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Como é para homens e mulheres transexuais viverem num Cis-Mundo

No Cis Mundo, futuro começa a ser desenhado ao saber o genital do bebê
Por Luiz Uchoa
Arte: Jackson Adriano


O mundo em que vivemos é cisnormativo, heteronormativo e transfóbico. Além de afirmar que o genital determina o gênero – e todo o futuro do indivíduo, como a orientação sexual e a expressão de gênero - quer determinar ainda o quê e como transexuais devem ser e sentir. Esquece que a vivência de uma pessoa trans na vida prática vai muito além dos estereótipos divulgados. Esquece, por exemplo, das pelejas de conviver num mundo cis ao avesso, sofrer com as regras que não fazem sentido e não se sentir pertencente às fôrmas prontas.

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Exagero? Imagine como é viver em um corpo e uma identidade que não é a que sente e é na realidade. Pense como é estar na adolescência, fase em que todos se relacionam normalmente, e ter que viver representando um papel que não é o seu para ser aceito. Cogite apresentar um documento no banco ou no médico e sinta o constrangimento por sua aparência não condizer com o nome e o sexo de registro que está ali. Ou então, levar esse mesmo documento no processo admissional em uma empresa e aguardar em vão um resultado positivo.

Se já não fosse o bastante, imagine viver em um mundo em que mulheres cis dizem que mulheres transexuais não são dignas de serem mulheres porque não podem gerar uma vida ou menstruarem. E num mundo em que homens cis vangloriam-se de um pênis e dizem que os homens transexuais são lésbicas masculinizadas por não terem o dito órgão. Estas pessoas esquecem que existem mulheres cis inférteis ou que passaram pela menopausa. Esquecem que homens transexuais conquistam suas/seus parceiros pela atitude e pela felicidade que provocam como um todo, e não por uma parte do corpo. 

Ser homem ou mulher vai além da biologia. É sentimento e percepção de ser e sentir no mundo e em suas relações de natureza intrapessoal e interpessoal. Mas, ao invés de questionarmos o que é homem ou mulher ou como um transexual deve ser, por que não usamos a energia para resolver problemas sociais sérios em tantos lugares do mundo, como a fome, a miséria, o preconceito e as injustiças? Cismundo, acorde! Resolva as mazelas realmente necessárias para assim haver esperança de um mundo melhor onde o amor e o respeito sejam palavra-chave.

Homens e mulheres transexuais precisam de respeito, direitos garantidos e uma vida menos sofrida, pois nascemos para ser felizes seja como somos. E, se esperança é a última que morre, espero estar vivo para viver em um mundo sem o rótulo cis.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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