Pitacos

O que tem por trás da histórica capa da Time com a atriz transexual Laverne Cox

Laverne Cox alia visibilidade do trabalho de sucesso com o engajamento na luta contra o preconceito

Muita gente ainda não conhece, nunca ouviu falar e nunca compartilhou nada sobre Laverne Cox, a atriz norte-americana que foi destaque da série Orange is the New Black, produzida e exibida pela Netflix. Mas nessa quinta-feira, 29, o nome da artista foi citado a revelia por um feito histórico: ser capa da tradicional revista Time. A surpresa dá-se porque Laverne, assim como a sua personagem, é uma mulher transexual. E o tema “O Ponto de Virada da Questão Trans” é anunciado como o próximo debate sócio-político a marcar a agenda americana, depois da questão racial nos anos 50 e da orientação sexual nas últimas décadas.
Amy Adams entrou na lista com 54,3% de rejeição.

Primeiro, é preciso informar que a Time lamentavelmente cometeu uma falha na edição passada ao ignorar e deixar de fora Laverne na tradicional lista das “100 Pessoas mais influentes de 2014”, apesar de ela ter ficado em quinto lugar na votação online e de ter recebido mais de 91,5% de aprovação do público [veja ao lado]. Depois, é necessário refletir sobre como a atriz trabalha a própria visibilidade e conquistou a admiração dos espectadores - pois é, mais de 90% - a ponto de gerar uma onda de protestos e motivar a Time a dar uma CAPA como um autêntico e histórico pedido de desculpas. Aceitas, claro.

Mas por qual motivo Laverne se tornou referência, já que não é a primeira vez que pessoas trans ganham a mídia internacional? 

Ao contrário de tantas figuras que bombam por aí e que investem no discurso chapa-branca, de preconceito internalizado, de ignorância ou de pura vaidade e competição, Laverne é exemplo por aliar talento dentro de um projeto de sucesso, ter orgulho de ser quem é e, sobretudo, nutrir coragem para se engajar em uma causa social malvista [e não ignorá-la como a maioria]. É evidente que nenhuma pessoa é obrigada a levantar bandeiras – ninguém é obrigado a nada – mas também é óbvio que já passou da hora de termos uma celebridade à lá Angelina Jolie dentro do universo trans. E não estamos falando de lábios carnudos. 

Uma artista engajada, corajosa, talentosa, bem humorada, influente, com fôlego e consciente de que faz parte de um grupo historicamente marginalizado e que, por esse motivo, necessita investir em um discurso afiado, inédito, desafiador e transformador. Desde que seu nome começou a se tornar conhecido, Laverne passou a utilizar de sua visibilidade para mudar um pouco a maneira como a mídia e como as pessoas cis entendem as pessoas trans. Ela transcendeu o debate e não se sujeitou a ele. E o melhor: para melhor.

TALENTO ALIADO À CONSCIÊNCIA

É importante frisar que a artista ganhou visibilidade pelo talento e não tão somente por sua vida pessoal. Graduada em Belas Artes pela Alabama School, ela participou do primeiro filme, Cinnamon, em 2011, e acumula seis trabalhos até o momento. Já na pele de Sophia Burse, em “Orange”, de Jenji Kohan, ela dá vida a uma cabeleireira que foi presa após fraudar cartões de crédito para realizar a cirurgia de redesignação sexual [a mudança de sexo]. Desenvolveu uma personagem cheia de nuances, personalidade e comoventes dramas – como a delicada relação com o filho, a mulher e a proibição de tomar hormônios dentro do presídio. 

Dirigida pela renomada atriz Jodie Foster, foi além do rótulo “personagem trans” e não ficou devendo absolutamente nada para nenhuma outra atriz cis da série, nem à protagonista Taylor Schilling, que interpreta Piper Chapman [assista abaixo]. Outra curiosidade é que, nas cenas em que a personagem não fez a transição, é o seu irmão gêmeo, o músico M Lamar, que interpreta e faz a dobradinha com Laverne. "Nós temos um vínculo muito forte e um respeito pelo outro. Fiquei grata por dividir com ele esse momento na série".

Depois da repercussão, começou a ser requisitada para entrevistas e teve a sensibilidade e inteligência de entender que, ao falar sobre si mesma na mídia, também falaria por um grupo historicamente discriminado. Era preciso, então, livrar-se do senso comum, da fútil vaidade, do discurso higienizador, da vergonha de não estar em uma categoria mais aceita, da transfobia e do racismo internalizados – sim, porque a sociedade em geral é transfóbica e racista, logo todos são afetados e reproduzem preconceito, mesmo que inconscientemente. Inclusive travestis, transexuais e negros. [LEIA MAIS: "Admitir os próprios preconceitos é admitir que somos humanos, diz transfeminista Daniela Andrade].


Em uma conferência por telefone à imprensa em 2013, Laverne admitiu que precisou se livrar dos preconceitos internalizados para falar sobre o assunto: “Comecei a trabalhar com um terapeuta e ele é brilhante. Trabalhei muito as minhas questões internas, venci a transfobia internalizada, o meu racismo internalizado e também a vergonha. Eu gosto mais de mim agora”. Foi aí que ocorreu a importante virada, a promoção da visibilidade com consciência e o resgate ao direitos civis.

O DISCURSO DA VIRADA

Durante a entrevista a Katie Couric, a atriz e a modelo Carmen Carrera deixaram os telespectadores de boca aberta ao se negarem responder se haviam realizado a cirurgia de redesignação sexual – um patrulhamento frequente e nada inocente da mídia mundial. “Sinto que há uma preocupação com isso [genitália]. Essa preocupação faz com que pessoas trans sejam tratadas como objetos e com que as demais pessoas não encarem a vida que levamos. A verdade é que a taxa de desemprego e de homicídio que sofremos é desproporcional à média. E se você for trans e negra esse número é quatro vezes mais. Enquanto focarmos em partes do corpo, as pessoas vão ignorar esta realidade e não vamos falar realmente sobre o que é importante”, defendeu Laverne.

