Pop & Art

Com Andrew Garfield 'trans', banda Arcade Fire quer mostrar que a diversidade existe – queiram ou não

Andrew Garfield veste o novo uniforme para a banda Arcade Fire

O mais novo clipe da banda canadense Arcade Fire visa dar visibilidade para as diferenças ou, como o próprio nome da música diz, “We Exist”, provar que ela existe – queiram ou não os preconceituosos. E para comprar a briga por meio da arte, os artistas convidaram ninguém menos que o galã Andrew Garfield – de 30 anos, o novo Homem-Aranha dos cinemas – para transgredir as arcaicas regras de gênero e levar a mensagem da diversidade para todos os públicos.

No clipe, dirigido por David Wilson, Andrew se livra do uniforme da Marvel e, em frente das câmeras, rapa a cabeça, veste sutiã com enchimento, peruca, short, blusinha, maquiagem e dá vida a uma loira misteriosa, solitária e corajosa. Sai de casa rumo a um universo rural, entra em um bar e, após ver um casal de homens dançando, é flertada por outro sujeito barbado, que a chama para dançar.

No ritmo da música, é brutalmente separada de seu par, agredida por homens truculentos, arremessada de um lado para o outro, até que leva um chute no rosto. Na letra, as mensagens na voz de Win Butler: “Eles estão de joelhos/ pedindo-nos por favor / Rezando para que nós não existimos/ Mas nós existimos, Nós Existimos”. A cena é interrompida e a personagem mergulha dentro do próprio inconsciente, torna-se visível em um foco de luz e passa a dançar uma coreografia que remete ao filme Flashdance - com liberdade, energia e pouco molejo [talvez pela falta familiaridade do ator com a dança]. É a reação da super-heroína!

Além de ser uma característica do diretor [como em I Try To Talk To You, de Hercules and Love Affair], a luz atua como uma metáfora psicodélica de estar em foco, ser alvo, poder ser salvo, ir e vir. Ou seja, de ser iluminado pelo farol e o fulgor da visibilidade. Tanto que, quando a personagem cai pela segunda vez, quatro personagens passam a ser elucidados. Homens com camisa xadrez amarrada na barriga, rebolando e dançando sem medo de o mundo machista atacar ou acabar amanhã. 

Juntos, parecem não sofrer retaliações e toda a diversidade ganha força.

Cenas de We Exist, com Andrew Garfield
                                                                                                                                                            
Andrew se levanta, imita a coreografia e os rapazes enfileiram-se como seguranças, dando passagem e a conduzindo para um portal. Mostram, por meio de seus passos, que o caminho e a referência em massa também resultam no processo positivo. Então, a loira, “que é apenas uma entre tantas do mundo, sim”,  surge no último Festival Coachella, na Califórnia, com os cabelos quase cobrindo o rosto, durante o show de Arcade Fire. Desta vez, não é mais agredida. É ovacionada pelo público. Ao fim, a lembrança que permeia toda a obra: "Nós existimos"

Esta é a terceira faixa do álbum “Reflektor”, lançado em outubro de 2013. A letra fala sobre um garoto gay conversando com o seu pai, já o clipe se propõe a falar na luta de um jovem em início de transição e em busca de sua identidade.

Em tempo: Embora o clipe tenha alcançado mais de 1 milhão de acessos em três dias e mais de 21 mil curtidas, ele não deixou de sofrer críticas nas redes sociais. Algumas por parte de homolesbotransfóbicos, outras que questionaram o fato de terem optado por um ator cis [e não uma trans] para o papel, que não convenceu. Como defesa, há quem afirmou que a banda abriu o tema para falar sobre a transgressão de gênero, não especificou qual identidade retratou [foi a mídia que classificou] e que, dentro da proposta, há pessoas no guarda-chuva trans que se sentiram representadas. Além disso, deu visibilidade mundial e com respeito ao tema fazendo com que um dos heróis da atualidade quebrasse as normas de gênero.

Assista ao clipe:

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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