavanderia. 

Todas com a identidade de gênero respeitada, tanto no tratamento formal, interpessoal quanto no uniforme, e direitos trabalhistas em dia. Para comemorar - e com toda a razão - o hotel fará um coquetel às 19h, terá a música dançante de Anderson Noise e trará a presença sensual do gato Chilli Pepper Bruno Camargo, também conhecido como o bombeiro do Programa Eliana, do SBT. O NLucon deixa desde já os parabéns pelos dois anos, agradece o apoio e torce para que o hotel tenha cada vez mais sucesso por muitos e muitos anos. 

Abaixo, dois depoimentos ao NLucon:   

“Posso ser quem eu sou de verdade", diz Kelly Shield

Kelly é camareira, mora sozinha e sonha em entrar para um curso de dança

Aos 28 anos, a baiana radicada em São Paulo Kelly Shield chega todos os dias às 7h da manhã para o trabalho de camareira, que se estende até às 15h. Veste o uniforme feminino, que leva o nome da empresa na manga, e parte logo para os chamados serviços de quarto. O trabalho consiste em varrer e passar pano no chão, retirar o lençol e as fronhas usados pelos hóspedes, colocar novas roupas de cama, e borrifar um perfume agradável no ar. O encantador sorriso é a marca registrada, assim a dedicação à nova profissão. “Sou alegre, trabalho com bom humor, mas também sou bastante profissional. Valorizo a minha conquista e saio da minha casa com o objetivo de desempenhar um bom serviço”.

Este é o primeiro trabalho formal de Kelly, desde que revelou ser uma mulher transexual, aos 18 anos. Na época, foi automaticamente expulsa de casa pela mãe, perdeu o trabalho de cabeleireira e manicure. E viu as portas do concorrido mercado de trabalho se fecharem. “Poderia ser ingenuidade, mas não sabia que exista tanta transfobia e preconceito no mundo. Até nos salões em que eu trabalha as pessoas diziam que só me aceitariam se eu tivesse o visual de um homem gay, cabelo preso, calça jeans, não de uma trans. O argumento era que muitos maridos das clientes iam lá”,  conta.

O nome social veio da paixão pela cantora Kelly Rowland e pelo extinto grupo Destiny’s Child, que traz várias músicas "de volta por cima". É por isso que a confiança em dias melhores fez a diferença na busca por um emprego. “Cansei de bater em portas de empresas que afirmavam aceitar a diversidade, mas quando viam o meu documento masculino, diziam que telefonariam e nunca mais falavam comigo. Nesta época, tive medo de ter que seguir os passos da maioria, ir para as ruas, me prostituir e sofrer alguma violência. Mas nunca fiz programa na minha vida. Sempre fui atrás das minhas coisas: seja fazendo unha, pintando cabelo, fazendo escova...”.

A indicação ao Chilli Pepper foi de um amigo, que revelou que o espaço era acolhedor e nada transfóbico. Foi chamada dois dias depois da entrevista. Segundo Kelly, a boa recepção foi imediata e os atuais quatro meses de trabalho são enriquecedores. “Aqui pude pela primeira vez ser quem eu sou de verdade, a Kelly, e ser tratada como Kelly”. O cargo de camareira, visto com desdém por muitas, é motivo de grande orgulho para ela. “Estar inserida no mercado formal é uma maneira de pensarmos no futuro. Hoje, moro sozinha, tenho a minha liberdade e até as minhas amigas trans, ao me verem feliz, dizem: ‘Tem vaga lá pra mim também?’ [risos] Tem gente que critica, mas é muita menina que quer sair da prostituição, viu?”, afirma.

A única coisa que faz seus olhos amolecerem é ao falar da mãe. “Em um encontro no ônibus, ela fingiu que não me conhecia. Sei que a situação é delicada, mas que não posso deixar de ser quem eu sou, deixar de ser feliz, por causa do preconceito dela. Hoje, se eu preciso de um apoio, procuro somente a Deus, é com ele que converso”, declara. "Mas procuro deixar os meus problemas dentro de casa, não levo para o trabalho". Um novo sonho ou projeto profissional? Ela sorri novamente: dança. “Hoje, os dias estão corridos por conta do trabalho, mas estou juntando dinheiro para que, num futuro próximo, eu possa entrar em uma escola de dança e realizar esse sonho”.

Dedicação e torcida não faltarão!

