Pride

Ativistas respondem: O que motivaria uma revolta como a de Stonewall no Brasil?



Comemora-se neste sábado, 28, o Dia Internacional do Orgulho LGBT. A data foi inspirada na Rebelião de Stonewall, em Nova York, que se refere a primeira grande manifestação pública contra a homolesbotransfobia. Na ocasião, em 1969, um grupo de pessoas LGBTs estava no bar Stonewall Inn quando sofreram uma batida policial e, pela primeira vez, reagiram. Na época, a homossexualidade era considerada um “distúrbio mental”, as pessoas eram obrigadas a usar roupas de acordo com o genital e muitos sofriam ataques violentos e iam presos.

A revolta nada pacífica durou quatro dias, mostrou resistência e força do grupo LGBT e tornou-se exemplo para o mundo. Incentivou, inclusive, a criação de vários movimentos voltados para a comunidade, tal como a Parada do Orgulho  de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trans. 


Quarenta e cinco anos depois da revolta de Stonewall e, de quebra, 18 anos depois de Paradas do Orgulho LGBT no Brasil, muita coisa mudou. Porém, o preconceito, a violência e a ausência de direitos básicos em que o grupo de homossexuais, lésbicas, bissexuais e trans são submetidos estão longe de cessar. Pensando nisso, o NLucon convocou alguns ativistas e personalidades LGBTs para falar sobre Stonewall, fazer um paralelo com a realidade do Brasil, as manifestações políticas em prol da diversidade e cogitar futuros passos. 

Leia e também dê a sua opinião:


Daniela Andrade, transfeminista: “Creio que a comunidade LGBT atualmente deveria se unir, pois há infelizmente uma total fragmentação das lutas, uma partidarização perniciosa dos movimentos LGBTs, um aparelhamento por parte de pessoas que estão mais preocupadas em angariar verbas, aparecer nas fotos [...] do que efetivamente fazer algo que consolide direitos. Atualmente, precisamos estar o tempo todo ajoelhadas solicitando do mais básico - o direito a um nome e um gênero modificados de acordo com a identidade de gênero - ao mais urgente, políticas públicas em nível federal para inserção e promoção da população trans* no mercado de trabalho.

O próprio grupo LGBT precisa problematizar e debater perenemente novos paradigmas de protagonismos, de visibilização e união em torno de causas que ajudariam a todos nós, como a aprovação de uma lei de identidade de gênero, de uma lei regulamentando o casamento civil para pessoas homossexuais e de uma lei criminalizando as práticas preconceituosas e homicidas em função do preconceito por identidade de gênero e orientação sexual. Creio que a revolta de Stonewall seja um marco na luta também pelo fato de, ali, diversas pessoas compondo as identidades trans* insurgirem-se juntamente com as demais pessoas LGBs para que a sociedade passasse a considerar o debate da discriminação contra essa população”.  



Dimitri Sales, advogado e doutor em direito: “O movimento LGBT enfrenta uma crise porque ainda não conseguiu quebrar as relações de gênero baseadas no machismo. Ainda não tivemos um Stonewall no Brasil. Ainda não nos reconhecemos como força. Ainda somos medíocres em olhar as demandas pelo prisma dos gays e deixar as trans de lado. Ainda forjamos líderes, muitos deles veiculados a interesses partidários. Precisamos refundar as nossas relações no trato cotidiano, parar de instrumentalizar as pessoas e as identidades como forma de se beneficiar politicamente"



Ailton Santos, pesquisador do NEPADI-ISC/UFBA e professor da Universidade Estácio de Sá: “Para mim, o que aconteceu em Stonewall não ficou para trás e continua sendo um marco na luta pelos direitos da comunidade LGBT. Creio que ainda não superamos problemas históricos relacionados à violência em todas as suas expressões, o preconceito, a discriminação e a exclusão social por causa das identidades sexuais e de gênero não-normativas. O movimento LGBT brasileiro precisa resgatar o sentido da palavra comunidade e superar as tensões internas procurando organizar-se para propor ações concretas a esse respeito.

