Entrevista

Com 30 anos de carreira, Laura Finocchiaro fala sobre música, machismo, Cazuza e amor livre

"Eu seria do bando do Lampião e da Maria Bonita" [Crédito: Roberta Guimarães]
Por Neto Lucon

Laura Finocchiaro, 52, é uma guerreira solitária - quase, se não fossem os fãs. Carrega no ombro, o cavaquinho, o violão, a guitarra rosa e o "A" maiúsculo do Artista. No bolso, as munições "adjéticas": talento, criatividade, estudo, veia libertária, coragem, voz cristalina e o selo independente, Sorte. O objetivo sincero é de ser amada e, acreditem, de salvar o mundo por meio de sua música: alegre, tocante, inovadora, inteligente, destemida e, como ela mesma diz, que vem da alma e que pode até curar.

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Com largo sorriso, figura andrógina e dona do estilo "lesbian chic",  a gaúcha radicada no Rio e em São Paulo mescla experiências e surpreende a cada trabalho. Vai do pioneirismo de tirar sons da guitarra brasileira, da mistura da música eletrônica com MPB, das rodas dos mantras, do som underground do Madame Satã, da trilha de programas como a TV Colosso [Globo], até o atual resgate da música de raiz - chamada pela cantora de música orgânica, no CD "Copy Paste", lançado neste ano.

Entre os parceiros de luta, abraça Cazuza, Edson Cordeiro, Claudia Wonder, Tom Zé, Caio Fernando Abreu. E a irmã Lory F,  baixista, cantora e produtora que, ao morrer de aids aos 34 anos em 1993, deixou a influência de ser uma artista mulher à frente do tempo. Não foi por acaso que Laura foi uma das primeiras a cantar nas Paradas do Orgulho LGBT em São Paulo, das que disse publicamente ser bissexual, das que cantou no leito de pacientes com aids e das que fez um verdadeiro hino à diversidade. 

Obs: Numa época em que nada disso pegava bem...

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Capa do mais novo CD, "Copy Paste"
Nos últimos 10 anos, esteve à frente da trilha de reality shows, como Casa dos Artistas e A Fazenda. Enriqueceu a bagagem, mas também se assustou com o cenário musical, marcado pelo "copia e cola". Percebeu que a ousadia estava em algo simples e que era necessário revisitar grandes heróis. Hoje, Laura canta para o mundo: "a criação é o coração". E fala ao NLucon sobre música, papeis sociais e 30 anos carreira e guerra.

- Este é o seu sexto disco [ao lado] e é o primeiro que se baseia na cultura do nordeste, com frevos, baiões e cocos, diferente dos trabalhos anteriores. Quais caminhos percorreu para chegar à música orgânica?

Desde 2001, quando fui produtora musical da Casa dos Artistas e passei por mais de 10 reality shows no SBT e Record, recebi muitos discos e trabalhos de artistas do Brasil e de fora. E desta pesquisa percebi muitas vezes que a música não estava em sua melhor fase. Tanto na questão estética, harmônica, rítmica, quanto do conteúdo. Notei que tudo pode virar produto, que tudo é copy paste e que muita coisa é descartável. Comecei a me perguntar: cadê a essência da arte e disso tudo que está aí?  E cada vez que escutava um trabalho, sentia falta de música que fosse simples, pura, que falasse de humanidade, da natureza... 

- É essa a música orgânica que se refere no trabalho? Como você define música orgânica?

Tenho uma vida ligada ao mundo orgânico há 30 anos, com alimentação natural, orgânica, numa época em que todo achava a gente era louco. Hoje, virou moda e começou a dar dinheiro para a indústria alimentícia e outras empresas, chegando ao ponto de eu ver que existe até shampoo orgânico. Então, pensei: "Se tudo é orgânico, também existe música orgânica e é essa música que eu faço". É uma música que cura, que vem da alma, de raiz, da natureza, que tem verdade. Tive a ideia de fazer e, ao saber do projeto, uma jornalista me disse: "Você tem que mostrar para o maestro Spok". E não é que ele ouviu, reverenciou e me estimulou a gravar? Me botou nas mãos de músicos da orquestra dele. E pela primeira vez, deixei outra pessoa fazer os arranjos, Renato Bandeira, um guitarrista e arranjador de Pernambuco.

