Pitacos

CQC faz quadro para punir abusadores de mulheres, mas passam a mão na transfobia

Guga Noblat acha que travesti pode servir de punição para abusadores de mulheres

Baseado na campanha #NaoMereçoSerEstuprada, o programa CQC exibiu na noite de segunda-feira, 7, um teste para ver – dar um susto e uma lição de moral – em homens que se aproveitam de mulheres bêbadas na balada. Porém, o quadro apresentado por Guga Noblat resvalou em outro preconceito tão grave quanto à misoginia: a transfobia. 

No Olho por Olho, uma atriz pedia para que homens ficassem cuidando de sua amiga alcoolizada em um espaço privativo, com uma câmera escondida, enquanto ela pagava a comanda. Após registraram o abuso, seguranças entravam na sala, davam um susto no rapaz e levavam a mensagem de que nenhuma mulher deve ser tocada sem que ela queira.

Porém, durante o quadro, Guga disse que era hora de aumentar o volume e ir para a fase 2. Ou seja, substituíram a mulher cis e incluíram uma travesti no teste para “dar uma lição nos taradões”, como ele mesmo argumentou. Durante a encenação, o rapaz abusa da garota trans e a cena é vista com deboche. Tanto que o repórter fez, entre outras piadas, “Mal sabe ele que colocou no colo João e não Joana” e “Saiu com o rabinho entre as pernas”. 

Para quem está acostumado com esse tipo de exposição, nada de muito grave foi feito. Mas é preciso atentar que...

O CQC reproduziu o mais torpe preconceito à população trans: à de que elas só servem para enganar, que não são respeitadas como mulheres e que podem servir de punição para homens abusadores de mulheres cis. Mais que isso, evidenciaram que as trans e seus parceiros são dignos de chacota, piada, deboche e que a transfobia e o abuso a uma trans pode, sim, sem problemas. Afinal, após saber que se tratava de uma travesti, o rapaz sobe o vestido dela para ver o genital e nenhum comentário é feito, além do risório “surpreeesa” da atriz cis.


Pergunto-me: quando a televisão vai parar de encarar uma pessoa trans como pessoas que querem se passar por aquilo que não é? Quando essa população deixará de ser vista como deboche? E quando os homens vão parar com o discurso - e a piada - de que foram "enganados" por alguém que tem a identidade de gênero que eles estão vendo? Por que frisar no genital, ignorar uma história e infringir o respeito que qualquer pessoa merece?

É preciso lembrar que programa acerta muitas vezes, sobretudo nas intervenções de Marcelo Tas, mas que nesta segunda-feira mais pareceu uma menção às pegadinhas do Sergio Mallandro nos anos 90, e pecou pela falta de respeito à população trans e a sua identidade de gênero. Desculpe-me, mas é
 no mínimo incoerente e lamentável passar a mão em outros preconceitos num quadro que promete quebrar preconceitos e respeitar o ser humano. Até porque apontar as falhas alheias é fácil - digo isso por mim mesmo - mas reavaliar as próprias é que o verdadeiro e o mais importante desafio. 

Assista abaixo [a cena com a trans começa a partir dos 10 minutos]. 
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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Sthefany Venturiny disse...

Achei a matéria ridícula preconceituosa e mais ridícula a travesti que se sujeitou a isso aceitou servir de chacota de deboche.

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