Entrevista

‘Ser trans faz diferença em meu relacionamento’, diz Mayra Viamonte

"Fui dar um beijo na trave, mas ela segurou o meu rosto e me deu um beijo de língua"

Conhecida por criar e desenvolver o conteúdo da página Trans+Parência, a tradutora de documentos de patente Mayra Viamonte Dutra, de 26 anos, está noiva da pesquisadora de microbiologia e virologia Gabriella Mendes, mulher cis de 30. Embora a união provoque surpresa nos desavisados – que ainda não sabem que orientação sexual nada tem a ver com identidade de gênero e que uma mulher trans pode se relacionar com outras mulheres – Mayra quebra mais uma vez regras pré-estabelecidas ao não se definir como lésbica. “Sou trans, sou uma pessoa não-binária e não acho que exista um termo específico dentro desta gramática binária para definir a minha orientação sexual ou o nosso relacionamento”.

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Dona de inconfundíveis e autênticos cabelos cor-de-rosa, a tradutora conta ao NLucon que namora há um ano, que está noiva há seis meses e que o primeiro contato ocorreu virtualmente. Ela recebeu um e-mail de Gabriella parabenizando-a pela  coragem de ter assustado um ladrão durante um assalto. No caso, Mayra relatou em sua página que havia engrossado a voz e deixado o bandido aflito. “Eu achei sensacional ela ser capaz de fazer isso. Pensei: nossa, que pessoa livre, que coisa foda. E enviei um e-mail para elogiá-la, sem qualquer tipo de segunda intenção”, diz Gabriela. “Até porque não sou t-lover e me relacionava até então basicamente com homens”. 

Nas primeiras conversas, Mayra respondia quase sem grande interesse, pois recebia diversas conversas e elogios similares. Após várias trocas de mensagens, elas chegaram a sair para beber, mas houve um hiato. Gabriella só retomou o contato quando a pretendente pintou o cabelo de rosa inspirada na heroína Poison, dos jogos eletrônicos. Elas combinaram de se encontrar em um shopping e, desta vez... “Na despedida, quando fui dar um beijinho na trave, ela segurou o meu rosto e me deu um beijo de língua”, entrega Mayra. “Confesso que flertei com ela o tempo todo. Fiz questão de me posicionar logo atrás enquanto olhávamos uma vitrine, semeei duplos sentidos na conversa e respirei em seu pescoço quando tive chance. Sou boa nisso”.  

Os flertes precisos de Mayra conquistaram Gabriella. E a ousadia de Gabriella chamou a atenção da tradutora.

Mayra: "A minha família está acostumava a me ver com meninas"

Foi o pontapé para que elas começassem a ter uma linda história de amor e cumplicidade. “Aquela pequena demonstração já me deixou ciente da forma como ela se comportava quando desejava algo. No entanto, foi a forma como ela se abriu aos meus carinhos, à minha necessidade de estar sempre junto, à nossa conchinha na hora de dormir, aos recadinhos apaixonados no espelho do banheiro e a tantas outras demonstrações minhas de afeto e a forma como ela foi sendo recíproca a isso, que me conquistou de verdade”, diz Mayra.

Não existe o homem e a mulher da relação

Para a tradutora, o fato de ser uma pessoa trans tem relevância, sim, em seu relacionamento com Gabriella. Sempre de forma bastante positiva, frisa. “Tenho características – físicas e psicológicas – dos dois gêneros, todas as quais ela gosta. Dela, tenho aceitação dos meus dois lados de forma completa e singela, algo que agora sei realmente precisar”.

No início, ela admite que sentiu a insegurança bater, sobretudo na intimidade, afinal Gabriella ainda não havia se relacionado sexualmente com uma pessoa trans. “Aliás, ela nunca teve relacionamento sério com alguém que não fosse um homem cis. Mas isso se dissipou sem demora”, minimiza, apontando outros empecilhos. “Andando na rua, os homens enchem o saco com seus olhares e besteiras, por isso preferimos sempre sair de carro. A minha família está acostumava a me ver com meninas e provavelmente teria maior dificuldade em aceitar se eu estivesse com um homem” 
– ela já havia namorado outra garota por cinco meses e outra por sete anos.

Gabriella, por sua vez, afirma que também considera diferente namorar uma pessoa trans. “É diferente, tanto no sentido físico da coisa quanto no psicológico do relacionamento. Acho que a parte física é bem óbvia e não preciso explicar. Mas no sentido psicológico é que não existe o homem e a mulher da relação. Os papéis mudam o tempo todo. Em muitas coisas que eu passo como mulher cis, ela – mulher trans - me entende. Sabe na pele como é. E, no meu caso, sinto liberdade, capacidade de confiar nela infinitamente maior que já tive com qualquer homem que namorei”.

"Andamos na rua e os homens enchem o saco. Preferimos sair sempre de carro"

Ela afirma que o pai, sobrinho e primos adoram Mayra. “Meu pai só tem a preocupação quanto ao meu trabalho, devido ao mundo hipócrita em que vivemos. Minha mãe, que no início não aceitava, viu que não se trata de nenhuma modinha e que princesa veio para ficar de verdade. Então, agora, ela está tentando mais...”.

O futuro

Pelos planos do casal de garotas, elas vão morar juntas até o fim de 2014 e podem se casar antes da data. Ao comentarem se pretendem aumentar a família, Mayra diz: “Também queremos ter filhos, sim. Inclusive tenho banco de sêmen, caso fique infértil por causa do tratamento hormonal. Não vai demorar muito. Na verdade, só queremos ter nossas profissões consolidadas e onde vamos morar antes disso, Ela é extremamente companheira, carinhosa, linda, me ajuda, ouve e me apoia em tudo que faço. ”.

Gabriella retribui com o mesmo amor: “Parece que encontrei nela todos os pequenos pedacinhos que faltavam em mim, com algumas regiões em comum para saber onde encaixar cada peça”. Já sobre o incrível e transgressor cabelo de Mayra, que curiosamente marca o retorno do contato das duas, ela comenta: “Eu amo!!! Acho que é uma grande parte da personalidade dela”. Alguém ainda duvida que o rosa é a cor muito mais quente?

Parece que encontrei nela todos os pequenos pedacinhos que faltavam em mim, com algumas regiões em comum para saber onde encaixar cada peça - Gabriella
Foi a forma como ela se abriu aos meus carinhos, à minha necessidade de estar sempre junto, à nossa conchinha na hora de dormir, aos recadinhos apaixonados no espelho do banheiro e a tantas outras demonstrações minhas de afeto e a forma como ela foi sendo recíproca a isso, que me conquistou de verdade - Mayra

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

4 comentários:

Fernanda Reis. disse...

Lindas *-*

Anônimo disse...

Que história linda!

Juliana Fernandes disse...

Espetacular! Afinal de contas amor de verdade é incondicional! Desejo muitas felicidades ao casal!

Thiago da Mata disse...

Isso é bonito de se ler. E que o amor vença o preconceito. (:
Afinal, oque importa é a felicidade do casal e não oque os outros pensam.

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