- Essa música também tem boas recomendações para a saúde?

Sabe que tem!?! Depois que a minha irmã morreu de aids [Lory F, em 1993], me tornei uma voluntária para pacientes com aids e fui contratada para cantar para estes pacientes em seus leitos por uma ong. Comecei a entender que a arte engloba vários parâmetros. Pode ter direcionamento para o palco, para o show business, e outro que pode ser direcionado para a cura, para a espiritualidade. É tão louco que muitas vezes eu ia cantar nos hospitais depois de ter virado a noite e minha voz nunca ficava rouca. 

- A música "Copy Paste", copia e cola em português, é justamente esta crítica à indústria musical e o atual cenário em que escutamos? 

Com certeza. Nesta música, cito Luiz Gonzaga, Vitalino, que é o pai dos bonequinhos da feira de Caruaru, Virgulino, que é um dos meus heróis ao lado da Maria Bonita, Dominguinhos e Oscarito. Ou seja, heróis nacionais, pessoas de coragem e que tiveram personalidade. A crítica aparece quando noto que os próprios bonequinhos de Vitalino são copiados no mundo inteiro, inclusive na feira de Caruaru. Eles não são mais de barro, são de plástico, e isso é muito triste, artisticamente falando. Esse copy paste acontece com os bonequinhos, acontece na música. É uma repetição, uma cópia... Pegam-se fórmulas de timbres, de ritmos, de sonoridades, de jeitos, de forma de cantar, de tiques, de palavras e copiam e colam. Obrigam vários artistas a fazerem a mesma coisa e acabam tornando todos um produto igual.


- E isso engloba até mesmo a música eletrônica? 

Também. Nos anos 80, quis fazer uma mistura da música brasileira com os grooves eletrônicos, de associar a linguagem e a timbragem da música eletrônica com os sons acústicos. Mas, de anos para cá, também percebi que a linguagem da música eletrônica está um pouco banalizada. O que tinha que eu gostava se perdeu, porque começou a ficar muito voltada para a pista e para o lado comercial. Há quem se considere mais importante que os músicos, mas sem os músicos não existiria música eletrônica. 

- Para você, que é uma artista que sempre fez um mix de estilos, que copia daqui e faz música dali, qual é a diferença de copiar e misturar?

É interessante isso que tu me perguntou. Quando o artista apenas copia e cola, ele simplesmente copiou e colou, não colocou nada de criativo naquilo. A diferença de copiar e misturar é refazer. Mas para isso é preciso de inteligência, criatividade e estudo. É por isso que sou a favor de que se estude música profundamente, pois se há conhecimento também há a percepção da diferença das linguagens, de lidar com os parâmetros e de refazer algo novo. Afinal, na natureza nada se cria, tudo se transforma. A ideia é essa: tu pode até copiar, porque não tem como não copiar, mas tu tem que ter a capacidade de perceber a essência para poder manipular, misturar e dar uma cara nova, uma nova vida.

- Você, que começou a estudar música aos nove anos, comentou sobre a importância do estudo. A Laura aos nove anos já queria se profissionalizar artista?

Nesta época, eu já me descobri apaixonada pela música e pelos estudos, pois todos os dias eu pegava o violão e estudava. Meus pais me chamavam para tocar para as visitas e elas diziam que eu era linda. Eu amava tudo aquilo, porque via que era amada quando cantava. Percebi que a música poderia ser uma boa ferramenta: quando eu quisesse ser amada, poderia cantar. Mas nessa época, não associava música com palco e nem com profissão.

