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O que vi, senti e fotografei da Parada do Orgulho LGBT em 2014; Homens trans se destacam

Homens transexuais se reuniram e mostraram a importância da visibilidade

Para quem quer viver de verdade a Parada de milhões [ou dos 100 mil, como foi contabilizado neste ano], nada de apenas dar close nos trios ou no camarote da Prefeitura. É preciso se jogar com amor e coragem na multidão, acompanhar as macros [ou micros] manifestações, figurinos, algazarras, beijos, benefícios e pelejas. No último domingo, 4, às 10h, chego à Avenida Paulista, espaço que é tomado pela comunidade LGBT para uma tarde em que “a diversidade sorri na cara da sociedade preconceituosa". Nas mãos, uma câmera fotográfica e, no bolso com botões fechados, um celular.

Pela primeira vez em 18 anos [após pressão nas redes sociais e uma reunião com militantes], o evento fala sobre o grupo trans, ganha o tema: País Vencedor é País sem Homolesbotransfobia. Chega de Mortes!”. E atenta para ao PL 5002/2013, mais conhecido como Lei João Nery, que visa respeitar a identidade de gênero e retificar o nome de trans. A expectativa, portanto, é de que a visibilidade trans exploda na avenida e que o tema ganhe luz nos noticiários.

Das 10h até às 11h, as ruas ainda estão vazias. Mas é possível ver algumas vibrantes figuras do cenário LGBT caracterizadas e atendendo aos pedidos de fotos com os participantes. A drag queen Tchaka, por exemplo, está em seu posto de Rainha das Festas e com um figurino que homenageia a Copa do Mundo. Muitos cliques, muitos sorrisos e a encantadora admiração de um bebê, que não tira os olhos de cima da colorida imagem.

Entre artistas, ativistas e personalidades, Bianca Mahafe, Gustavo Don, Dario Neto, Fllavia Carvalhaes, Loren Bonita, Victoria Vipper, Amanda Sampaio, Salete Campari, entre outros já tomam o espaço tudo-junto-e-misturado. “Estarei no carro que divulga a série Orange is the New Black”, diz Vipper, salientando que a atriz Lea Delaria também estará lá. Kimberly Luciana Dias aparece personificada de Justiça e faz menção ao tema da Parada: “Meu nome é Kimberly, pela aprovação da lei de identidade de gênero”. Já a modelo trans Viviany Beleboni encarnou em grande estilo a Malévola, da Branca de Neve.

BEIJOS, AMORES E POLICIA 

Ao meio dia, pessoas das mais diversas figuras, idades, identidades e orientações sexuais começam a se unir e a fazer de seus corpos uma grande bandeira da diversidade. Muitos se beijando, outros exibindo o corpo, casais lgbts de mãos dadas, alguns bêbados, poucos com faixas, todos fotografando e muita gente dando o famoso “close”. “Ei, tira foto de eu beijando o meu marido? Quero a capa do site, viu?”, pediu um participante aos risos, que logo afirmou estar numa união de cinco anos.  


A artista trans Rafaela Ferrari também fez questão de posar ao lado do namorado. Carmem Maura de Moura esteve acompanhada do marido, com quem está há 12 anos e divide uma linda história. “Ele acompanhou toda a minha transição, estamos unidos há tanto tempo que não há problema de aparecermos juntos”, diz. Ao contrário, “é motivo de orgulho”, completo. A ativista Alexandra Braga, conhecida como a Lady Gaga do quadro Lata Velha, do Caldeirão do Huck, também desfilou na companhia do marido.

Tudo parecia estar num excelente clima de harmonia, de pegação, de descontração e de romance, até que um rapaz rapidamente puxa os óculos de sol de outro e sai correndo. O participante tenta em vão alcançar o ladrão, mas volta alegando que o produto não era original. Próximo da cena, a polícia faz vistas grossas ao roubo e se atenta em levar a caixa de isopor com bebidas e vinho de um vendedor ambulante. “Perdeu, perdeu”, grita quatro policiais em cima de um vendedor. Uma cena corriqueira – e revoltante - durante toda a tarde ao som de música eletrônica e os funks de Anitta e Valesca Popozuda.

HOMENS TRANSEXUAIS DÃO O NOME

Mas como foi a visibilidade trans dentro da Parada do Orgulho LGBT 2014? Além da importante presença de ativistas e militantes – como João W Nery [que foi levado pelo deputado Jean Wyllys] Luisa Helena Stern, Marcia Rocha, Janaina Lima, Agatha Lima, Daniela Andrade, Kimberly, Leo Moreira Sá ... – e das demais participantes trans que estiveram no evento, é preciso dizer que houve uma triste lacuna dentro da programação.

