Pride

Conheça Sylvia Rivera, a trans que fez história na Revolta de Stonewall

"Eu não vou perder um minuto disso, é a revolução"

Não é de hoje que pessoas trans reclamam de invisibilização nas várias manifestações LGBTs, Paradas de Orgulho à Diversidade e até de políticas públicas. Se por um lado existe a reclamação de que o movimento contemple somente a sigla G – dos homens gays - por outro existe o apontamento de que o grupo T – das travestis, transexuais ou transgêneros - é comumente pouco engajado. Neste sábado, 28, é preciso desmistificar a falácia, atentar para uma ironia da história e também informar [ou inspirar] muita gente que compõe a sopa de letrinhas. 

Na marcante Rebelião de Stonewall de 1969, que completa 45 anos e que originou o Dia do Orgulho LGBT houve o protagonismo importante [e que a maioria das pessoas da comunidade sequer conhece] de uma pessoa trans: Sylvia Rivera [1951-2002].

Ativista transgênero e bissexual, ela foi uma das pessoas que se revoltaram com a repressão que a comunidade LGBT sofria. Afinal, qualquer expressão que fosse contrária ao sistema “cis-hetero-normativo” era considerada distúrbio mental e, muitas vezes, digna de prisão. Aos 18 anos, Sylvia estava ao lado da drag queen Marsha Johnson e outros frequentadores LGBTs no bar Stonewall In, em Greenwich Village, em Nova York, quando foi surpreendida por uma batida policial. Cansados dos ataques, extorsões, desrespeito e maus tratos, decidiram pela primeira vez - e para a surpresa dos opressores, que encaravam a comunidade como alvo fácil - mostrar a força e a resistência da diversidade sexual e de gênero.

Voaram garrafas, cadeiras, pedras e saiu do peito o estrondoso grito engasgado. Há relatos de que Sylvia tenha jogado o primeiro coquetel molotov nos policiais, de que foi uma das primeiras a encará-los e afastá-los do grupo. Ela esquivava-se da vaidade e dizia que, talvez, tenha jogado o segundo coquetel. O fato é que a inesperada reação e o seu pioneirismo motivaram o espírito dos que permaneciam calados. Com o grupo LGBT unido e finalmente engajado, a revolta durou quatro dias, ganhou os noticiários e mudou a história. “Eu não vou perder um minuto disso, é a revolução”, afirmou durante o embate. 

"Não é o meu orgulho, é o seu orgulho"

Sylvia, por sua vez, se tornou nome e ícone do movimento internacional [apesar de no Brasil quase não ser lembrada]. Recentemente, também entrou na lista da tradicional revista Time como uma das 21 pessoas trans que mais influenciaram a cultura americana. Porém, embora a revolta de Stonewall seja um marco na luta pelos direitos humanos e um exemplo de união entre as siglas numa luta contra o preconceito, é preciso atentar que na época a ação não agradou muitas lésbicas, gays e bissexuais conservadores, que acharam um absurdo a exposição, o ataque e a “falta de respeito à ordem". Pois é, acredite se quiser!

Em um discurso, ela não perdoou os preconceitos internalizados de quem cobrava discrição e moderação. Soltou:“Você só vai a bares por causa do que as drag queens fizeram para você. E agora diz para nós pararmos de ser quem somos?!”. Vale lembrar que estabelecimentos comerciais tinham seus alvarás negados caso tivessem clientes da diversidade – o que facilitava a máfia entre comerciantes e policiais.

No âmbito pessoal, a história da ativista emociona e comove pela superação. Foi abandonada pelo pai antes de nascer e perdeu a mãe, que cometeu suicídio quando ela tinha apenas três anos. Sylvia teve ainda que abandonar a casa da avó aos 11, pois era repreendia por sua latente feminilidade. Conclusão: passou a morar nas ruas, conheceu de perto as pelejas da marginalidade e enfrentou o fato de ser excluída pela sociedade ainda na infância. Por outro lado, foi lá que desenvolveu a vontade de ajudar o outro e mostrar que trans definitivamente "não é bagunça"

Começou no ativismo em meados dos anos 60, com protestos contra a Guerra do Vietnã e nos movimentos feministas. Denunciava a transfobia na sociedade, inclusive, vindo de gays e lésbicas cisgêneros. Dentre os embates, integrou nos anos 70 a Aliança de Ativistas Gays [GAA], mas se desiludiu quando a proposta da lei que protegeria as trans foi excluída do programa de ação. Decidiu, então, ao lado de Marsha criar o pioneiro grupo “Street Transvestite Action Revolutionaries”, que lutava pelo direito de pessoas da comunidade sujeitas à vulnerabilidade social e que enfrentavam a situação de rua.

Em 1992, enfrentou a revoltante e misteriosa morte da amiga Marsha, que foi encontrada boiando no Rio Hudson.

Ela pediu para que o pastor Pat Bumgardner prometesse dar abrigo para LGBTs de rua

Com trajetória repleta de altos e baixos – em que chegou a voltar para as ruas e em que não foi compreendida por outros militantes – Sylvia nunca deixou o ativismo, nem aposentou o espírito revolucionário para acabar com o preconceito em suas várias vertentes. Desbravadora e corajosa, também se aliou a outras causas, como o combate ao racismo, ao machismo e foi coordenadora da Igreja Metropolitana de Nova York. 

Nem mesmo no leito de morte ela se permitiu esquecer da luta. Fez o pastor Pat Bumgardner prometer que a Igreja criaria um lugar onde jovens e crianças LGBTs pudessem passar a noite quando não tivessem mais nenhuma outra opção. Foi criado então o Sylvia’s Place – o lugar de Sylvia – um dormitório em que jovens LGBT encontram um lar, comida e paroquianos voluntários para escutarem as histórias e darem palavras de encorajamento. Poucas horas antes de morrer, vítima de câncer no fígado aos 50, ela também pressionou a classe política para que mudassem a maneira como enxergavam e aceitavam a diversidade sexual.

“Aqui, onde tudo começou, as pessoas trans não têm nada. Não podemos mais permitir que pessoas, como o Empire State Pride Agenda, em Washington, falem por nós. Realmente me dói que algumas pessoas gays não sabem mesmo o que nós demos para o movimento. É o que eu estava dizendo durante esse mês de orgulho: ‘Não é meu orgulho, é o seu orgulho. Você não me deu o meu [orgulho] ainda. Eu não tenho nada do que me orgulhar, exceto que ajudei a libertar gays ao redor do mundo”.

Sylvia deixou o legado de consciência, coragem, doação e ativismo. Em 2005, tornou-se nome de uma rua de Greenwich Village, perto do Stonewall Inn. E, hoje, é uma referência para que o movimento seja visto, pensado, debatido e aliado realmente como l – g – b- T. Tudo junto, misturado, sem hierarquias e com visibilidade democrática. Pense nisso e comemore o Dia do Orgulho BTLG!

Assista a um discurso de Sylvia Rivera:

"Ajudei a libertar gays ao redor do mundo"

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.