Realidade

A rotina, os amores e o armário de gays cegos

Saulo: E aí, o que procura?
Ricardo: Alguém legal para amizade ou algo mais. E vc?
Saulo: Tbém... tem foto?
Ricardo: Tenho sim.
Saulo: Nossa, cara, você é um gato! Vamos nos encontrar?
Ricardo: Claro, mas tenho que falar uma coisa antes...
Saulo: Conta...
Ricardo: É um detalhe... tenho deficiência visual, ok?
Saulo sai da sala.

É inegável: o mundo gay é visual, material e esteticamente estereotipado. Corpos malhados, magros ou definidos. Roupas de grife, carros importados e uma bela aparência. Para muitos, essas características são extremamente necessárias para uma possível aproximação, a chave mestra para as janelas dos sentimentos e de um envolvimento íntimo. Porém, longe deste cenário – mas não tão longe assim - um grupo de gays ama sem ver e estimula o pulsar do coração com outros sentidos. São cegos, cujo toque vale mais que a casca e as relações vão muito além das aparências.


Reportagem escrita por Neto Lucon foi publicada na revista Junior, número 12.

O que mudaria em sua vida caso ficasse cego neste momento?

Como seriam as escolhas, as amizades, as baladas, o trabalho e, claro, os namoros? A priori, uma manada de pensamentos estigmatizados dá a entender que tudo estaria acabado, que uma tristeza profunda se perpetuaria e que ninguém, além da família, estaria disposto a conviver com sua deficiência. Algo parecido com a metáfora de José Saramago no livro “Ensaio sobre a Cegueira”, cujos cegos apresentados são totalmente dependentes e que só encontram a felicidade após retomarem a visão. Na vida prática, todavia, a história não é bem assim.

Usando e abusando de outros sentidos – e aperfeiçoando muitos deles – a escuridão pode se tornar uma companheira sem espinhos para muitos cegos totais (cerca de 159 mil somente no Brasil) que seguem em frente e, apesar das dificuldades, continuam a escrever suas histórias. O auxiliar administrativo Luciano e o publicitário Ale são alguns deles.

Com pele morena, sorriso largo, óculos escuros, bengala e preocupado com a barba cerrada, Luciano diz que foram 20 anos vendo a vida com olhos coloridos. Há dois, uma eterna imagem negra, quase ilusória e profunda, se fixou. A retina do paulistano descolou e após um longe e conturbado tratamento ele perdeu totalmente a visão do olho direito. Depois, quase sem querer, descobriu que a outra retina também havia descolado. Nesse meio tempo, sabendo que poderia ficar totalmente cego, decidiu caminhar longe da solidão e angústia: queria conhecer outras pessoas com a mesma deficiência e saber como eram suas vidas. “Não me deprimi, pois comecei a ter contato com outros iguais. Descobri que poderia voltar a usar o computador, celular, ler e-mails e dar continuidade naquilo que eu sempre gostei de fazer.

A história de Ale é um pouco diferente. Tendo quase toda a existência preenchida pelo escuro visual, o publicitário de 38 anos é cego desde os dois e leva uma vida repleta de experiências e sensações. Vítima de glaucoma mal curada, doença que eleva a pressão intra-ocular e causa lesões no nervo ótico, ele encara a cegueira como mais uma das muitas características naturais de sua vida. “Não sei muito o que dizer sobre ser cego, até porque sempre fui (risos). Nunca fui tratado pelos meus pais como coitadinho e sempre corri atrás do que quis”, garante o publicitário, que tem vida afetiva agitada: foram quatro namoro com homens e três com mulheres.

Sobre a imagem que vê, Alexandre não sabe dizer se é escura ou clara. “Não lembro de nada, pois fiquei cego aos dois anos. Não tenho memória visual e não sei o que é branco ou preto”. Com outros sentidos desenvolvidos, ele afirma trabalhar melhor com as sensações na pele, conseguindo decifrar, por exemplo, quando está dia ou noite.


Armário de portas fechadas

Quando uma minoria discriminada (cegos) também faz parte de outra (gay), a caixa de preconceitos se expande e aquele que é vítima também pode ser agressor. É gay que tem preconceito com cegos. É cego que tem preconceito com gays. Por isso muitos cegos ainda permanecem na escuridão do armário. Durante a apuração desta reportagem, a maioria dos gays não conhecia cegos. E a maioria dos cegos não conhecia gays.

Luciano e Alexandre assumiram a homossexualidade apenas para os amigos. Para a família, a resistência é maior. “Meus familiares são homofóbicos”, confessa Luciano, opinião que engrossa toda vez que observa comentários sobre vizinhos homossexuais. “Eles ofendem, fazem piadas, chamam com adjetivos ofensivos, mas mal sabem que existe um gay dentro da própria casa”, reflete ele, que dribla os pais com namoros às escondidas e saídas com amigos a clubes gays. “Eles devem desconfiar, mas nunca falaram nada”, diz.

Com Alexandre não foi diferente. Ele se descobriu gay na adolescência, quando conheceu um colega de escola com quem desfrutou – sempre escondido – das primeiras experiências com sexo. “Foi uma coisa bem diferente, pois nunca havia tocado em um órgão masculino de outra pessoa. Foi louco porque senti uma atração muito forte e isso ficou na minha cabeça”. Na época, ele não revelava os desejos para quase ninguém e ainda hoje procura preservar a imagem.

“Não é uma questão de esconder ou sair contando para todo mundo. Eu não acho necessário falar, pois não gosto de rótulos. As pessoas tendem a estigmatizar as classificações. Além de ser apontado por ser cego, seria apontado por ser gay”, se explica.