Explico: No local onde deveria estar o 10º trio, Visibilidade Trans/ Caminhão Solidário, que foi prometido para a manifestação do grupo, há apenas um pequeno caminhão fechado. E um grande espaço vazio. A justificativa inicial: “O trio das trans quebrou e não conseguiram substituir”. A solução: “remanejamento para outros carros”. Conclusão: Mais de 20 meninas, que estavam prontas para subir ao trio ficaram no chão e acompanharam a Parada sem qualquer destaque. "É invisibilidade trans na Parada que deveria ser para elas e eles”, argumentou uma militante. 

A grande surpresa - e o que inspirou o verdadeiro sentido da Parada - ocorreu ao ver uma das poucas [e mais importantes] manifestações políticas: a dos homens transexuais. Os ativistas Leo Peçanha, Jackson Tyller Macalister, Luiz Fernando Prado Uchoa, Renan Santana, Luciano Palhano, entre outros garotos militantes, suas namoradas e simpatizantes, se reuniram, fizeram uma camiseta e levaram faixas e cartazes para a Parada. “A visibilidade garante direitos”, “Homens trans, essa luta também é nossa”, “Liberdade Trans”, informavam alguns dos cartazes. 

Uma articulação importante, histórica, única, bonita de se ver e necessária para a visibilidade do grupo e a conquista de direitos. Ou seja, foram o grande destaque do evento no quesito militância. 

FIM DO CLIMA

Quando encontro uma turma de amigos e o meu namorado, às 2h30, somos literalmente arrastados pela multidão e pelos guardas que abrem espaço para a entrada do trio elétrico. Cada um foi jogado para um lado e o exercício maior era a tentativa de caminharmos juntos. Do alto do trio, Lea DeLaria é vista com cara de poucos amigos protegida por um segurança e um guarda-chuva colorido. Debaixo, o aperto nos faz sentir sardinhas enlatadas. Até que meu namorado conta que roubaram o celular dele dentro da mochila. Eu, ao colocar as mãos no bolso, noto que o meu celular também foi roubado.

A sensação de orgulho LGBT se esvai e dá espaço para a de agressão, de violação, de falta de respeito, de falta de segurança e de falta de esperança. 
Poderia ainda assim ficar até o show da Wanessa, mas fico sabendo de outros roubos e temo pela câmera fotográfica. Subir ao trio nessa altura do campeonato seria deixar de viver a Parada dos 100 mil. "Ok, a minha Parada acabou", penso antes de voltar para a casa no prejuízo. Abaixo, disponibilizo aos leitores o meu olhar e os melhores momentos desta festa. 


















































































About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

3 comentários:

Niele Doles disse...

ISSO SIM E UM PROTESTO PELOS NOSSOS DIREITO NAO O DESFILE CARNAVALESCO GAY PARABENS Kimberly Luciana Dias ESTOU COM VC, fez o significado da parada gay protesta para o nosso direito.

Jary Jan disse...

HELLO HOW ARE YOU ALL I LOVE LADYBOYS PLEASE ADD ME OR FOLLOW ME I WANT A GOOD RELATION WITH A LADYBOY SO ADD ME OR FOLLOW ME LOVE YOU ALL

K I M B E R L Y disse...

♥ Obrigada por todo o carinho e reconhecimento nesses últimos dias, sem palavras, que a ideia que pensei na nossa visibilidade foi aprovada por todas do nosso segmento T... Esse momento ficará entre uns dos mais importantes que tive em minha vida!!! Quero agradecer mais uma vez ao Neto por fazer esse papel maravilhoso para nós Cidadãs Travestis e Mulheres Transexuais onde divulga com muito orgulho tudo ... Na verdade eu iria a Parada LGBT Formal, mas não poderia deixar passar batido esse tema que é tão importante e almejado por nós e resolvi na ultima semana antes ao manifesto na visibilidade da nossa luta, agora é continuar lutando para que Lei de Identidade de Gênero "João W. Nery" seja aprovada, e também por justiça e criminalização por todas as Travestis e Trans que tiverem ou que ainda terá a vida arrancada por falta de uma lei que proteja e criminaliza quem mata nós LGBT.

Uma linda Semana a todas(os) !!!

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