Sinto muito inspirado pela cena acontecida em Stonewall, mas o esquecimento sobre a atuação Sylvia Rivera, por exemplo, me faz pensar no que o movimento LGBT brasileiro perde ao não considerar e respeitar as demandas das trans nas pautas de luta. Hoje, vivemos um cenário onde a repressão, não somente é explícita, mas também é velada e simbólica. Ainda é revoltante saber que gays e lésbicas não podem expressar o seu afeto publicamente sem o fantasma do apedrejamento ou morte E que travestis e transexuais ainda sofrem violências e constrangimentos e de falta de políticas públicas de saúde efetivas para o cuidado com a modificação corporal”



Fernanda Moraes, assistente social e militante: “Ainda não se comemora tanto a Rebelião de Stonewall no Brasil porque ainda não temos leis que de fato amparem amplamente a população LGBT. Temos atualmente o casamento civil, aprovado pelo Supremo Tribunal Federal, mas ainda não temos a criminalização dos crimes motivados por homotransfobia, ainda não temos leis verdadeiramente específicas e que garantam os direitos civis da população de pessoas trans [travestis, mulheres transexuais e homens trans] como poderia ser o caso do PL 5002/13, a lei de identidade de gênero.

O movimento LGBT anda não ganhou essa força e status político porque muitas e muitas militantes ainda concorrem falando apenas em homofobia, igualando LGBT apenas a homossexualidade e por aí vai. Teremos, sim, grandes e preciosos momentos de comemoração quando os demais LGB finalmente respeitarem e acatarem as demandas e identidades das pessoas trans. E quando pararem de se digladiarem entre si e enxergarem nossos verdadeiros inimigos, que são o preconceito e o machismo”.


Deco Ribeiro, diretor da Escola Jovem LGBT: “O que poderia gerar um novo Stonewall com certeza são as questões que envolvem os evangélicos fundamentalistas. Nós temos ganhado visibilidade e, eles, cada vez mais poder. Não é loucura vislumbrar um enfrentamento em breve”.



Letícia Lanz, psicanalista: “Stonewall foi e continua sendo muito importante. As paradas do orgulho gay ao redor do mundo estão aí para confirmar os frutos dessa matriz. Todos sabemos que não foi uma revolta planejada, com objetivos bem direcionados, foi mais uma explosão de raiva acumulada por anos e anos de desrespeito e maus tratos ao público LGBT. Me inspira mais por ter sido comandada por uma pessoa transgênera, Sylvia Rivera. Mas, considerando as pessoas transgêneras, digo que elas estão acomodadas no Brasil.

Sinceramente, não consigo ver uma motivação que, de fato, mobilizasse toda essa população de gênero divergente. Os movimentos sociais representativos dessa população foram convenientemente cooptados pelos governos – o federal à frente – o que esvaziou quase que totalmente o seu poder reivindicatório. As lideranças, qu ainda se mantém firmas nos seus postos, foram igualmente cooptadas, muitas delas ocupando cargos públicos, o que as deixou imunes a quais quer arroubos revolucionários. E a despeito da matança diária de travestis, ninguém mostra um grau de indignação tal que explodisse numa grande revolta pela garantia de direitos”.



Lufe Steffen, cineasta:“É um marco é inegável, abriu margem para muitas lutas, conquistas e militância dos Estados Unidos na década de 70. E, como os Estados Unidos é referência, abriu esta ideia para outros países. O [João Silvério] Trevisan foi para lá na década de 70 e, quando voltou, foi um dos fundadores do Somos, considerado o primeiro grupo de defesa de homossexuais. Então, tudo tem uma relação muito forte com Stonewall. Hoje, devemos brigar por todos os direitos que os héteros tem. Tudo é importante. Mas acho que também vivemos em uma época estranha

