Entrevista

Um ano após exposição, diretora e atriz trans Laysa Machado diz que 'incentivo maior vem dos alunos'

'Sociedade nos enxerga como subproduto mal-acabado da expressão feminina'

Laysa Carolina Machado, 42, é uma mulher, profissional e cidadã que representa muita gente. Sobretudo quem busca[va] exemplos positivos, íntegros e de sucesso dentro do universo trans. Desde que foi entrevistada com exclusividade pelo NLucon em 2013, a paranaense historiadora, diretora de uma escola estadual, professora e atriz chamou atenção da mídia e viu o seu nome rodar nos principais veículos do Brasil. Dentre as manchetes, Transexual dirige escola no Paraná após eleição democrática, informou o jornal O Globo [10/05/2013].
Consciente do papel e da visibilidade conquistada, Laysa investiu na mensagem, driblou o sensacionalismo, mandou beijinho no ombro para a transfobia e manteve com coragem e dedicação o cargo na Escola Estadual Chico Mendes, em São José dos Pinhais. Saiu ilesa até mesmo de uma temida entrevista com Danilo Gentili. Com muito jogo de cintura, discurso afiado e uma pitada de ativismo crítico, provou que é possível enfrentar os leões, sair do conforto da passabilidade cisgênero e pensar no outro. Uma visibilidade com dignidade.

Um ano depois, muita coisa mudou. Além de ter se tornado referência, ela continua em sua peleja e, agora, é tema do documentário A Morada Transitória, do diretor Jansen Hinkel, cuja estreia ocorre no dia 21 de maio, às 20h, no SESI, em São José dos Pinhais, no Paraná. Na obra, Laysa fala um pouco sobre a vivência, carreira, preconceito e contato com os alunos. “Uma aluna disse: nós gostamos de você, porque você samba na cara da sociedade”, conta. Agora, Laysa retorna ao NLucon com mais gás, comenta mudanças e diz que ainda há muito o que fazer.

 Confira abaixo o novo bate-papo: 

- Faz um ano desde que sua história tornou-se pública. O que mudou da Laysa de antes para a de agora? 

Muitas coisas mudaram para o bem e para o mal. Pude falar abertamente sobre minha vida, ser eu mesma e, o mais importante, contar minha história com a minha voz. Até então, estava cansada de ouvi-las nas vozes preconceituosas de outras pessoas. Hoje, estou dando palestras em escolas, universidades, eventos, levando a peça que escrevi em todos os lugares que deixam. Digo isso, pois no meio LGBTT temos guetos que não deixam os que não fazem parte da panelinha fechada entrar de jeito nenhum. É triste, mas a gente supera, dribla e encontra outros meios. Passei a dar entrevistas em praticamente todos os meios de comunicação e pude expressar a minha essência com o ônus e o bônus. 

- Quais são os comentários e qual é a pergunta que as pessoas passaram a te fazer desde então?

A pergunta que as pessoas fazem em quase todos os lugares que vou é: Você sofreu ou sofre discriminação dos alunos? E a resposta é: Não. Nunca ou quase nunca o preconceito vem dos alunos. O preconceito se esconde e escamoteia no seio da docência, culturalmente velada, bem elaborado e fatalmente irônica. 

 - Antes as pessoas te conheciam como mulher cis. Ser reconhecida como mulher transexual fez alguma diferença? Como a exposição mexeu em sua rotina, vida pessoal e profissional?

Sim, a sociedade no geral só vê a transexual com todos os matizes dos preceitos instituídos dentro de um fundamentalismo religioso historicamente e culturalmente construído. Ser mulher transexual é ser um abjeto, uma referência nefasta. A exposição também me obrigou a tomar cuidados, senti na pele a ciumeira, inveja, medo de muita gente ao meu redor. Afinal neste mundo midiático, virtual, cheio de pseudo glamour, estar na mídia é ter poder, estar na mídia é estar na mira, sempre! E de certa forma tenho que estar sempre atenta para não ser bombardeada.

Preciso usar meu tempo vago pra estruturar minhas palestras, textos, entrevistas. Preciso me justificar se saio alguns minutos antes - raramente faço isso - preciso comunicar a todos e todas se fico doente, que estou de atestado, que não tirei todos os dias das minhas férias, que estou ministrando minhas aulas. Responder as inúmeras denúncias "anônimas”... Na vida pessoal, meu marido segura todas as barras junto, dá força, me ajuda, entende e incentiva. Meu casamento é minha base, afinal vamos para sete anos já de muito companheirismo. 

