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Quando o jornalismo contribuiu com a causa trans e promoveu o uso do nome social no Enem

Em um ano, MEC conseguiu procurar solução para alunos e alunas transexuais 

Sempre acreditei que, quando levado a sério, o jornalismo pode ser uma importante ferramenta social. Seja para retratar os fatos do cotidiano, denunciar casos e pessoas, ou até mesmo dar luz a temas pouco falado – que por sua vez ganham visibilidade, chamam atenção e podem conquistar importantes políticas públicas e transformações sociais. Um bom exemplo pode ser observado na sensibilização do Exame Nacional do Ensino Médio [Enem] que, após ampla divulgação da mídia sobre a transfobia e depreparo de alguns fiscais na prova em 2013, neste ano concedeu o direito de travestis e transexuais usarem o nome social e, assim, evitarem novos constrangimentos.

A primeira matéria jornalística foi feita e escrita pelo NLucon no dia 26 de outubro de 2013, em “Fiscais do ENEM 2013 cometem erros e acertos ao receberem alunos trans”, em que foi escutado várias denúncias. O blog de Gustavo Don também retratou o episódio. Foi o pontapé para que vários jornalistas de outros veículos solicitassem as mesmas fontes que utilizamos na matéria e que a notícia fosse estendida para grandes jornais, como Folha de São Paulo, Uol, G1, Globo... 

A ampla divulgação sobre o assunto foi importante, uma vez que o próprio ministro da Educação, Aloizo Mercadante, declarou que até então não havia recebido relatos de problemas com candidatos transexuais e que iria estudar se era possível mudar o formulário.

Depois da repercussão, sobretudo em cima da vida estudantil e pessoal de Ana Luiza Cunha, hoje com 18 anos, veio outro passo importantíssimo e fundamental para o processo: a organização dos movimentos lgbts, que fizeram reuniões com o MEC e, por fim, conseguiram a mudança do sistema que não contemplava alunos trans. O resultado foi extremamente positivo e, para o ENEM deste ano, pelo menos 68 pessoas trans solicitaram o uso do nome social pelo telefone até o penúltimo dia de inscrição. O nome social também constará no cartão de confirmação de inscrição que os candidatos recebem pelo correio com informações do exame.

Ana Luiza Cunha tentou entrar no curso de Arquitetura em 2013

A presidente do Conselho Municipal LGBT de São Paulo, Janaina Lima, afirma que percebeu que o uso do nome social atraiu mais candidatas e candidatos ao exame neste ano. A assistente social e coordenadora geral do Instituto Aphroditte-Sp, Fernanda de Moraes concorda e afirma que o “fato mínimo de serem identificados pelo nome social e não pelo nome civil, já garante um não constrangimento durante o processo seletivo”. Já Ana Luiza declarou estar surpresa: "Foi um avanço muito grande de um ano para outro"

Neste caso, tenho o orgulho de dizer que a união do jornalismo, da militância e da política contribuiu para a questão trans [e que nós também tivemos um pouquinho de participação nesta conquista, mesmo que as pessoas não reconheçam ou tenham memória curta]. Agora, é testar e ver a aplicação nas provas dos dias 8 e 9 de novembro...

- Entenda o problema do Enem com alunas e alunos trans em 2013.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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