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'Genital não define ninguém', diz transhomem Léo Barbosa em Mostra de Curtas Tabus; confira

Léo Barbosa, diretor da Ong ABCDS

Com o intuito de debater e iluminar temas tabus para a sociedade, alunos do curso de Publicidade e Propaganda da universidade Anhanguera, campus Brigadeiro, em São Paulo, promoveram nessa terça-feira, 3, a II Mostra de Curtas Anhanguera, com algumas palestras informativas após a exibição dos vídeos. A mostra foi apresentada pelo estudante Renato Bizarro, contou com 150 pessoas presentes e os temas tabus escolhidos para a edição foram “transexualidade” e a “maconha medicinal”.


O encontro iniciou às 20h com a exibição do curta “Ilegal”, que fala sobre o drama da brasileira Katiele, que luta para tratar a epilepsia da filha de cinco anos com CBD, substância que é derivada da maconha e, portanto, proibida no país: “O desespero de você ver a minha filha convulsionando a todos os momentos foi tão grande que a gente decidiu encarar e trazer essa substância da forma que fosse necessária, mesmo que fosse traficando. É essa a palavra, tráfico”.

Além da presença do diretor Tarso Araújo – que falou sobre o projeto Repense sobre o uso da maconha medicinal [clique aqui para apoiar] - o revento recebeu o biólogo Douglas Senna, que desmistificou as falácias sobre os efeitos, Maria Antônia, que tratou um câncer e a fibromialgia com o auxílio da maconha. “Usada junto com o tratamento médico, ela reduziu os enjoos, aliviou as dores, aumentou o apetite, melhorou o humor e deixou o sono reparador. Mas para fazer o uso, eu ainda tenho que ir à biqueira”, contou.

Logo após, foi exibido o trailer do documentário “De Gravata e Unha Vermelha”, de Miriam Chnaidermann, e o curta Amapô, de Kiko Goifman, que fala sobre mulher transexual Sandra a partir de depoimento de amigos. Sandra foi brutalmente assassinada no Rio de Janeiro por crime de transfobia. Léo Barbosa, diretor transexual da Ong ABCDS, a orientadora socioeducativa Brunna Valin, e o jornalista Neto Lucon – da página NLucon - discursaram sobre o grupo trans.

Douglas Senna, Maria Antônia e Tarso Araújo
Léo Barbosa, Brunna Valin, Renato Bizarro e Neto Lucon
"O que as pessoas devem entender é que somos como qualquer outra pessoa" [Foto: Kau Cunha]

Léo foi o primeiro a subir ao palco, contar a sua experiência e explicar as diferenças entre pessoa cisgênera e pessoa trans, orientação sexual e identidade de gênero. “Sou um homem transexual e, sim, eu tenho uma vagina. Mas a vagina não define quem eu sou”, disse. “Não chegamos para nos apresentar a uma pessoa e abrimos a calça, não mostramos a nossa genitália e dissemos: e aí, tudo bem? Não, ninguém se apaixona por genitália, pessoas se apaixonam por pessoas”, continuou ele, sendo aplaudido pelos estudantes. Curiosamente, ele também contou que a barba cresceu sem o uso de hormônios. 

Brunna Valin, que atualmente trabalha no CRD [Centro de Referência da Diversidade], também falou sobre a sua vida e sensibilizou os presentes. Ela revelou detalhes de sua infância, adolescência, preconceito familiar, prostituição, sonhos, violência e volta por cima: “Eu sonhava em ser psicóloga, mas a sociedade me jogou à margem. Fui profissional do sexo durante 22 anos da minha vida. Hoje, sei que sou igual a qualquer outra pessoa aqui dentro”.

Neto questionou os estudantes de Publicidade e Propaganda: quantas pessoas trans são vistas em comerciais ou tendo uma visibilidade positiva na mídia? “Além dessa invisibilidade, quando decidem incluir trans em propagandas, programas ou filmes, geralmente abordam o lado humorístico, da chacota, do sensacionalismo, dizendo que não é original, que é fake. Mas daí não vale, esse discurso só reforça o preconceito e a transfobia. Então, é importante que tenhamos essa reflexão e responsabilidade sobre aquilo que reproduzimos em nossa vida e em nossa profissão”.

Ao fim do evento, foi sorteado mini pizzas para os presentes e foi cortado um bolo para Léo, que comemorou aniversário de 44 anos. "É muito importante que essa discussão saia do gueto e tome outros espaços", concluiu Brunna.

Assista aos curtas da noite:


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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