VIDA ONLINE

Ao contrário do que muita gente imagina, os cegos também usam (e muito) a internet. Através de um leitor de tela (que transmite pela caixa de som o que está escrito), teclados em braile e outras tecnologias, eles se comunicam em bate-papos, acessam sites de informação e outros programas de sociabilização.

Luciano, por exemplo, está todos os dias online. Ele escreve muito rápido, com um português invejável e avisa que sua busca não é por sexo casual. Ele procura companhias, amizades. “Por muitas vezes sou bloqueado. É chato, pois as pessoas falam que estão apaixonadas, mas tudo muda depois que descobrem que sou cego.Algumas dizem que nada vai mudar, mas o tratamento fica diferente. No fundo, sinto pena delas, pois deixaram de conhecer alguém muito legal”, defende.

No bate-papo ou chat por telefone, Alexandre tem a estratégia de não dizer que é cego logo nas primeiras conversas. Ele procura revelar no “momento certo”, que varia de pessoa para pessoa, mas geralmente não costuma se preocupar com isso. “A reação das pessoas é bem diversa, até porque falta muita informação. Mas não acho que exista tanta resistência. Se você for uma pessoa bacana e demonstrar isso, tudo rola numa boa”, garante.

Quando o assunto é namoro, ele explica como seria a relação. “Digo que não existem regras, que a forma de aproximação é natural. É claro que andarei apoiado no ombro e que vou precisar que me avisem sobre um degrau ou outro, mas é só. Outro dia me perguntaram: como é beijar um cego? Eu respondi: com a boca (risos).”

Amor é cego e real

“Nem sempre os olhos dizem tudo. Creio que eles até ajudam, mas se fosse tão necessário enxergar, as pessoas não teriam tantas decepções amorosas”,enfatizou Alexandre, que teve o primeiro namoro com uma mulher e o segundo com um amigo. “Morávamos juntos, ele se declarou e eu fiquei confuso. Depois deixei rolar”.

No total foram dois anos de namoro e momentos inesquecíveis. A primeira relação sexual, segundo ele, foi “inusitada e maravilhosa”. “Nunca vou esquecer daquele momento”, diz, sem entrar em detalhes. A relação terminou depois de uma viagem internacional do amado. Desde então, o publicitário namorou mais três vezes.

Ao contrário de Alê, que nunca namorou outro deficiente visual, o primeiro amor de Luciano foi por outro cego. Eles se conheceram via internet e partiram para encontros às escondidas. O namoro, que perdurou por um ano, foi marcado por experiências agitadas. Com a ajuda de pessoas, funcionários e suas bengalas, eles iam a danceterias, bares, restaurantes e viajavam por todo o Brasil de avião.

“Adoro dançar. Já fui com meu namorado ao Rio de Janeiro e Curitiba, e frequentamos várias festas”. Aliás, a primeira relação sexual só se deu depois de cego. “Estava muito envergonhado. Demorei uns dois meses até pegar confiança, mas depois foi natural”, revela com timidez. Devido ao ciúmes, o namoro terminou.

A beleza para quem não vê

Corpos músculos, altos, bronzeados, de olhos azuis ou verdes, roupas de grife... Nada disso importa... TANTO! Para quem é cego, os sentimentos de amor e tesão são despertados por outros sentidos. “O físico não importa mais. Agora vou muito pelo calor”, afirma Luciano que, ao gostar de uma pessoa, pede para que os amigos não revelem se ela é esteticamente bonita ou feia. “Isso pouco importa. Eu gosto de abraço, do calor da pessoa”, diz.

Para o publicitário Alexandre, um bom papo e a voz são as características que mais chamam sua atenção no momento de admirar alguém. “Não dá para viver só de pinto e bunda. Uma hora um ou outro esfola”, brinca. Apesar disso, ele diz preferir corpos magros e homens com voz máscula. “Adoro magrelos e inteligentes, mas é claro que ninguém precisa ser um doutor para atrair minha atenção. Inteligência não tem a ver com diploma, tem a ver com comunicação e interesse”.

Baladas e amigos

Eles vão normalmente à padaria, bares, shoppings, parques e restaurantes. Somente as danceterias é que se tornam um problema. De acordo com Luciano, as pessoas não sabem abordá-lo quando não está acompanhado. “Geralmente o segurança vai me deixar em uma cadeira do barzinho. E eu vou ficar a noite inteira lá, sem ir para a pista. Ou vão me deixar na pista, mas o que eu vou fazer caso queira ir ao banheiro?”. Já com os amigos, uma combinação antecipada resolve o problema. “Vou sem bengala e peço para eles me avisarem até quando alguém se aproxima de mim”.

Como nem tudo são flores, os amigos que frequentavam danceterias ao seu lado se reduziram drasticamente depois da cegueira. “De 100 sobraram dez”, diz ele, que justifica a ausência pela falta de informação. “As pessoas não estão preparadas (para lidar com um cego). Elas pensam que você vai fazer tudo errado, que não é capaz. E eu sou capaz de tudo”.

Bastante agitado, Alexandre adora ir à balada, embora confesse não ir muito às voltadas ao público gay. “Não vejo problemas ou dificuldades para ir”. Quanto ao jogo de sedução, ele diz que “basta estar com bons amigos que deem coordenadas”. “Depois é só ter uma boa lábia. Até porque não basta ser cego e gay, tem que ser uma pessoa bem arrumada e com a aparência que chame a atenção do outro, né? Eu também não fico com ninguém por pena”.

Quem é cego afinal?

“O maior problema da deficiência não está no cego, mas nas outras pessoas”, diz Luciano. “Muita gente pensa que só andamos com a família, que não damos risada, que não fazemos sexo e que não somos felizes. Isso atrapalha muito as nossas vidas, pois é totalmente o contrário. É uma vida tão agitada que muita gente nem sabe que existe. Eu sou capaz de tudo e muito mais”.

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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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