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Laura por Willie Biondani, 1991 
- Que lindo associar a música com a vontade e o sentimento de ser amada...

[risos] Na turma de adolescentes, quando a gente começou a viajar, a transar, eu animava todas as festas com o violão,  até que me apaixonei pela primeira mulher. E o que eu poderia fazer para chamar a atenção dela? Música, cantar... Como ela era poeta, pedi as letras e comecei a fazer músicas. Acho que fiz umas 100 músicas lindas, me tornando uma compositora mesmo. Foi tanta paixão, tanta música que fiz, que fui parar no palco.

Um artista e compositor de Porto Alegre, Carlinhos Hartlieb, me viu cantando e falou que precisava de uma back. Foi ótimo porque foi bem nessa época em que eu queria chamar a atenção dela. Ou seja, me tornei artista para chamar a atenção dela. E, claro, estar no palco é um pico na veia. Nunca me piquei, mas deve ser esse vício de nunca mais conseguir parar. Me viciei em palco e música há 30 anos.

- Quem foi o seu primeiro grande herói na música?

Lembro muito da Jovem Guarda, era apaixonada pela Wanderléa, Roberto Carlos, Beatles, que me inspirou e me transformou em cantora. E também ficava sentada com a Lory, que tinha uma visão ampla de tudo, e conheci o rock progressivo, com Janis Joplin, Jimi Hendrix, The Doors, Led Zeppelin, Pink Floyd, Focus... Era louco porque eu gostava do rock mais radical à música mais pura, como Wanderley Cardoso, Waldick Soriano, Jerry Adriani... Nos anos 80, fui atrás de querer misturar, fui atrás da música eletrônica para trazer para a MPB uma linguagem nova. 

- O que as pessoas achavam quando você colocou a música eletrônica na música brasileira?

Ah, a maioria não entendia nada, dizia que eu era maluca... Tanto que só fui cantar no Rock in Rio 2 porque um fã acreditou muito, o programador Alexandre Rolinha, e enviou uma fita do meu show e me inscreveu sem eu saber no festival Escalada do Rock. Aliás, esse festival só aconteceu por causa do Serguei, que lutou para que novos artistas brasileiros tivessem espaço dentro deste evento que ocorre aqui. Um belo dia, recebo um telefonema da Léa Penteado e descubro que estava entre os 30 finalistas e que teria que me apresentar. Que loucura, eu nem mandei nada! Aí começou a loucura, a loucura boa: fiz a melhor banda que poderia, levantei patrocínio e me tornei a revelação nacional do Rock in Rio. Abri o show do Prince, do Santana, saí em todas as mídias, detonei, me tornei conhecida nacionalmente e todo mundo achou que eu seria o novo boom da música brasileira, o que não aconteceu.


- Por que acha não aconteceu?

Talvez porque a minha música fosse muito diferente ou inovadora. Explico: eu já misturava nesse show a música eletrônica, a base eletrônica, o groove eletrônico com a música brasileira e ainda tinha uma escaladas de músicas orientais. Eu cantava, tocava guitarra, fazia uma performance com dois gays e ainda tinha uma imagem completamente nova. Aparecia vestida para matar com figurino de Glória Coelho, Reinaldo Lourenço, porque eu também fazia trilhas para desfiles. Então, sempre tive essa coisa da inovação musical, mas as pessoas me diziam nos anos 90: "O que você está fazendo misturando tudo isso?". E, depois de dois anos, o Brasil inteiro começou a misturar o groove eletrônico com a música brasileira. Só antecipei naquela época porque sempre tive o espirito livre, porque me assumi gay aos 17. E quando a gente se assume, a alma liberta e, então acho que os gays estão sempre um passo a frente.

- Você já disse em uma entrevista que chega uma hora que a Deusa Música pergunta: “Você quer fazer música ou quer fazer sucesso/dinheiro?”. É possível fazer sucesso fazendo música?

