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MC Xuxú lança clipe contra preconceito e revela já ter sofrido agressão nas ruas; assista!

"Já levei duas facadas. Pedi a Deus para que minha música funcionasse", diz MC Xuxú ao NLucon

Depois do sucesso “Um Beijo [pras travesti]”, a cantora Karol Vieira, mais conhecida como MC Xuxú, divulgou um novo e importante videoclipe na rede. Nele, a artista trans mostra o lado politizado, sensibilidade com o grupo de fãs homossexuais e canta a música “Desabafo”, que fala sobre preconceito, religião e superação. A música foi escrita por Xuxu em 2012 - quando estava no início de sua transição - e ganhou nova remixagem do DJ Poty para o clipe da Mega Produções.

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O vídeo inicia com a frase do jornalista Marcelo Cabrini no programa Conexão Repórter, do SBT, que constata que aumentou o número de ataques contra homossexuais. Xuxú, então, é assediada na rua, é agredida e chora. Depois, aparece com um decotado vestido verde-esperança e desabafa: “Com tanta coisa para se preocupar/ com tanta vida perdida/ tem gente perdendo o tempo/ querendo mudar e mandar na minha vida/ Testando a minha fé, subestimando o quanto eu sou forte”.

Acompanhada de sete bailarinos - Wally Castro, Rodrigo Medsan, Paulo Vitor, Jhonatan Souza, Douglas Bernardes, Giovane Dias Botelho e Matheus Vilas Boas [coreógrafo] – a funkeira arrasa na coreografia e se diz “devota da paz”. Rende e encapuza a homofobia, mas garante que não quer causar caô [problema ou confusão, na gíria], apenas a compreensão. Na letra, a mensagem: “Não peço para me aceitar/ Apenas te peço para me respeitar” e “Hoje em dia é tão natural, hoje em dia tem brilho em todo lugar”.

Com notável amadurecimento profissional e fortíssima personalidade própria, cuja origem musical vem do rap, Xuxú aposta na música politizada logo no início do show, seja ele em casas gls ou héteros. Ela diz que a aceitação é imediata e que o público recebe bem a mensagem contra a homolesbotransfobia. “O mais importante é dizer que o amor supera o preconceito”, afirma. Quem “fecha” [concorda, na gíria] com ela, sempre levanta a mão. Assista ao clipe [que tem mais de 14 mil acessos] e, depois, confira o bate-papo exclusivo com a MC Xuxú:



- Você é a autora de Desabafo. Aconteceu algum episódio específico para escrever a letra e desabafar?

Escrevi a letra há dois anos, quando me mudei para o Rio de Janeiro para fazer a minha transformação e me assumir como travesti. Saí de Juíz de Fora, Minas Gerais, porque nem toda a minha família me apoiava. Estava sozinha, me sentia deprimida, sentia falta da minha mãe e esses momentos me ajudaram a escrever com sentimento. Daí surgiu “Desabafo”.

- O clipe também mostra você sofrendo violência nas ruas. Por que você destacou essa questão? Já aconteceu alguma experiência semelhante em sua vida?

Já, do mesmo jeitinho. Porém, não levei tapa na cara e, sim, duas facadas. Vivia pedindo a Deus que minha música funcionasse para que eu pudesse sair da rua. A prostituição é a salvação de muitas quando as portas nãos e abrem nas empresas, no mercado de trabalho... Mas tem que ser muito forte para aturar a noite e os clientes. A verdade é que acontecem coisas muito piores. Todos os dias, leio notícias de assassinatos de travestis nas ruas e isso tem que mudar, pois a rua é o nosso único refúgio. Algumas pessoas acham que por ser travesti pode dar tapinha na bunda ou que o sexo será mais fácil. É muita desinformação na cabeça dos transfóbicos.

- Muitas trans questionaram o fato de você usar a palavra “homofobia”, que é o preconceito contra homossexuais, e não “transfobia”, que é o preconceito contra trans. Tem alguma explicação?

Neste momento, achei que a homofobia seria a melhor palavra para englobar o meu público, que é formado na maioria por gay. É raro ver travestis nos meus shows. Quando lancei “Um Beijo”, as pessoas diziam: “Você fez música para as travas e, agora, tem que fazer uma música para os gays”. Além disso, eu não havia me assumido trans quando escrevi a letra e acredito que cada pessoa pode fazer a sua parte para combater todos os tipos de preconceito, não só aquele que te afeta. O mais importante é levar a mensagem que o amor supera o ódio. Então, falei sobre as trans em “Um beijo” e agora lanço uma mensagem contra a homofobia.

"Música Desabafo quebra clima, mas é essencial em meu show"

- Tá explicado. A letra retoma a veia do funk politizado e vai na contramão do que é sucesso hoje em dia. Como as pessoas recebem Desabafo nos shows?

Ele quebra um pouco o clima da diversão por ser mais politizado, mas é essencial em meu repertório. Sempre tem alguém que precisa ouvir o meu desabafo. O preconceito existe em nosso meio lgbt, então antes de qualquer piadinha, seja local héteros ou não, eu gosto de cantar a música logo depois da abertura. Parece que depois o show fica mais gostoso.

- Noto que desde 2009, quando você estourou com o rap Pantera Cor de Rosa, há um grande amadurecimento profissional. As pessoas também comentam isso?

É bom ouvir que estou melhorando, pois é sinal de que estou no caminho certo. Venho da PZP, onde aprendi a escrever, passei pelo MGM, em aprendi a militância. Quebrei a cara várias vezes com meus erros e fiz disso o meu aprendizado. Quem me acompanha desde a Pantera pode ver o quanto eu procurei melhorar em todos os meus projetos.

- Assim como outros artistas, que abandonam o MC, você pensa em abandonar o Xuxu e adotar o nome Karol Vieira?

Não quero bancar essas cantoras que usam o funk para subir na vida e depois trocam de nome. Eu sou apaixonada pelo funk e ser MC tem tudo a ver com meu trabalho. Talvez faça alguns trabalhos usando Xuxú, que veio do rap, que é a minha origem, mas Karol não. MC Xuxú forever.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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