Fora da Caixa

A Parada LGBT e a [in]visibilidade dos homens trans

Luiz Uchôa e Luciano Palhano na Parada do Orgulho LGBT 2014

Por Luiz Uchôa / Arte: Jackson Adriano / Fotos: Neto Lucon

Em sua 18ª edição, a Parada do Orgulho LGBT teve um avanço em permitir a presença de um subtema: A PL 5002/2013
, “Lei João Nery” – também conhecida como lei da identidade de gênero - para visibilizar um pouco mais a causa de travestis e transexuais. No início, comerei o feito e a conquista. Só depois é que comecei a entender que o subtema não estava tendo a atenção que deveria e mereceria.

O IBRAT [Instituto Brasileiro de Transmasculinidades] esteve presente na Parada. Militantes levantavam cartazes, bandeiras e camisetas com os dizeres: “A visibilidade garante direitos” e “Homens trans, essa luta também é nossa”. Os coordenadores Luciano Palhano e Léo Peçanha deram entrevistas e depoimentos que buscavam entender como é ser transexual em uma sociedade heteronormativa e cisgênera [leia um pouco sobre o cis-mundo clicando aqui].

Apesar disso, percebi que a maioria dos presentes sequer se importava em entender mais sobre a causa transexual. Foi deprimente constatar que, mesmo numa Parada cujo tema falasse sobre transexual, os homens trans eram invisíveis naquela multidão, que muita gente não dava espaço para o diálogo, sequer conhecia... Isso me fez entender que aquele evento visa representar somente uma parcela da população LGBT – e que definitivamente não era a letra T. Isso porque o preconceito contra transexuais é grande no próprio meio. 

Transfobia não é homofobia

Ainda hoje, há confusão entre identidade de gênero e orientação sexual, fazendo com que homens trans sejam encarados como mulheres lésbicas masculinizadas, que tem a fantasia de serem homens. E que para serem vistos como homens devem atingir no auge da masculinidade dita como padrão. Quanta bobagem...

É preciso atentar que a própria organização do evento encarava equivocadamente que trans sofrem o preconceito de homofobia e que achavam desnecessário discutir abertamente o tipo de discriminação que travestis e transexuais sofrem [que na verdade é a transfobia]. E foi uma luta - literalmente – conseguir acrescentar o termo lesbohomotransfobia no tema da Parada.

Nela, presenciei seguranças truculentos, pessoas que foram com o objetivo de tumultuar, assaltantes, preços abusivos de bebidas e comidas, estabelecimentos cobrando para o uso de banheiros...Também vi o "trio trans", que foi prometido pela organização, não sair. Tudo me fez entender que a luta deve ser ampliada para a melhoria da educação dessa população marginalizada e que uma luta que só visa números descaracteriza o viés político e se torna um showzaço sem dizer nada, que é o que vem ocorrendo.

Homens transexuais levam cartazes para a Parada LGBT

Ainda considero importante e necessária a Parada. Porém a forma como ela é pensada e estruturada pela APOGLBT (Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo) deve ter algumas alterações. Deveria ser promovido, por exemplo, debates presenciais e online com entidades LGBT, ativistas, militantes e população LGBT sobre o que deveria ser feito para o evento retomar o seu caráter político ativista de tempos atrás. Afinal, se a Parada é um evento para todos, então todas as letras da sigla deveriam ter poder, visibilidade e necessidades contempladas.

Desta experiência, tiro que os homens trans devem ocupar todos os espaços políticos, educacionais, sociais e culturais que puderem. Só assim essa história vai mudar e todos serão mais visíveis na sociedade, sem precisar de Paradas ou eventos específicos para ter o respeito e direito que precisam e merecem. Lembro que um menino trans veio conversar com um dos militantes e disse que era a primeira vez que via alguém como ele, e que naquele momento sabia que não era a única pessoa com tais características no mundo

Talvez esse seja o verdadeiro sentido da manifestação, da visibilidade e da Parada. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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