É muito difícil para um artista que tem personalidade e ética conseguir ganhar dinheiro no Brasil. Hoje, me consideram até morta, tem gente que acha que parei de cantar, pois não é tão simples fazer shows. Não fiquei rica, mas nunca me faltou nada. Ao contrário, sou respeitada e o mais legal é que os shows que faço as pessoas se encantam e se com a minha verdade. É porque falta verdade no mundo e quando aparecem loucos como eu, que bota sangue e bota alma, as pessoas se comovem.

- Você acha que a pirataria e as músicas que são vazadas na internet contribuíram para o cenário avaliado como caótico?

Não, acho que isso é uma hipocrisia também, porque não existe controle, nunca existiu e nunca vai existir. Sempre que alguém falar de fiscalização, vai ter alguém corrompendo em qualquer área. Eu acredito em educação, mas não acredito no ECAD [dos direitos autorais], que é o órgão que existe desde a ditadura, o que é uma piada, e nem em outras sociedades arrecadadoras de direitos autorais, pois muitas são máfias. Não acredito neste dinheiro recolhido, porque existe o jabá, então se alguém investe para que a música seja tocada 20 mil vezes porque pagou, ele vai receber mais. Ou seja, eu pago daqui, mas recolho dali, então é uma sujeira. 

Eu sou a favor da pirataria, eu libero os meus discos, só quero que mantenham o meu crédito, para que saibam que a música a minha. Se todo mundo tocar a minha música, é claro que eu vou vender mais shows, então me interessa que toque. Agora vem com essa frescura de fiscalização para que um zé mané, que não fez a música, ficar com 30% do dinheiro? Certa vez, coloquei uma música minha por dois minutos num programa para saber quanto tempo levaria para receber. Levaram 6 meses e o valor foi de 0,90 centavos, num programa de 200 milhões de lucro a cada três meses. 

- Cantora, mulher, guitarrista, lésbica... Embora achamos que as artes e o rock aceitam melhor as existências e ousadias, foi difícil se firmar neste mercado?

Muito difícil. Eu não sabia que seria tão difícil, porque sou gaúcha e o gaúcho é essencialmente muito ingênuo. Achava que bastava cantar bem que era o suficiente para ser quem eu quisesse. E não sabia desse mundo cheio de pudor, de máfia e que essas máfias não querem que a gente seja livre. E eu, que queria ser 100% livre, cai de paraquedas. As pessoas olhavam meio torto e as próprias cantoras achavam esquisito. "Como ela ousa ser uma cantora sem um homem por trás?". Eu cantava, tocava guitarra, fazia os arranjos, a base e ainda dizia para os músicos como eu queria. Ninguém acreditava que eu pudesse fazer tudo isso sozinha e ser uma líder. E até então eu nem havia assumido publicamente o lado homossexual, que na verdade é bissexual.

Com Kaká di Polly [foto: Edu Moraes] e no show Ecoglitter em 1998
- Ah, você se define bissexual? 

É, mas o movimento quer que a gente fale que é lésbica, então para ajudar o movimento eu digo: “tá, sou lésbica”. Mas na verdade, a minha alma pode amar um ser humano, seja ele homem ou mulher. Claro que tenho uma relação mais fácil com mulher, porque não passa pela coisa do paternalismo, que me atrapalha um pouco. Mas sou capaz de amar um homem, pois se ele for um ser humano bacana não importa o gênero. Quando falei sobre bissexualidade no Globo Repórter, em 1991, ao lado da Lúcia Veríssimo, achei que tivesse feito a lição de casa, um bem para a sociedade, mas muita gente me criticou. Um diretor famoso me ligou: "Que merda, Laura, você falou e agora eu vou ter que me assumir, pois a minha vó te viu na tevê". Ele ainda disse: "O legal de ser homossexual é estar no armário, é isso que dá tesão". Eu nunca entendi. 

