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'Sabores e dissabores do poliamor' é tema do livro ‘Urânios’, de Roberto Muniz Dias

Livro aborda a relação de quem se envolveu em um relacionamento de três pessoas

Numa sociedade em que se prevalece a valorização da monogamia ou do amor romântico, falar sobre a vivência do poliamor ou dos relacionamentos abertos ainda causa espanto - até mesmo nas mais modernas uniões LGBT. Mas é de maneira humana, profunda e livre de preconceitos ou clichês que o escritor e mestre em literatura Roberto Muniz Dias abre a discussão e traz à tona o assunto em seu quarto livro, “Urânios” [Metanoia], que aborda os sabores e dissabores da relação de um casal formado por três homens. E que supre a lacuna de obras brasileiras sobre o tema.


O livro, não linear e com escrita em primeira pessoa, aborda as memórias e divagações de quem se tornou o terceiro travesseiro de um casal, que foi catapultado para uma relação pré-formatada e para uma rotina sui generis: com três escovas de dente, duas xícaras e duas camas. Alguém que sentiu as delícias de ser desejado ou amado por dois e, dentre outras experiências, positivas e negativas, enfrentou a possibilidade em dobro da rejeição.

Num trecho: “Eu não sabia dizer quem amava mais quem. Isso de amor era bastante subjetivo. [...] A intensidade estava nas palavras, na permanência, na rotina, no olhar, na prateleira, na cama cheia ou por fazer. [...] Alguém falou que poderia sentir através do olhar quem amava mais; quem suportava um fardo maior; quem apostava todas as cartas. Mas não foi nenhum de nós três”. Noutro: "Fiquei impregnado pelos cheiros, pelos abraços e pelos beijos que me cobriam o corpo. Por anos, preferi manter uma espécia de escolha irresponsável [...] Não sabia se eles me olhavam com olhos abertos, ou me sentiam pela tentativa do encaixe espontâneo". 

Embora seja possível saber a ruptura do romance logo no início – e por ela ser possível constatar que não se trata de um livro óbvio - a escrita envolvente e rica do autor nos leva até a última linha com a finalidade entender as verdadeiras motivações, as descobertas, as construções e desconstruções do relacionamento.

Como resultado da experiência, permanece a sombra do quadro de um galo colorido, também chamado como o “quadro da discórdia” – a capa do livro – pintado pelo novo integrante a pedido de um dos amados. Atua como a ligação psicológica mais sensível e um personagem perturbador entre o presente e o passado, entre a soma e a divisão, entre a união e o término, entre a vida e morte. Ao fim, uma surpresa arrebatadora que pode mudar os caminhos da história e reafirmar as antigas reflexões. Afinal, Urânios fala sobre amores possíveis e que – assim como a homossexualidade já foi tabu – começam a ousar dizer o nome.


[Obs: A orelha do livro é assinada pelo escritor Sérgio Viula. Já a contracapa conta com texto assinado pelo jornalista Neto Lucon]. 

Outros trechos:

“Tudo tem um começo. Pelo menos para as histórias, sejam em quaisquer das articulações com as verdades de cada um. O princípio pode ser por uma mentira. Se ela for bem contada, pode parecer História. E para ser História bastam dois ingredientes: uma presunção de verdade e um idiota para creditá-la valor. Eu fui o idiota. E tem sido assim por muito tempo. Muitas histórias contadas e muitos idiotas que a vivem.

Vivi essa história com intensidade. Todos já eram adultos. Não vai ser necessário o passado para entender o presente e o futuro das coisas acontecidas. Elas por si só se encaminharam nesses anos de convívio. Personagens, pano de fundo, um enredo e uma duração no tempo. Estava pronta a história. No entanto, ela tem um princípio; ela foi me dada sem muitas limitações. Fui testemunha do tempo deles; da velocidade na qual tudo se passou. Às vezes podia ser tão natural; às vezes parecia tão impreciso quanto o destino poderia se revelar. Eis a minha verdade:”


Sobre o autor

Roberto Muniz Dias é romancista, contista, poeta, artista plástico e mestre em Literatura pela UnB (Universidade de Brasília). Também formado em Letras e Direito, integra a Comissão de Tolerância e Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil. Publicou ainda “Um Buquê Improvisado”, “O Príncipe – O Mocinho ou o Herói podem ser Gays” e "Errorragia: contos, crônicas e inseguranças".

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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