Pride

Eleita a mulher mais bela pela People, Lupita Nyong’o denuncia racismo e revoluciona ditadura da beleza

Lupita Nyong'o, a mais linda do mundo: naturalmente bela e talentosa

A lista das 50 mulheres mais bonitas do mundo, feita anualmente pela revista norte-americana People, tinha tudo para ser mais do mesmo em 2014. Mas, pela primeira vez, a publicação apostou – e acertou – no quesito diversidade. A vencedora da lista, a atriz mexicana radicada no Quênia, Lupita Nyong’o, que venceu o Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo filme “12 anos de Escravidão”, que se tornou embaixadora da Lâncome e que mesmo assim enfrenta dificuldades para se firmar no topo como atriz devido ao racismo [conforme informou o The Hollywood Reporter].

No discurso da gata, nada de superficialidades. A artista de 31 anos disse que está feliz com o resultado por saber que várias meninas negras se sentirão representadas ao vê-la na lista. E apontou que, quando era criança, o padrão de beleza na indústria cultural era um só: “Pele clara, cabelos compridos e lisos”. E que conseguiu superá-lo pelos vários elogios da mãe, que sempre a chamou de linda. “De forma inconsciente, você começa a valorizar mais essas características [de beleza que a mídia impõe] que aquelas que você mesma possui”, declarou.

Tamanha comemoração com a valorização de Lupita é um avanço. Afinal, ela é deslumbrante, linda, talentosa, ícone de moda, carismática, merecedora e, neste ano, all concours. Mas a surpresa que muitos levaram ao ver o seu nome também revela os resquícios do racismo no mundo. Afinal, num planeta em que um apresentador brasileiro chama o cabelo de uma mulher negra de vassoura de bruxa e nem se enrubesce ou então que uma mulher negra é arrastada até a morte num carro de polícia, o cenário ainda não está acostumado a colocar a beleza da mulher negra e suas características únicas e belas no topo.

Na lista da People dos anos 90, por exemplo, somente mulheres brancas - Michelle Pfeiffer, Julia Roberts, Jodie Foster, Cindy Crawford, Meg Ryan, Courtney Cox – foram escolhidas e eleitas. Em 2003, pela primeira vez e só depois de 14 anos , Halle Berry emplacou, seguida da loira Beyoncé, em 2012. Ainda assim, nenhuma das duas possuí as características, o cabelo e a negritude de Lupita. 

Essa reflexão pode ser vista em outros exemplos sociais e midiáticos: quantas negras estão nas capas de revistas, sem contar a revista Raça? Na revista brasileira Playboy, por exemplo, temos apenas 2%. Quantas venceram o Miss Brasil, além de Deise Nunes, em 1984? Quantas vezes escutamos frases preconceituosas ou preconceitos disfarçados de elogios, como "Ela é negra, mas é bonita" ou "Ela é uma negra bonita?". Quantas princesas, bonecas e personagens negras temos de referência e propaganda para as crianças? Quantas personagens negras históricas são lembradas dentro das escolas? E quantos negros estão dentro das universidades? 

"Fiquei honrada e feliz porque muitas meninas vão se sentir representadas ao me ver na lista"

Sendo assim, Lupita carrega o trunfo de ser bela, talentosa e ter muitas pessoas que a admiram por todos os adjetivos. Mas também o fardo de enfrentar os preconceituosos de plantão e levantar uma bandeira social – haja vista os comentários racistas no site da People. O lado positivo é que ela tem a consciência do importante papel que tem [ufa!] e que, ao invés de fazer vistas grossas e pensar que o problema não existe - vide o lutador Anderson Silva, que afirmou à revista Trip não querer levantar bandeiras e que não acredita que o Brasil seja um país racista - promete utilizar a própria referência da melhor maneira possível. 

Ela sabe por experiência própria que referências são importantes. Tanto que, em uma entrevista, disse que recebeu uma carta de um jovem que estava se preparando para comprar um creme branqueador de pele, mas que voltou a ter autoestima depois que a viu. “Lembrei de uma época em que me senti muito feia. Sintonizei a tevê e vi apenas gente de pele branca”, conta ela, que também se inspirou na modelo Alek Wek. "Espero que minha presença nas telas e meu rosto nas revistas possam ajudar garotas em uma linda jornada. Não há vergonha na beleza negra". 

Prova de que sua figura tem poder transformador é que a lista da People em 2014 ficou muito mais interessante. Além de Lupita, é possível ver um mix de belezas, com a da atriz Kerry Washinghton, da roteirista Mindy Kaling, da atriz Julia Roberts, da cantora Pink, da atriz Gabrielle Union e da Jennifer Lawrence. A mensagem foi e está sendo dada: “Beleza não deve ser ditada, mas uma expressão a favor da liberdade da mulher para ser ela mesma", afirmou a artista, quando foi anunciada como embaixadora dos produtos Lâncome. Ou seja, a referência que todos, TODOS os mais conscientes, pediam há tempos. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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