- Voltando para a pergunta e retificando. Foi difícil sobreviver ao mercado artístico depois de se assumir bissexual no fim dos anos 80?

Aí comecei a ver o preconceito dos próprios roqueiros e das próprias cantoras, que são lésbicas e que não se assumem. E fui ficando muito só, sabia? Passei a ser uma guerreira solitária, porque eu não tive eco e as pessoas começaram a fugir depois que viram aquela situação: mulher, guitarrista, cantora, compositora e ainda homossexualmente assumida? Achavam que eu havia me assumido demais ou então queriam que eu usasse disso para ganhar dinheiro. Mas a minha decisão de falar foi natural, porque nos meus shows eu já falava de amor livre, já era andrógina e chamava mais atenção dos homens gays. Os gays já entendiam tudo e eles me amavam. 

Até que comecei a falar claramente por causa da aids, quando vários amigos meus, como o Caio Fernando Abreu, Cazuza e a minha irmã tiveram.  E eu virei uma militante. Cheguei a ir na primeira, na Praça Roosevelt, e a segunda, na Praça da República, com 1.500 pessoas numa chuva, com o [militante] Beto de Jesus segurando o microfone, outro garoto segurando o guarda-chuva e eu cantando e tocando o cavaquinho. Depois, veio a Vogue e a Elle, que me deram a expressão Lesbian Chic, pois era vestida pelos estilistas mais hypes de São Paulo, em troca das trilhas que eu fazia para os desfiles. 

- Você acha que os artistas e as pessoas devem falar ou assumir publicamente a sexualidade? 

Acho que as pessoas devem falar o que elas querem falar, fazer o que acham que devem fazer e ninguém é obrigado a nada. O que eu não gosto é da hipocrisia. Acho muito feio a bicha que faz as coisas às escuras, está comendo o cu de um cara, enquanto a mulher dele está em casa e ainda tem que escutar um discurso preconceituoso... Isso eu acho uma sacanagem, uma hipocrisia e acho que ninguém pode ser feliz desse jeito, nem o próprio cara. Afinal, não existe felicidade na mentira. 


- Sua irmã Lory F foi uma grande artista. Ela te influenciou de qual maneira?

Poxa, a Lory foi pioneira e, se ela estivesse viva, a Rita lee que se cuidasse. Ela teria sido a única roqueira do Brasil com essa veia visionária, a frente do tempo. Ela era autêntica, já sacava o universo falido e ao mesmo tempo era uma artista nata. Acabou sendo uma vítima da droga porque era grande demais,  tinha que ser da turma do Jimi Hendrix. Tudo o que ela botava a mão virava arte e eu tive a honra de conviver. Ela me mostrou o mundo, captava a essência da música inglesa, digeria as informações, me abriu a cabeça para a música, numerologia, astrologia, alimentação natural, ioga, massagem, numa época em que ninguém falava. Gostaria de deixar uma dica para os jovens, posso?

- Claro que pode!

Antes de morrer, a Lory me disse: "Agradeço a Deus por morrer de aids e não por overdose, porque estou tendo tempo para me recobrar e me realinhar com a espiritualidade". Afinal, ela era uma pessoa muito ligada na espiritualidade. E ela falou que realmente a maconha é melhor que a cocaína, mas que a maconha passa pela mesma mão dos traficantes e carrega essa energia ruim. Então, ela também fica tão pesada quanto a coicaína. Lory me disse: "Se tu puder evitar e não usar droga nenhuma, é melhor. Não que a maconha seja ruim, ruim é energia que ela trás por vir da mão do tráfico". 

- Você foi uma parceira de Cazuza [1958-1990]. Conta alguma história sobre essa amizade? 