- Como os alunos reagiram ao saber que tinham uma professora e diretora transexual? 

Meus alunos sempre me conheceram como Laysa. Claro que alguns devem ter comentado depois da exposição, mas não comigo. Alguns me dão os parabéns, dizem que viram minha entrevista. Outros não se manifestam, mas no geral é super positivo. Quando necessário, paro a minha aula, falo sobre respeito, acolhimento, amor! É muito difícil estar na educação brasileira neste empurra-empurra funesto, porém são os alunos, meus estudantes, que me incentivam a continuar. Tenho e sempre tive uma excelente relação com eles.

Na reflexão sobre o binarismo, Laysa pediu uma fila de seres humanos aos alunos

- Como é para você dirigir e dar aulas em um ensino que ainda hoje é dividido em homem e mulher? Existe este tipo de reflexão?

Este binarismo milenar é muito presente na escola, já que lá também é mais uma das instituições castradoras, reguladoras e de vigilância ao ciclo social meramente reprodutivo. Lembro de uma vez que fui dar uma aula no ano passado - aula de ensino religioso: ainda faz parte da matriz curricular do Paraná. Eu disse: Quero uma fila de seres humanos. Os alunos do 6º ano, antiga 5ª série, adoraram a frase. 

- Como você avalia o tratamento da mídia nas reportagens sobre você? E no caso das demais trans? 

Na maioria das vezes, sempre tiveram respeito com a minha história. Não gosto de teor sensacionalista, evito este tipo de mídia lixo e deixo para as pessoas desvairadas ou iludidas. No caso das demais trans, percebo que vai da postura de cada uma, o que cada uma quer passar. Por exemplo: Mesmo que seja um programa sensacionalista, ninguém coloca um arma na cabeça de ninguém e diz: ”Vai lá naquele programa pra ser zoada”. Ela vai porque quer mídia, independente da mídia que seja. No mundo trans, a inocência também passa longe, meu amor. 

- Ser entrevistada pelo Danilo Gentili deixou muita gente preocupada e de cabelo em pé, pelas várias piadas tidas como preconceituosas. Embora tenha tirado de letra, você teve essa preocupação?

Verdade. Eu sabia o que ia acontecer no programa,você também estava lá e viu na íntegra como me sai das piadas dele. É o papel dele fazer isso e é o meu dever não ser uma palhaça de circo. Meu amigo Gerald Thomas assistiu a uma parte e disse: “Por que você não deixou o programa e foi embora?” Eu respondi: Amor você assistiu até o fim? Se você tem sua história sabe quem você é, o que você quer e se respeita, ninguém faz piadas com a sua história. Mas se fizer, você sabe se defender ou faz o que eu disse no programa: processa.

- Recebeu apoios, comentários ou incentivos da comunidade trans? O que pôde sentir do grupo ao se deparar com uma trajetória de sucesso? 

Tem uma frase que diz: “Caráter é como pulga, tem em todos os lugares, mas só pica alguns”. Independente de ser comunidade trans ou não existem pessoas de todos os tipos. Aprendi a respeitar todas, todos os discursos, cada um com sua história, sabendo que ninguém agrada a todos e todas. Percebo que uma grande parte das trans está em defesa e luta de direitos e soma à minha luta, outras estão fechadas nas suas panelinhas e outras gostam de apenas” xoxar" quem aparece na sua frente. Ou seja, quem quiser gostar de mim, ótimo. Quem não quiser, ótimo também.

 'Se você sabe quem é, o que quer e se respeita, ninguém faz piada com a sua história'

- Anteriormente, entrevistei uma professora trans que disse ser a favor de cotas para travestis e transexuais em faculdades. Você concorda?
 

Sim. Qualquer faísca que passe pelo direito é válida. Que venham as cotas. Que venha a lei João Nery, e todos os direitos que nos é alijada todos os dias. A Lei João Nery, por exemplo, vai permitir aos alunos e alunas trans maior acesso educacional, principalmente a permanência desse aluno ou aluna na escola, sem tantos constrangimentos e sem pedir a benevolência dos professores para respeitar o nome social. Claro que ainda haverá bullying, porém também haverá respeito e direitos constitucionais, da própria LDB e no ECA [Estatuto do menor e do adolescente no artigo 53]. 

- Qual é a mensagem que você dá para as novas gerações de trans? 

Estudem, lute, lute muito pelos seus direitos e faça o possível para ter em sua vida momentos de muita felicidade. 

- Você está presente a lançar o documentário “Morada Transitória”. Como foi revirar mais uma vez o passado e as marcas? Tem alguma passagem que não abordamos anteriormente?

