Pop & Art

Jarbas Tauryno comenta carreira de tenor e diz: 'A escolha é a ferramenta que transcende'

"Sair da minha cidade foi questão de viver ou morrer: foi uma necessidade total"

Há pelo menos 30 anos, Jarbas Tauryno leva a alegria, a consciência sobre a vida e as reflexões sobre felicidade em suas apresentações musicais. Nascido em Jaguarão, município do Rio Grande do Sul com pouco mais de 20 mil habitantes, o tenor afirma que a sensível proposta artística [e de vida] vem desde a mais tenra idade, quando dedicava-se aos trabalhos voluntários, na visitação aos doentes e na vontade de alcançar voos maiores rumo à liberdade.


Pela voz sensível e tocante, quase foi catapultado para o posto de padre. Desistiu depois de uma conexão com o Rio Jaguarão. "O rio me dizia: 'você precisa sair daqui' [risos]". Ele sabia que o seu talento precisava de grandes ares, palcos, públicos, intenções e nenhuma amarra. Saiu de Jaguarão rumo ao Rio de Janeiro, e lá ficou por um ano. 

Depois veio para São Paulo e, desde então, fez grandes apresentações. Recebeu aplausos calorosos de plateias do Brasil, Espanha, França e Uruguai.

Nesta sexta-feira, 9, Jarbas se apresenta às 22h, no Italia Mia Restaurante Show, localizado na Rua Rui Barbosa, 354, Bela Vista, em São Paulo, com o espetáculo musical "Solo Io" [R$15], dirigido por Arnaldo D'Ávila. Segundo o tenor, trata-se de um alegre solo de músicas brasileiras [mpb e regionais] e italianas com intervenções cênicas, que evocam o lado mais humano do ser humano. Abaixo, um bate-papo com o artista: 

- Depois de vários números e apresentações, você montou o espetáculo musical "Solo Io". O que este show propõe? 

Trata-se de um solo com intervenções cênicas. Por meio da poesia e das músicas italianas, regionais e da MPB  transcendemos os desafios da vida e fazemos reflexões que tocam a alma. Quero promover a alegria, o encantamento e evocar o lado mais humano de cada um. A intenção é mostrar que cada um é responsável pela sintonia da própria vida e que nossas atitudes estimulam a trajetória coletiva. Falaremos sobre amor incondicional, transformação e paixão. Claro que com muita alegria e de uma maneira leve e agradável, porque o restaurante é um lugar de reunir as pessoas com alegria. 

- Qual é o repertório?

Não vou dizer todo o repertório para manter a surpresa... Temos "Tocando em Frente", de Almir Sater e Renato Teixeira, que é um verdadeiro culto à vida e que eu tenho que manter em todas as apresentações. "Estrela Estrela", de Vitor Ramil, "Quero", de Thomas Roth. E "Io Che Amo Solo Te". Já na intervenção cênica, temos textos de Khalil Gibran, Mahtma Gandhi, Chaplin e Hermógenes.

- Como surgiu a proposta de montar um show com a preocupação de levar uma mensagem sobre a "a vida consciente"? 

É uma busca antiga, desde quando era menino, criança. Tentava compreender o paralelo da felicidade, buscava o autoconhecimento. Tanto que tenho o lado terapeuta muito forte. Queria descobrir-me e também entender o outro. Compreendi que escolher é uma ferramenta que transcende tudo. Explico: Nasci numa pequena cidade chamada Jaguarão, Rio Grande do Sul, que fica próximo do Uruguai, e tive uma conexão muito forte com a natureza. Eu olhava para o rio, o rio olhava para mim e dizia: "Você precisa sair daqui" [risos].

- Qual era a necessidade de sair de Jaguarão? Foi uma necessidade artística ou pessoal? 

Foi uma questão de viver ou morrer: uma necessidade total.


- Li em uma entrevista de um jornal Pampeano, de Jaguarão, que foi muito difícil para os seus pais compreenderem um filho não muito "normal para os padrões vigentes". O que seria? 

Eu era um menino e um adolescente que tinha atitudes não muito comuns à época e talvez hoje ainda seja assim: Eu visitava os doentes na Santa Casa e nas residências, ajudava os moradores de rua, reunia as crianças para cantar nas missas. E, além do mais, não tinha namorada... [risos]. 

- Entendi... Neste período, você já cantava ou já se descobriu artista? 