O Cazuza me viu cantando no Madame Satã nos anos 80 e adorou o meu trabalho. Para mim, foi marcante ver o Cazuza, que já era uma estrela, na plateia do meu show. Uma amiga nos apresentou e ele disse que queria fazer uma música comigo. Eu acabei esquecendo e essa amiga me ligou e disse: "Laura, o Cazuza tá cobrando, ele quer a música". E fizemos "Tudo é Amor", que ele gravou um LP chamado "Burguesia" e o Ney Matogrosso gravou depois em "Quem não Vive tem Medo da Morte". Nos encontramos também em São Paulo, na casa de outra amiga em comum, e ali já vi que ele estava magrinho, cinza e doeu vê-lo naquele estado. Logo depois que ele morreu, a minha irmã foi diagnosticada com aids. Só que o AZT era uma fortuna e eu liguei para a Lucinha Araújo [mãe de Cazuza] para ver se ela poderia me ajudar e essa mulher foi demais. Disse: "Vou encontrar uma pessoa que deve favores para o meu marido e ela vai pagar o AZT da sua irmã todos os meses. E ela realmente conseguiu. Foi essa ajuda que o Cazuza me deixou.

- E como conheceu e fez parceria com a travesti multimídia Claudia Wonder [1955-2010]? 

Em 1984, quando eu fazia muito show e bombava no Lira Paulistana, fui convidada para sair na revista hype Interview. Eu, Virginie do Metrô, Paula Toller e Claudia Wonder, que bombava no cenário underground. Só que, quando fomos tirar fotos, o maquiador não apareceu. E a Claudia me disse: "Pode deixar, queridinha, deixa que eu faço a sua maquiagem". Ela me maquiou de roupão e ele se abriu na minha frente. Foi a primeira vez que eu alguém de pau e peito. Aliás, um baita pau, por sinal [risos]. E ali eu fiquei amiga dela. Depois, em todos os eventos que precisavam de lésbica e travesti, chamavam eu e a Claudia. Chegamos a pensar e a ensaiar com uma banda da diversidade, comigo, ela, a Sandra das Mercenárias, os dois meninos gays que fizeram o disco dela [os The Laptop Boys] e o Miranda. Só que só conseguimos fazer um ensaio, que deu para ver que seria muito legal. Acabou que fizemos a música "Travesti [escute clicando aqui]" e depois a gente deu uma afastada. Ficou o carinho.


Acima, Claudia Wonder, Victor Piercing, Dimmy Kieer e Grace Gianoukas;
Abaixo, Edson Cordeiro e Lory F
- Você diz e aparenta realmente ser uma mulher livre.  Qual é o preço que se paga pela liberdade? 

Muitas vezes - e quase sempre - é ficar párea, à parte, não participar. Por exemplo, eu nunca saí numa entrevista em revista de música, nunca me entrevistaram nem como musicista. Isso eu acho o retrato de um país machista, pois sou guitarrista e não sou considerada guitarrista. Outro exemplo? O editor de uma revista, que  acompanhou a minha trajetória e viu a gente quebrar tudo, não me entrevista, porque me considera underground. Outro? Um programador falou que não me contratava porque eu sou moderna demais. Então, esse é o preço de alguém que fala o que pensa, de alguém que não vai atrás de modismo e nem de máfia. Mas estou pagando pra ver: água mole, pedra dura... Quero ver daqui 30 anos, quando eu tiver 80, como vai ser essa história. 

- O que você tirou da sua experiência fazendo trilha sonora para reality show, sendo que você tem essa proposta de levar cultura de verdade e esse formato de programa é considerado fútil? 

Primeiro, nunca tirei dinheiro de ninguém e de nenhuma multinacional para tocar música no programa. Levei isso tão a sério ao ponto de um diretor do SBT me dizer: "Você está louca, quer morrer pobre?". E eu disse: "Prefiro morrer pobre que podre". Eu fiz pela questão artística. E foi fácil porque, como eu trabalhava com trilha sonora para desfile de moda, teatro, cinema, documentário, eu sabia olhar para uma cena e botar uma música. Observava tudo o que acontecia, a índole e a essência dos participantes. É claro que dá mais trabalho, mas o público provou que gosta, afinal nestes 12 anos de tevê o que mais elogiam é a trilha sonora. 