Meu passado se mistura ao social, racial e gênero. Revivê-lo é como pisar em água límpida e deixá-la momentaneamente turva. Lava a alma, cura feridas, revisitá-las faz pensar que toda a trajetória vale e valeu muito a pena. Tem uma cena no documentário que mexeu muito comigo: Praticamente cresci na igreja católica e há uma cena em que falei da cirurgia de redesignação sexual  [popularmente conhecida como mudança de sexo] olhando para as imagens dentro da igreja. Isso me tocou bastante. 

- Explica o nome: “Morada Transitória”?

Tem vários significados, mas surgiu de uma entrevista de uma artista plástica que fez uma exposição com vários tipos de casas. E eu relacionei com a nossa morada - corpo, alma - que também é transitória. Deu o nome ao meu monólogo e, agora, para o documentário. 

- No filme, você diz que acredita que o poder vem do feminino. É uma consciência que as mulheres, sejam elas cis ou trans, também estão tendo? Como historiadora, acha que já passou da hora de as mulheres terem este empoderamento?

Como historiadora sei que o nosso histórico como formação do nosso “Genos” é explicitamente latina miscigenada e abertamente machista. O espaço social feminino se reservou ao tanque e ao fogão. A partir do momento que a mulher se torna independente, aumentou ainda mais o perigo ao domínio “fálico”, que é culturalmente construído. Fazer esta desconstrução leva anos e requerem vários elementos. A educação é um deles na luta contra o machismo e contra o preconceito como um todo. 

- Profissionalmente, além de atriz e professora, você continua como diretora? Quais são os próximos passos? 

O curta será exibido em vários festivais do Brasil e, no próximo mês, estará na Fundação Cultural de Curitiba. Em breve, será traduzido para ganhar os quatro cantos do mundo. Também estou escrevendo um roteiro para um longa-metragem que farei ano que vem com ou sem verba, com ou sem edital, com ou sem incentivo. Porque 20 anos de carreira de atriz deu pra perceber que se esperar dos produtores morreremos invisíveis ou com um discurso utópico: “estou esperando convites” Vai morrer esperando. Cláudia Wonder, que dizia isso, sempre teve razão. Sobre a escola, este é o ano de eleição para a direção e, por isso tudo, de bom ou ruim, fica muito intenso. .

Arte do documentário "A Morada Transitória": "Cena dentro da igreja católica mexeu comigo"

- Durante a campanha #SomosTodosMacacos, você falou sobre a transfobia e atentou que uma manifestação desse porte dificilmente aconteceria se a vítima fosse uma trans. O Brasil ainda vê os crimes contra transexuais como menos relevantes?

O Brasil não vê como “menos relevante” os crimes de transfobia e, sim, como “sem relevância alguma”. Afinal a sociedade nos enxerga como um “subproduto mal-acabado da expressão feminina”. Lixos humanos não recicláveis que devem permanecer no obscuro e anônimos. Abjetos, e objeto fetichista , sem alma. Na história, a Igreja no século XVI justificava a escravidão dizendo que os negros não tinham alma. Na sociedade atual esta mesma sociedade se justifica dizendo que além de não ter alma não temos vergonha na cara. Como alienígenas devemos ser exterminados sem dó ou piedade. 

- Você tem esperanças de que um dia uma trans diretora, protagonista de novela, apresentadora, deixe de ser notícia? 

Como historiadora, sei que este pensamento vai mudar, mas para isso devemos lutar pelos nossos direitos e não fazer lutas de egos. Afinal, o preconceito atinge a todos e todas indistintamente 

- Para não perder o costume, qual é o seu maior sonho hoje?

Olha, ao invés de responder esta pergunta eu vou relatar um fato que aconteceu na escola esta semana quando eu passei por duas alunas minhas do 9º ano D. Elas olharam para mim e comentaram alguma coisa enquanto eu passava. Perguntei o que elas comentavam e a resposta delas foi: Professora nós gostamos muito de você porque você samba na cara da sociedade. Eu respondi: sambo mesmo com um belíssimo sapato salto agulha, um vestido escândalo e um com o livro do Claudio Vicentino. Vamos à aula!

- Ótimo!

Ops! Eu tenho um sonho, sim. De um dia ser convidada para apresentar a peça e o documentário na minha cidade, Guarapuava. Muitas pessoas pedem, mas como a cidade translesbohomofóbica eles fazem a egípcia, fingem que não sabem de nada [risos]. 

Abaixo, o teaser do curta:

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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