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Reality show 'RuPaul’s Drag Race' é acusado de transfobia; Top Carmen Carrera comenta

Brincadeira levou participantes a levantarem a placa "mulher" ou "traveco"

Reality show de maior sucesso com o público LGBT, o RuPaul’s Drag Race – que promete escolher a nova drag queen super star da América - escorregou mais uma vez em uma das recentes brincadeiras da sexta edição e foi acusado de transfobia. Fãs do programa consideraram ofensivo um mini-desafio, em que as drag queens deveriam levantar as placas “female” [para definir mulher cisgênero] e “shemale” [termo pejorativo para se referir a uma travesti ou transexual] para fotos que mostravam apenas uma parte do corpo de uma celebridade.

Após inúmeras manifestações nas redes sociais, a modelo transexual Carmen Carrera, que participou com grande destaque da terceira temporada, disse que tem certeza de que o reality show não teve a intenção de ofender. Porém, também considerou o termo “shemale” - que é como "traveco" no Brasil - incrivelmente ofensivo e classificou ultrapassada a brincadeira de dizer se tal pessoa trata-se de mulher cisgênero ou transgênero.

“Acho que o programa abriu e educou as mentes de muitas pessoas que eram ignorantes a respeito do universo drag e fez da igualdade e do respeito uma possibilidade para os envolvidos, não apenas como semelhantes, mas como artistas fenomenais.  Nós vivemos num novo mundo onde compreensão e aceitação estão em ascensão. Drag Race deveria ser um pouco mais esperto a respeito dos termos que utiliza e compreender a luta por respeito que pessoas trans estão encarando a cada minuto hoje em dia. Eles deveriam usar sua plataforma para educar verdadeiramente sua audiência sobre todas as facetas da arte performática drag”.

Assista a brincadeira:
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Outras transexuais também participaram do reality quando ainda se identificavam como garotos: Kylie Sonique Love, da segunda temporada, Kenya Michaels, da quarta temporada. E Monica Bervely Hillz, da quinta temporada, que se mostrou incomodada com a brincadeira. "Depois da minha experiência de estar no show, eu diria que, para mim, o uso das palavras ‘shemale’, ‘lady boy’ e ‘tranny’ não é bonito. Lutei e ainda estou lutando pelo respeito da sociedade para ser aceita como mulher e não como um ‘traveco’ ou ‘ela-macho’”, defendeu Monica.

Além do formato de gosto duvidoso do jogo e do termo pejorativo, a atração incluiu fotos de mulheres cisgêneros e, ao invés de travestis ou transexuais, fotos de drag queens. De acordo com o blogueiro Rafi D’Angelo, a brincadeira ainda foi ofensiva por comparar a identidade de uma trans com a de uma drag queen. Vale lembrar que no reality show RuPaul diz que a drag é psicologicamente uma mulher, enquanto a mulher cis é biologicamente mulher. 

“Uma drag queen é uma drag queen, vai para casa e tira a peruca, a maquiagem e ainda é um homem cisgênero. Você pode ser a rainha da feminilidade, mas no final do dia ainda vai desfrutar dos privilégios de ser um homem cisgênero. Enquanto as mulheres trans não tem essa opção. São mulheres todos os dias e sofrem a ameaça da violência e da exposição. De modo geral , colocar drag queens – que são uma versão caricata da mulher para a profissão - na mesma categoria de trans – que são mulheres de verdade – é ofensivo”, declarou Rafi.

Kylie Sonique Love, Carmen Carrera e Monica Bervely Hillz

Para Rafi,  o carisma da apresentadora faz com que alguns comportamentos passem por vistas grossas e sejam ignorados , mas que é preciso atentar que Ru não corrige as falhas sobre o mundo trans há bastante tempo. “O Drag Race tem potencial de levar informação para o mundo e é a mensagem de amor e aceitação que héteros e gays precisam ouvir. É por isso que esse descaso intencional por sentimentos e bem-estar das pessoas trans é tão chocante, afinal ele simplesmente não encaixa com o restante do show. Este não é apenas uma questão de humor obsceno ou politicamente correto. Ru está mostrando um desrespeito para a comunidade trans, que já pediu para ele segurar a língua várias vezes”.

Após a polêmica, a apresentadora e a equipe do programa emitiram um comunicado, que diz que estarão comprometidos com a causa.“Nós nos deliciamos e celebramos todas as cores do arco-íris LGBT. Quando se trata do movimento de nossas irmãs e irmãos trans, estamos mais comprometidos do que nunca para ajudar a espalhar o amor, a aceitação e a compreensão”.

Como diz a drag star nas eliminatórias, "Tranfobia, sashay away".

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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