Eu vi, por exemplo, que a Bárbara [Paz] e o Supla eram muito inteligentes e que não dava para colocar qualquer musiquinha [na Casa dos Artistas]. Eles gostavam de rock, mas o Supla era mais radical, mas também não dava para colocar algo punk. Pensei: "o que é uma música de raça e que vai cair bem com esses dois?". Veio Aretha Franklin e essa música que todo mundo se apaixonava. Então, o que eu tiro daí é que dá para fazer algo artístico dentro de um mundo comercial, basta querer. Outra coisa, por mais fúteis que sejam os reality shows eles são uma mostra do que é a sociedade, é um lugar que dá para estudar o ser humano. E o terceiro aprendizado, que é gigantesco, é que aprendi a sonorizar de vídeos emocionais até vídeos de ação, provas, desafios, festas e dia a dia. 

- Era um trabalho de pesquisa, tanto de acompanhamento 24h quanto de seleção das músicas? 

Total! Eu ia afundo na alma daquela pessoa para identificar o tipo de música que tinha relação com aquela emoção e, às vezes, traduzir a emoção da pessoa na voz e no timbre de um cantor. Pela observação, aprendi a ter essa percepção e com a intenção de emocionar. Sempre quis fazer algo que vai além do ritmo. Com a Nany People [em A Fazenda 3], colocava a música do Abba, porque ela tinha uma veia maternal e porque Abba é um ícone do mundo gay. E a última música dela foi um sucesso do Roberto Carlos, que coincidentemente é uma música que ela escuta na casa dela, pois ela me contou depois. E o mais louca é que tem gente que não te inspira música nenhuma e daí você tem que ir no óbvio ou no estereótipo. 


- O que você escuta hoje?  

Escuto de tudo, mas as coisas que eu acho mais bem produzidas atualmente são as trilhas sonoras feitas para cinema. É indiscutível: apesar dos pesares, ainda existe criatividade, ousadia e muita tecnologia. Na música brasileira, ouço os velhos. Gosto da velha guarda do samba, Novos Baianos, gosto da Dupla Zoológica, que faz música orgânica, com som de puro, que fala de bicho. É claro que, como faço do mundo gay, também gosto do glamour. Gosto de Madonna, que dentro do mundo pop sabe produzir e o resultado é muito bom. Gosto de Bjork, David Bowie. E também gosto de vozes, mas não de estilos, como a voz do Seu Jorge, Marisa Monte... De todos, acho que Ney Matogrosso faz discos maravilhosos até hoje e tem personalidade naquilo que faz. O novo disco dele é lindíssimo, vale a pena ficar ouvindo.   

- Em outra música do seu CD, você diz: “Esse mundo está perdido, isso ninguém pode negar”. Tem jeito? 

Tem. “Então junta todo mundo, que é pro mundo melhorar”, continua a letra. Eu acredito nisso e acho que já está acontecendo. Porque, ao mesmo tempo em que estamos nesse processo caótico, de fim do mundo, a gente está num processo caótico, de renascimento do mundo. Estamos vendo as verdades vindo à tona, o povo - que é visto como preguiçoso - fazendo greve, querendo os direitos... Por mais que não exista concerto imediato, as pessoas estão entendendo que não existe felicidade para um só. Ou todos são felizes ou não existe felicidade.  

- Você contou no início da entrevista que Lampião e Maria Bonita são seus ídolos. Você tem alguma coisa deles?  

Eu acho que tenho: o espírito combativo, guerreiro e justiceiro. Podem falar o que for de Lampião, mas ele estava querendo fazer justiça. Se eu vivesse naquela época, seria do bando do Lampião.

- Disso não tenho dúvida!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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