Como disse [o jornalista] Vitor Ângelo, no filme A Volta da Pauliceia Desvairada, os gays têm que enfrentar os homofóbicos, os evangélicos e os próprios gays. Ou seja, há muita divergência e a comunidade não é unida. Tem gente que diz que evangélico vota em evangélico, mas que gay não vota em gay. É diferente, porque o evangélico vota em outro porque compactua do mesmo pensamento, mas os gays não são iguais além de serem gays. Cada gay pensa de um jeito e é muito difícil a gente se unir para lutar. Tem gente que diz: “ai, não sei porque esses gays querem casar, eu não quero”. Mas não podemos ser tão egoístas.  Eu, por exemplo, não quero casar, mas quero que a pessoa que queira tenha esse direito”.



Kimberly Luciana Dias, blogueira e voluntária da causa de Travestis e Transexuais: “Primeiramente, em minha opinião, nós deveríamos ter a nossa data e não se inspirar em uma data norte-americana. Tivemos tantas lideranças que fizeram parte da nossa história, que estão esquecidas e dando espaço para essa americanização toda. Minha comemoração vai para elas: Brenda Lee, Claudia Wonder, Andreia de Maio, Condessa, que são pioneiras e que merecem a minha comemoração e reconhecimento. Temos a nossa própria revolução e eu sou contra a padronização americana.

Tenho certeza que as pessoas citadas anteriormente tem muito mais importância em nossa história. Você quer mobilização mais marcante e emocionante que o dia em que invadimos o banheiro do Center 3? [a manifestação foi motivada depois que um grupo de trans foi orientada pelo segurança a deixar o banheiro feminino e usar o masculino]. Tomamos a Avenida Paulista em um só ideal. Com certeza, se continuar esses fundamentalistas na política podemos caminhar para outra ditadura e consequentemente explodir outra mobilização”. 



Leo Barbosa, diretor transexual da ONG ABCDS: “Ao meu ver, o caminho está sendo traçado na forma de informação. Nunca em toda a história LGBT tantos tiveram acesso a tanta informação. Estamos mais politizados e adequando as ideias à nova geração. É preciso que consigamos modificar esse separatismo que há entre os LGBTs. Somos todos demandas diferentes, mas no fundo lutamos pelos mesmos objetivos: igualdade social e de direitos. 

Eu me sinto muito mal quando percebo que estamos lutando contra nós mesmos. Dentro do próprio movimento essa visão de tudo ser apenas gay me assusta. Eu não luto só pelos transexuais porque eu sou transexual. Eu tenho que lutar por todos que estão sendo oprimidos pelo cis-tema, inclusive pelo cis-tema dentro do movimento LGBT. A falta de leis que protejam a população LGBT e de uma lei sobre a identidade de gênero só piora as coisas”. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

3 comentários:

de Avyz disse...

Infelizmente; eu acredito que um fato que geraria uma revolta do vulto de Stonewall aqui no Brasil seria uma morte de algum LGBT em algum evento de grande porte, com visibilidade mundial. Ou um flagrante dessa mesma morte provocada por algum fanático extremista.
E mesmo assim, corre o risco de ser abafado pelo status quo como aconteceu com milhares de anônimos no Brasil; a cada dia...

Ong TraTrans disse...

Parabéns "DANIELAS, FERNANDAS e KIMBERLYS" vcs #merepresentam

luan disse...

As pessoas por ignorancia, comodismo, ou outro motivo qualquer, nao se interessam pelo "mundo lgbt", mulheres transexuais sao vistas como travestis, e estar por sua vez nada mais que objetos sexuais, homens trans* vistos como lesbicas masculinas, o genero ainda é muito confundido com orientaçao sexual. esse movimento poderá trazer a tona esses assuntos que poucas pessoas estao dispostas a se integrar, reforçando e/ou dando "uma ajuda" a outros movimentos em prol do publico lgbt. Sem contar na grande violencia que as mulheres trans* e as travestis sofrem, vitimas de assasinatos e agreçoes todos os dias.

Tecnologia do Blogger.