“Travesti é dignidade, trabalho e cidadania”

Alcione: "Pelo empenho e confiança do trabalho anterior, me deixaram escolher em qual setor trabalhar"

“Ser travesti é ter dignidade, trabalho, respeito e cidadania”. É com essa frase que a chefe de lavanderia e militante Alcione Carvalho, 48, inicia a conversa e tenta desmitificar o estigma da marginalidade despejado sobre o grupo trans. Com boné, uniforme branco e fala articulada, ela comemora dois anos de Chilli Pepper e também cinco anos de parceria com Douglas Drumond, de quem é amiga e também trabalhou na ong Casarão Brasil, atendendo pessoas sujeitas à vulnerabilidade social. Mas nem sempre o mercado de trabalho sorriu ou se abriu para a piauiense que veio a São Paulo em busca de uma vida melhor.  

Alcione trabalha desde os oito anos, quando a mãe morreu, e já esteve em muitas funções ao longo da vida. Perdeu o último emprego depois que revelou ser travesti e trilhou o comum caminho da prostituição. “Fiquei 15 anos sem ter um real para nada, só tinha a esquina. Mas vi que muitas ficavam à noite toda só para comer no dia seguinte, para pagar o hotel, a cafetina, o perfume. E esse círculo vicioso, que no fim das contas não dá em nada e que não sobra nada, foi me revoltando. Sentia vontade de estar inserida no mercado de trabalho, de ganhar uma cesta de Natal... Por mais que isso seja considerado pequeno, era importante para mim naquele momento”, revela.

Com a premissa de que o primeiro passo deve ser o próprio, Alcione foi atrás de sua oportunidade. Foram muitas as vezes em que viu promessas serem desfeitas - "a sociedade quer nos empurrar para a marginalidade". Mas a persistência e o engajamento político superaram o preconceito. “Ouço algumas dizerem não querer deixar a rua porque ganham muito mais lá que em um trabalho formal. Isso me entristece tanto. É claro que na esquina você chega sem dinheiro e volta com a bolsa cheia dele, mas muitos direitos e deveres são perdidos. Não contribuímos com a presidência, não temos o INSS, nem carteira assinada, não temos benefícios trabalhistas, aposentadoria, seguro em caso de acidente ou problemas de saúde... Ao contrário, na prostituição vemos um dinheiro rápido e que vai rápido também. E com grande risco de morte. Eu mesma enterrei várias travestis”.

Para ela, é necessário que haja a união do maior acolhimento das empresas e também maior vontade por parte do grupo. Há 18 anos como militante pelo Estado e município, Alcione diz que definitivamente ama o que faz dentro do hotel. Aliás, o trabalho como chefe da lavanderia na Chilli Pepper foi escolhido por ela mesma. “Olha o privilégio que eu tive. Depois de trabalhar no Casarão e já estar dentro do projeto da construção do hotel, fui chamada pelo gerente geral para escolher em qual área eu gostaria de trabalhar. Ou seja, fui eu mesma que escolhi. Mas não me considero chefe da lavandaria, pois não gosto desta palavra. Somos todos colegas e companheiros de trabalho”, frisa. 

De acordo com Alcione, o lado positivo de trabalhar no Chilli Pepper é o respeito geral e a oportunidade de viver sem máscaras sociais. “Se você perguntar qual é o melhor emprego do mundo, eu vou te dizer o meu. Se você perguntar qual é o melhor patrão, eu vou dizer o meu. E se você perguntar qual é a melhor casa do mundo, eu vou dizer que é a minha. Aqui, além de ser uma referência positiva por haver emprego para várias pessoas trans, estamos dando incentivo para que demais empresários também empreguem o grupo. É mais que importante uma iniciativa como essa, é fundamental”, finaliza.

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Luisa Marilac também contou em vídeo a experiência:
"Não é vergonha usar uniforme"




[Embora esta reportagem fale sobre mercado formal de trabalho, o NLucon não faz juízo de valores em quem trabalha como profissional do sexo. Afinal, trata-se de uma profissão digna, com a troca de serviço e satisfação do cliente e que merece ser amparada pelas leis. O que deve ser exposto, reavaliado e combatido é o estigma. Ou seja, considerar que travesti é sinônimo de prostituição ou que é neste ramo que encontra-se a única fonte de renda e oportunidade para o grupo trans].

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Flavia Araujo disse...

É isso ai Alcione, rua é ilusão, devemos sempre fazer de tudo para larga este ciclo vicio, eu lutei para alcançar meu espaço, comecei a costurar e sair vendendo por ai, hoje sou formada em letras, curso técnico em biblioteca e trabalho numa biblioteca de uma escola.

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