O discurso faz lembrar a breve tentativa do ícone brasileiro Roberta Close em estabelecer respeito em 1996, durante o Domingão do Faustão, da TV Globo. Depois de ser perguntada se “o prazer sexual mudou depois desse tipo de operação”, Roberta disse: “Só se você provar... Isso é um segredo, isso só diz respeito a mim e ao meu marido. Sexual não [quero falar]”. Mas o apresentador não teve a sensibilidade de entender o que Roberta disse, a modelo não teve o molejo do discurso e o que ficou foi um momento constrangedor, com Faustão finalizando “Um risco quer dizer Francisco”. A
o contrário da resposta de Laverne, que foi o gatilho para que muita gente a aplaudisse e começasse a se questionar sobre a ignorante abordagem ao grupo.

Afinal, quantas vezes assistimos [e aplaudimos] entrevistas com trans pautadas nas cirurgias plásticas, como se a identidade só representasse esse tipo de luta? Quantas vezes essas pessoas trans são perguntadas se irão se submeter à redesignação sexual ou como ficou o resultado, como se fosse comum perguntarmos detalhes sobre o genital alheio? Ou então se há a continuidade do orgasmo, como se todas as pessoas trans estivessem sempre dispostas para falar sobre sexo? Quantas definem travesti como profissão, referindo-se à prostituição. Quantas mídias se propõem a falar sobre o “inusitado e bizarro caso amoroso” de um homem com uma travesti, que normalmente termina em acusações? Quantas vezes vemos pessoas trans sendo ridicularizadas em matérias policias, sendo que nunca vemos uma em reportagens rotineiras sobre o aumento do tomate? 

Por fim, quantas vezes pegamos pessoas dizendo que uma trans “engana muito bem” e que “até parece uma mulher de verdade”, como se esse comentário ofensivo fosse elogio?


A LUTA CONTINUA

Laverne segue com o discurso em prol dos direitos lgbts sempre que perguntada em entrevistas. Mas nem sempre os louros são colhidos. Uma prova de que não estamos acostumados a ver trans em destaque é que, além de sua ausência na lista dos influentes da Time, a própria revista gay Advocate, que lista anualmente os LGBT mais poderosos do mundo, não colocou Laverne entre os oficiais. A atriz foi inclusa como uma das “apostas”, ao lado das trans Carmen Carrera e Janet Monk [Confira o ranking aqui]. Como se pessoas trans fossem café com leite, não valessem pra valer.

Durante a homenagem que recebeu pelo GLAAD, em abril, ela declarou: “Sou uma mulher transexual e afro-americana de uma classe operária criada por uma mãe solteira. Nós não estamos habituadas a receber esse tipo de prêmio, mas quero que acreditar que as coisas vão mudar”, declarou ela que, profissionalmente, também está feliz. Ela vai estrelar a segunda temporada de Orange is The New Black, que estreia nesta sexta-feira, 6, no NetFlix. 
Hoje, artistas trans internacionais, como o ícone nova-iorquino Amanda Lepore, ficam longe da competição de egos, compartilham e torcem para o sucesso de Laverne. 

Na Time, não deixou a vaidade tomar conta, falou sobre as vivências e também motivou outras entrevistas de pessoas trans. Disse: “Não existe apenas uma história, uma experiência, de como uma pessoa trans nasce. O que as pessoas devem entender é que nem todo mundo que nasce com uma genitália sente que sua identidade de gênero está alinhada àquela genitália. Se alguém precisa expressar o seu gênero de uma maneira diferente, está tudo bem; e a esse alguém não deveria ser negado assistência médica, assim como não deveria ser vítima de bullying. Eles não merecem ser vítimas de violência…E é isso que as pessoas devem entender, que está tudo bem”.



Já passou da hora de termos uma artista à lá Angelina Jolie?
E NO BRASIL?

Embora a maioria das personalidades trans brasileiras não demonstra se preocupar realmente com a causa e a mídia não dê o real merecimento, é preciso destacar artistas que, como Claudia Wonder [1955-2011], são importantes nas artes e no processo democrático brasileiro: Maite Schneider, por exemplo, há décadas alia a arte e a militância, bem como Léo Moreira Sá, Laysa Machado, Leonarda Gluck... [LEIA MAIS: 'Tenho paúra de ver atores homens interpretando indivíduos trans na tevê', diz Leonarda]


Porém, por aqui, o cenário aparenta ser mais delicado. "É curioso esse cenário no Brasil porque a militância não é vista com bons olhos. [...]A Angelina Jolie, por exemplo, é reverenciada pelo trabalho de militante, mas aqui ela seria vista como barraqueira. Para mim, essa dificuldade é pior, porque tenho uma vida pública e militante. As pessoas acham que estarei com a Constituição embaixo do braço.”, declarou Maite em recente entrevista ao NLucon.

Que o exemplo, discurso e orgulho de Laverne inspirem a imprensa, os leitores e as artistas... Até porque a estratégia de se esconder ou não falar sobre o assunto não é garantia de sucesso, nem de trabalho, nem de importantes mudanças sociais. Só é garantia da histórica perpetuação do preconceito e da falta de oportunidades e visibilidade. Passamos por um PROCESSO histórico. Será que é sonhar muito alto ver Nany People finalmente apresentando um programa de tevê? Que Rogéria tenha muito mais que participações especiais em novelas? Que uma atriz que é trans seja protagonista ou estrele um comercial de pasta de dente? 

Que... 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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