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Elza Soares se entrega à emoção e faz desabafo em show sobre centenário de Lupicínio Rodrigues

Elza diz que perdeu a voz após saber da morte de Jair Rodrigues

Quando Elza Soares conversou com compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues [1914-1974] pela primeira vez, uma tremenda gafe marcou o encontro. Sem saber que o homem de terno branco era o autor de “Se Acaso Você Chegasse”, primeiro sucesso da cantora há 55 anos, ela se incomodou quando recebeu “um buquê de rosas para uma rosa” na boate Texas Bar, no Rio de Janeiro. Alegando estar com receio de novos amores, Elza disse que não me chamava Rosa e que odiava rosa. “Daí ele disse que era o Lupicínio e eu emendei: ‘Mas eu adoro, eu amo rosas [risos]’”.

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No centenário do autor, Elza Soares Canta Lupicínio e aceita novamente as flores. Mais que isso, transcende e canta em meio a um mar de rosas vermelhas espalhadas pelo palco e tatuadas pelo corpo. De vestido vermelho e branco [sim, há trocas de roupa], interpreta as canções que latejam e lacrimejam as dores de cotovelo, a paixão e os mistérios do amor perdido. No repertório, os clássicos: Nunca, Cadeira Vazia, Vingança, Eu não Sou Louco e Esses Moços. Todas com uma roupagem e sonoridade moderna, frutos da direção musical do saxofonista Eduardo Neves e do quinteto de músicos contemporâneos.

Aliás, a interação de Elza e Lupicínio com a nova geração de artistas dá jogo, gafieira, salsa e o melhor do jazz. Casa o sabor adocicado da experiência e a apimenta da juventude. Ou vice-versa. “Tem gente que me chama de vampira, mas deixo para vocês interpretarem como quiser”, brinca a eterna mulata assanhada. Apesar da mistura, do bom humor e de não se dizer saudosista, a cantora também demonstra apreço pela memória. Durante o show, fez um desabafo para que as escolas ensinassem quem é Lupicínio, Johnny Alf, Jamelão, entre outros grandes artistas brasileiros muitas vezes esquecidos.

“Tem gente que diz: 'Ai, não é do meu tempo'. Mas a arte é atemporal, é a cultura brasileira, deveria estar na escola, cair na prova”, defendeu.
 “Jamelão é o nosso Frank Sinatra, ele é o rei da música brasileira, mas não é reconhecido porque é negro”, frisou. 


Sacolejando sentada, a cantora do milênio ainda se recupera das várias cirurgias que fez na coluna desde 2011. Atualmente, tem momentos em pé e de pequenas requebradinhas. No sábado, 10, durante o show no Sesc Pompéia, em São Paulo, diz que precisou de ajuda de sua fonoaudióloga, pois perdeu a voz. O motivo? A saudade e a dor pelo companheiro Jair Rodrigues [1939-2014], que saiu de cena na última semana. Fez uma homenagem com “Deixa Isso Pra lá”, “Se Acaso Você Chegasse” [em que cantou anteriormente com Jair e Elis Regina] foi aplaudia pelo público e caiu no choro. Emoção e sentimento em forma de música.

Depois, deu uma levantadinha da cadeira, rebolou e disse que as costas estão repletas de pinos. “Não posso mais passar pelos detectores de metal”, sorriu para o público, que nessa altura já se tornou cúmplice. A presença de palco continua firme e a voz, por sua vez, continua surpreendente, forte, majestosa e arrebatadora. Permanece com a mesma ronquidão que preenche e fez vibrar o coração. É puro jazz, ferida exposta, instrumento musical que dedilha as próprias cordas vocais. Destaque para a interpretação da música “Eu não Sou Louco”, de 1950, em que Elza se entrega, contorce na cadeira, grita e revive as dores de Lupicínio. 


Ou talvez as próprias dores. A artista, todavia, diz que não é louca, que não fala a idade, que prefere morrer à perder a voz e frisa mais uma vez que seu nome é now [agora, em inglês]. Entre lágrimas, talento e superação, uma coisa é certa, assim como Jamelão é o rei, Lupicínio é um dos maiores compositores, “Elza Soares honra cada vez mais o título de cantora do milênio, que recebeu pela BBC de Londres. "É a rainha da música brasileira”, gritou um fã da plateia. Outro se arriscou em subir ao palco e levar uma rosa para a artista. Todos aplaudiram-na em pé. 

Se acaso você chegasse? Elza chegou, ficou e em cada show tem cheiro de recomeço. 

Fã sobe no palco e entrega rosa para Elza Soares

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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