Pride

Bárbara e Heitor: casal formado por pessoas trans enfrenta 11h de viagem para viver história de amor

Heitor Rezende sobre Bárbara Macedo: "Foi maravilhoso saber que aquela mulher do Facebook era real"

Quem poderia imaginar que uma simples sugestão de amizade feita pela ferramenta do Facebook poderia se tornar em uma nova – e contemporânea – história de amor – com direto a encantadoras fotografias?

Pois foi após visualizar o perfil da universitária de artes visuais Bárbara Macedo, de 20 anos, que o estudante Heitor Rezende, de 18, sentiu-se atraído e a adicionou para a rede social e, de quebra, para a sua vida em dezembro de 2013. Hoje, além de apaixonados e de curtirem o Dia dos Namorados com os corações preenchidos, ambos também compartilham a vivência trans. Sim, tanto Bárbara quanto Heitor são pessoas transexuais.

Mas antes de continuar a história, Bárbara dá um recado aos leitores: “As garotas cis costumam hipersexualizar os homens trans, assim como os garotos cis hipersexualizam as mulheres trans. Essa história de ter ‘curiosidade’ de ficar com pessoas trans é meio falta de respeito como um todo. Eu já conhecia e convivia com outros rapazes com tais vivências, então para mim sempre foi algo natural. E é assim que deve ser”.

No início, apesar de terem extrema sintonia e descobertos gostos semelhantes, a timidez de Heitor atrapalhou o bate-papo. Coube, então, à Bárbara insistir no carioca, que se surpreendeu com os adjetivos da universitária. “Ao contrário do que pensam, não ficamos falando sobre sermos trans. Falávamos sobre o que gostamos de fazer, de música, de desenhos, sobre o curso de artes... Bárbara se mostrava bem intensa e eu gosto disso. Fora a criatividade que ela tem para fotografia. Não teve como não me apaixonar”.  Ela, por sua vez, elogiou o cavalheirismo, o respeito e a honestidade dele. E a cada contato mais envolvidos eles ficavam...

Mas como toda história de amor, há o drama, o desafio e a vontade de superá-los. Havia até então outras pessoas envolvidas – que posteriormente se dissolveram – e, o pior, uma distância de 11h. Detalhe: ele mora no Rio de Janeiro e, ela, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Após três meses de muitas, variadas, looongas e apaixonadas conversas, eles resolveram encurtar a distância, investir e deixar os corações mais próximos. “Consegui o dinheiro que precisava e fui para o Rio de ônibus com a finalidade de ficar um fim de semana na casa dele”, lembra Bárbara. “Tudo o que eu não estava era tranquila”.

"Quando chego, avisto uma menina de saião florido. Soube que era ela"

Coração na boca e estômago revirado

Foi em janeiro de 2014 quando Bárbara embarcou no ônibus rumo ao Rio de Janeiro e enfrentou a difícil viagem de mais de 10 horas. “Estava ansiosa, nervosa, com o coração saindo pela boca. Mas a gente se falou a viagem toda pelo celular, ou seja, a madrugada inteira, e só parava quando perdia o sinal”. Heitor disse que, após passar madrugada em claro, não acreditou quando soube que ela havia finalmente chegado. “Fui até a rodoviária tremendo que só, com o estômago revirado de ansiedade. Quando chego, bem distante de mim, avisto uma menina com um saião florido. Soube que era ela”.

Eles tentaram disfarçar o nervosismo, caminharam com passos trêmulos, sorrisos envergonhados, mas ao se encontrarem deram “o mais gostoso e apertado abraço do mundo”. Heitor garante que jamais irá esquecer. Eles ficaram sentados no banco da rodoviária e, juntos, se olhavam e se acariciavam, como se o tempo parasse e nada mais existisse. “Eu nunca havia sentido uma paz tão grande como senti nesse dia”, afirma Bárbara. “Foi maravilhoso saber que a mulher incrível que eu conheci por meio do Facebook era real”. 

