Fora da Caixa

Fora da Caixa: Homens trans não são lésbicas masculinizadas


Por: Luiz Fernando Uchôa
Edição: NLucon

Uma das confusões mais frequentes dentro do universo dos homens transexuais é o de eles serem apontados como lésbicas masculinizadas. Embora nenhuma categoria seja superior, inferior ou ofensiva e que as definições estejam em constantes transformações, é necessário e importante esclarecer algumas diferenças nestas vivências para que evitemos constrangimentos e saibamos mais sobre as categorias e possibilidades. A começar pela básica, mulheres lésbicas masculinizadas são mulheres. Enquanto homens transexuais são... Homens.


Uma lésbica – que se trata da orientação sexual de uma mulher que se sente atraída por outra – pode até gostar de se vestir com roupas que culturalmente são atribuídas ao universo masculino ou até mesmo nutrir algumas atitudes e características deste universo. Mas, apesar do figurino e do comportamento, elas não querem deixar de ser mulheres, de serem vistas como mulheres e nem se sentem homens. Como eu disse, são elAs.

Durante algum tempo, alguns homens transexuais – que se trata da identidade de gênero de uma pessoa - podem até viver acreditando serem lésbicas, mas isso se dá porque muitos desconhecem o que é a transexualidade e, até então, essa é a caixa mais frequente que são colocados. Quando descobrem que são homens trans, e isso pode demorar décadas, passam a reivindicar a verdadeira identidade, a se hormonizar e a se submeterem por procedimentos cirúrgicos com a finalidade de ter uma aparência masculina. Ou seja, são elEs.

Por sua vez, essa identidade não interfere na luta por uma orientação sexual: homens trans podem gostar de mulheres [e serem héteros] ou de homens [e serem gays].

Ser transexual é um sentimento de não se sentir bem com o corpo em que se nasce ou que se tem, numa sociedade que sempre atribui o genital ao gênero. Esse desconforto pode ser evidente na infância, na adolescência e na vida adulta e os conflitos muitas vezes não nos fazem sentir bem em nenhum lugar e em nenhuma caixa. Muitos tentam suicídio por não suportar as pressões. Eu mesmo, por pura ignorância acerca do termo transexualidade, sempre achei que só poderia ser homem em outra vida.

COMO ME ENTENDI HOMEM TRANSEXUAL

Descobri a minha transexualidade de forma inesperada. Sempre tive curiosidade de entender o funcionamento de quiosques de DSTs [Doenças Sexualmente Transmissíveis] que ficavam na Praça da República durante a Parada LGBT de São Paulo. Em 2012, fiz o teste de aids e tive a oportunidade de conversar com a psicóloga com a finalidade de sanar algumas dúvidas sobre a minha identidade. Nesta época, todos me viam como uma lésbica masculinizada.

Quando o resultado saiu, me encaminharam para a psicóloga e, após saber do resultado negativo, comecei a falar para ela que sempre me senti homem e que, apesar de nascer com um genital atribuído feminino, nunca me identifiquei com o papel de mulher. Expressei a ela toda a minha dor de viver em um gênero que não me agradava e de ter traços femininos. Disse que sentia prazer total quando tinha mulheres em meus braços, mas que também não me via como uma mulher que gostava de mulheres.

Luiz Uchoa e o ator Leo Moreira Sá, que leva o tema transexualidade para a mídia

Essa psicóloga disse que eu deveria pesquisar o que seria FTM [Female To Male] e disse que talvez eu fosse um desses casos. Relutei muito em aceitar a minha condição de homem trans. Mas comecei a pesquisar na internet sobre transexualidade e percebi que, sim, eu era um homem transexual. Fiz alguns amigos transexuais pelo Facebook, fui ao CRT [Centro de Referência e Treinamento], próximo do metrô Santa Cruz e, em agosto de 2013, realizei a triagem para realizar o tratamento. Fiz consultas com endocrinologista, psicólogo, ginecologista, fonoaudiólogo...

Em sete de janeiro, realizei a primeira aplicação de testosterona e atualmente estou na quarta aplicação. Mudanças aconteceram em meu corpo e espero que muitas outras aconteçam. Estou bem no começo de tudo e ainda tenho muito que fazer nesta jornada rumo a minha verdadeira identidade. Sei da importância da visibilidade para que outros homens trans saiam da caixa e espero que cada vez mais nós apareçamos na mídia para dizer o que somos, quem somos, ter visibilidade e desmistificar a imagem que muitas mídias sensacionalistas fazem.

Para quem quiser conhecer sobre a trajetória de homens trans, aconselho que leiam Viagem Solitária, de João Nery, o primeiro transexual brasileiro. E entender que não é moda tomar hormônios e realizar procedimentos cirúrgicos. É uma questão de encontrar uma maneira de ser quem é num mundo tão cheio de caixas.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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