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Em ‘Não Morrerás’, Phedra de Córdoba canta Beatles, fala sobre morte e eternidade

Crédito fotos: Andre Stefano.

Phedra de Córdoba está em cartaz toda terça-feira, até o dia 28 de setembro, às 19h, com a peça “Não Morrerás”, do projeto “E se Fez a Humanidade Ciborgue em 7 dias”, no teatro Satyros, em São Paulo. A obra, dirigida por Rodolfo García Vázquez, conta com texto de Drauzio Varella e aborda os anseios do mundo contemporâneo, que busca a fuga do envelhecimento e da morte, a caça desenfreada por cirurgias plásticas e padrões artificiais, e pela essência básica do sonho de ser feliz, viver e super-viver. 

A música “Não tenho Medo da Morte - com a continuação, Tenho medo de Morrer- ”, de Gilberto Gil, cai como luva na temática. Dublada pela cabeça de um “robô humano” – cuja novidade deixa a plateia de olhos arregalados– a trilha promove a reflexão de que a “morte é o depois, quando já deixamos de respirar”, enquanto que “morrer ainda é estar aqui, na vida, no sol, no ar”.

No palco, os atores Bruno Gael, Fábio Ock, Fábio Penna e Henrique Mello levam a atriz Katia Calsavara para um mergulho na ditadura da beleza, na busca para se prolongar a vida, nas mudanças das formas e na desumanização perfeita ciborgue. Falam de despedidas, do último contato, e questionam - fazendo-nos também questionar - os sonhos de criança e ambições futuras. Um IPad, camisinhas prestes a estourarem e um e-mail enviado direto para o futuro fazem parte da construção das cenas. Provocam euforia, agonia e lágrimas.  

Phedra dá o contraponto e surge ao lado da mulher-boneca como a diva clássica, interpretando a sua própria figura – a de quem se auto fez e conseguiu ser quem queria aos 75 anos. Desfila com elegância, canta em inglês e se desnuda num telão e no palco, revelando a pele marcada e moldada por décadas de histórias e sobrevivência. Em seu número, entrega-se na música Something, dos Beatles - "I don't want to leave her now, You know I Belive and how"encarnada, dramatizada e, claro, sempre aplaudida pelo público. 

“Não tenho medo da morte. Ao contrário, tenho curiosidade de saber como é essa passagem. Sei que existe algo muito além da vida, pois já tive contato com o meu pai há alguns anos. Eu estava deitada, ele apareceu para mim e eu gritei. Uma amiga, que nunca o viu, também chegou dizendo: 'Era o seu pai'. Então, não tenho medo. A minha única exigência é que eu esteja muito bem maquiada”, comenta a diva ao NLucon. “É vaidade de artista”.

Com rápidos e bem aproveitados 50 minutos, que poderiam ser prolongados para mais 50, “Não Morrerás” é um pincelar de sentimentos pelas perdas e ganhos, pelos medos e sonhos, pela arte, interação e tecnologia. Impossível não se deixar levar pelo convite a questionamentos tão universais, contemporâneos e existenciais.
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A peça é uma das sete encenadas pelo Satyros, em comemoração aos 25 anos: Não Amarás, Não Fornicarás, Não Permanecerás, Não Saberás, Não Salvarás e Não Vencerás. Cada uma é apresentada em um dia diferente, na Praça Roosevelt, 214, Consolação. Confira a programação clicando aqui e prestigie.

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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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