Em dois dias, procuraram fazer de tudo para aproveitar a companhia. Assistiram filmes, escutaram músicas, aprenderam mais sobre o outro e riram bastante. “Ele me tratou muito bem e, dentre outras características que amo, fiquei encantada com o modo de ele fechar os olhinhos quando sorri”. Já Heitor: “Fiquei ainda mais apaixonado com o jeito atencioso dela, a necessidade de me fazer bem, a maneira como expressa o amor por mim, seja em palavras, em atos ou em silêncio. Até mesmo o olhar dela tem poesia”.

E o beijo, e o beijo? “Não demos o primeiro beijo neste contato”, confessa Heitor. “Quis deixar esse momento para quando estivéssemos somente eu e ela, para que pudéssemos apreciar melhor. Chegamos a minha casa e, depois de ela tomar banho, se deitou na cama ao meu lado. Nos olhamos bem próximos um do outro e, neste momento, meu coração já estava na boca. Nossos lábios se encostaram e ficaram assim por um bom tempo [risos]”. Porém...

Após o mágico encontro, eles tiveram que se separar por horas, quilômetros. Sentiram a dor da saudade somada à incerteza do futuro encontro. 



Amor à distância

Bárbara voltou a viagem chorando, mas, antes de partir, disse com sinceridade que seu coração ficaria no Rio de Janeiro. Como um bom romântico, Heitor afirmou que ela levasse o dele para Belo Horizonte. Com os corações trocados, demorou apenas três meses para que eles finalmente assumissem a relação e mudassem o status do Face - o cupido virtual - para "relacionamento sério". “A nossa negociação de namoro à distância é o básico de qualquer relação: respeito, honestidade, lealdade, companheirismo e diálogo, sempre”.

É claro que, como já dizia o poeta inglês John Dryden, "o amor calcula as horas por meses, e os dias por anos, e cada pequena ausência é uma eternidade". Mas eles fazem de tudo para se verem religiosamente uma vez por mês e tanto ele a visita quanto o contrário. Dentre os programas que mais gostam de fazer juntos, é o de ficarem expostos e namorando à natureza, seja no parque, na serra, na praia e tirando belas fotos - as que ilustram esta reportagem. 

As famílias respeitam as decisões individuais de cada um – aliás, há o respeito desde quando ela assumiu ser trans aos 18 anos e, ele, aos 17 anos. “A minha mãe adorou o Heitor antes mesmo de ver ele [risos]. A minha irmã e o meu irmão também o adoram. O meu pai é louco por ele e vive zoando". Bárbara conta que foi surpreendida logo na primeira visita de Heitor. "Meu pai e meus avós fizeram um churrasco para recebê-lo. Pouco depois que ele foi embora, comemoramos o aniversário do meu avô e não é que ele perguntou: 'Cadê o Heitor que não veio para o meu aniversário?' Foi fofo". 

No próximo mês, o casal prepara para encarar mais uma viagem de 11 horas, comemorar pessoalmente O Dia dos Namorados e matar mais um pouco da saudade. Saudade? Evidente que trata-se de um sentimento difícil, mas cuja palavra é exclusiva da língua portuguesa e que só sente quem ama de verdade. Sabemos que esta história ainda está no início, que ainda carrega a doçura dos primeiros encontros e que muita água vai rolar... Mas o mais incrível é que até agora nem precisamos falar sobre preconceitos. Somente de amor. Repararam?  




"Dentre muitas coisas que poderiam acontecer a mim, me aconteceu ela. E esse é o fato pelo qual vivo grato com todas as forças do universo, que trouxeram ela até a minha vida, pois desde então ela tem cor. Me orgulho muito do que somos juntos e sei que vivi até ela chegar com apenas uma metade. Eu a amo muito" - Heitor

"É o amor da minha vida e me faz mais feliz a cada dia. Ele trouxe luz para a minha vida, é a minha inspiração, minha poesia, minha arte. É tudo para mim e eu o amo muito!" - Bárbara

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.