Não sei se a gente se descobre artista em um momento exato, pois acredito que sempre fui um. Sempre gostei de músicas que tocassem a alma, pois sabia desde pequeno o efeito que a música tem nas pessoas. Eu cantava nas igrejas, mas tinha uma voz incomum. Também tinha problemas respiratórios [de asma], vivia doente e em hospitais... Quando eu cantava, diziam que eu seria um ótimo padre e, sinceramente, quase entrei nessa. Me deixei levar pela parte boa da igreja - da descoberta de religar à sua essência - mas depois vi que não era o caminho que eu queria. Estudei Teologia para Ministro e depois canto em Pelotas. Antes de sair da cidade, ajudei a fundar o Coral Municipal, que está até hoje em atividade. 

- Quais são as suas maiores referências artísticas? 

O meu grande herói artístico não foi alguém famoso. É a Maria do Carmo, uma professora de música que tive na quinta-série. Ela tocava piano para umas 100 crianças cantarem e eu muito aparecido, comecei a reger no meio dos meus colegas. Só que ao invés de ela falar para eu parar, ela pediu para eu ir para a frente e reger olhando para eles. É uma heroína e uma referência simples, mas muito verdadeira. Mostrou um trabalho sábio, de uma educadora que desperta o talento das pessoas. E a gente vive numa época em que o talento precisa ser revivido. Agora, se você quiser alguém famoso, digo que gosto de Beethoven,  da sua 9ª Sinfonia, que é um verdadeiro louvor à vida, à consciência. Me toca e faz sentido.

- E o que mudou quando saiu de Jaguarão? Como se deu a vida no Rio e em São Paulo?

Mudou tanto que até o meu problema respiratório sarou [risos]. Parece algo inacreditável, por São Paulo se tratar de uma cidade poluída, mas é verdade. Sou bacharel em canto pela Universidade Federal de Pelotas, estudei música com grandes mestres, fiz várias apresentações em grandes espaços e tive grandes momentos ao longo da carreira. Dentre eles, no Theatro Municipal de São Paulo, no Parque Ibirapuera, no Centro de Convivência, em Campinas... Além de ter apresentações muito emocionantes na França e Espanha, solando a Misa Criolla de Ariel Ramirez. 

- Você diz que a escolha é a ferramenta que transcende. E qual é o preço da escolha? 

A maioria dos seres humanos não escolhe, age apenas pelo condicionamento, pelo medo. A escolha consciente nasce de um nível mais abstrato que pode mudar a situação de vida radicalmente, inclusive a profissional. Diria que o preço para o nosso pequeno ego é alto, mas para a alma é pura alegria.

"Sinto que existe um grupo de seres humanos que não sabem para onde ir"

- Como você avalia a música que você canta com a música da cultura de massa brasileira?

A cultura de massa propõe o distanciamento da pessoa com as pessoas. Sinto que existe um grupo de seres humanos que não sabem para onde ir. São pessoas que não curtem “nádegas dançantes, funk,  pagode, eletrônico, etc e que buscam esse tipo de música que eu canto. Sei que ainda temos um público pequeno, perto do que gostaríamos, mas que cresce a cada dia. 

- Pelos ensaios deu para sentir que Solo Io é emocionante. O que você escuta do público? 

As pessoas dizem: "Você tocou a minha alma". Quando vejo que as pessoas choram e se emocionam, é porque cumpri a minha tarefa. O meu objetivo é trazer uma fusão entre o artista e o público, trazer o artista que toda pessoa é e formar uma grande roda de celebração. E isso funciona com crianças de 10 anos à senhoras de 80. Como falamos de tenor, as pessoas se abrem para essa sensibilidade. É um sacerdote dançante [risos]. 

- No mergulho deste tema, conseguiu descobrir o que é felicidade, Jarbas? 

Ah, quero destacar que felicidade é diferente de alegria. Felicidade tem a ver com a concretização de seus sonhos. Já a alegria independe dos fatores externos, tem a ver com a alma, com aquilo que é imutável, o que podemos chamar de presença, eu Interior e paz profunda. É claro que vivenciaremos a felicidade e a alegria. Bem, isso é o paraíso na Terra.

Aniversário do Italia Mia/ show de Jarbas Tauryno
Dia: 09/05/2014 às 22h
Couvert artístico: R$ 15,00.
O local acomoda 120 pessoas.
Fone: 9 8632-8622. (Marcela)
Rua Rui Barbosa, 354 - Bela Vista - São Paulo - SP

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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