Entrevista

Após usar biquíni, Yuri Tripodi diz: 'Temos que inventar outros modos de existir'

Yuri diz que manifestações de rua precisam imprimir outro caráter e pensar na estética do discurso

Por Neto Lucon
Fotos do Bikini Quadradão: Mariachiara Mondini

Estimulado pelo artista Flávio de Carvalho [1899-1973], pelo personagem Borat e pela cantora Inês Brasil, o artista Yuri Tripodi, de 23 anos, resolveu tomar sol em Porto da Barra, Salvador, de uma maneira "diferente". Criou e vestiu um colorido e ousado... Biquíni! Chamou atenção dos banhistas, provocou alvoroço e promoveu importantes reflexões sobre vestimentas, gênero e preconceitos. Afinal "o que quer ou o que pensa um homem barbudo que veste uma roupa de banho atribuída ao universo feminino. Como permite-se tanto desbunde ao usar um fio-dental?".

Por meio da [já] icônica peça - que se trata da intervenção artística ou de um 'objeto para vestir' intitulado por ele como Bikini Quadradão - Yuri provou que pode e, mais que isso, que todos deveriam usar o que bem entendessem e quando bem entendessem. As críticas apareceram com resquícios de fundamentalismo. Mas, de mogo geral, a ousadia foi uma febre positiva, rendeu inúmeros compartilhamentos e tornou-se um dos símbolos contemporâneos de liberdade.

Apesar do sucesso da intervenção, não é a primeira vez que o artista se arrisca na quebra de símbolos fixados na sociedade conservadora e no rompimento das questões de gênero. Já fez, por exemplo, uma curiosa intervenção de barba e bigode com travestis inseridas na prostituição [que você saberá logo abaixo]. E, em conversa com o NLucon, não se diz homem, mulher ou trans. Afirma ser alguém atravessado pela vid'arte.

Atualmente, o artista soteropolitano passa os dias e noites em São Paulo e pretende ficar. Está aberto a propostas de trabalho e cogita tirar da gaveta - ou do armário - uma nova vestimenta. Foi em um tarde de ventos frios que ele encontrou o NLucon na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, e falou com exclusividade sobre arte, sociedade e mudanças. Leia:

Você surpreendeu muita gente, recebeu aplausos e críticas porque foi de biquíni fio dental na praia. Qual era o seu objetivo com o Bikini Quadradão?

O bikini foi projetado como um objeto para vestir, uma situação; como uma experiência de despojamento de preconceitos, de experimentação corporal. A peça surge como uma ressignificação dos sentidos das expressões "pensamento quadrado" - "enquadrado", "conservador" - e de retidão - moral, ede valores - por meio da geometria, das formas do quadrado e linhas retas. Mas também como uma estrutura provocativa que permite uma abertura para sentidos diversos. É nítido que quem toma contato com o bikini na praia não vai pensar sobre nada disso, mas é uma proposição para mim, que encaro como compromisso para a vida, de dar e inventar outros sentidos para as coisas.
.

- As suas referências foram o artista modernista Flávio de Carvalho, que em 1956 idealizou o New Look e saiu com saiote com pregas, blusa de nylon com mangas folgadas, o Borat, personagem que usou o mankini em um filme e a quase-ex-BBB Inês Brasil. Me explica por qual motivo a Inês?

Bom, não costumo dizer que foram referências, mas estímulos. O Flávio que, como você disse, desfilou de modo inovador e ousado no meio de tanta gente engravatada. O Borat pela própria roupa, que tem esse desbunde experimental, de ser enfiado e estrutura única. E a Inês, bem, por favor, o que é a Inês Brasil? Uma figura viva e maravilhosa, que está dentro da mídia e ao mesmo tempo é insana, totalmente fora dos padrões corporais q a mídia televisiva reproduz. Uma produção pulsante de si mesma, uma mulher siliconada, exagerada, que fala de Deus com a bunda pra cima. Alô Alô Brasil, não tem como não se estimular com ela.

- Quando você estava andando com o bikini, qual foi a recepção do público? Teve alguma conversa que lhe surpreendeu?

As pessoas queriam muito conversar, fazer entrevistas. Surgiu um número muito grande de celulares, tirei muitas fotos com as pessoas, que simulavam entrevistas para publicar em jornais sensacionalista... Perguntavam se eu estava fazendo um protesto contra a homofobia. Só respondia: o que estou fazendo é isso que você está vendo. Houve algumas ameaças de agressões verbais, mas de longe. Um cara tentou me chutar, mas a multidão que estava me seguindo era grande e protegeu. Uma mulher disse: “Nossa, o fio dental dele é muito mais fino que o meu, deixa eu afinar aqui” e puxou. Foi maravilhoso, porque pude perceber que, quando você tem contato com uma manifestação com certo grau de liberdade e desmistificando tabus com leveza e tranquilidade, você também quer experimentar. Ela praticamente ficou com a bunda de fora. E, apesar de comentários que tentaram despotencializar o uso, grande parte das pessoas percebem como um ato de coragem, ousadia e experimentação.

- Em algum momento, você teve medo?

Era um misto de sensações muito grande. Ao mesmo tempo em que estava tranquilo, também estava com receio. Senti medo, mas era menor porque a multidão acompanhava e protegia. De qualquer maneira, o medo e o risco fazem parte da vida. E eles precisam coexistir, quando há ousadia, para que as coisas andem e possam ir além.

- Como foi a repercussão após o Bikini Quadradão? O que significa as reações negativas e, sobretudo, a agressão que quase sofreu?

Senti um clima estranho onde morava, no Centro Antigo de Salvador, senti certos olhares nas ruas, falas com tons de ameaça velada. Mas procuro me ligar mais nos anúncios que nas denúncias. Ao mesmo tempo em que existe essa violência e que muitos acham que por meio de protestos, de denunciar essa estrutura compositiva de nossa vida - como ela já era - é lutar pelos seus direitos e ir adiante, penso que precisamos imaginar, inventar outros modos de existir. É óbvio que existem muitas coisas ruins, que são ranços, forças reativas, mas também existem outras que fazem com que a vida vibre e vá além. E eu procuro me ligar nas coisas que levam além.

Até mesmo os jornais sensacionalistas mantiveram os sentidos da proposição, por reproduzirem uma matéria do correio da Bahia. E, ao mesmo tempo em que tiveram comentários para serem agressivos - para mim, não são -  como “bichona”, “não tinha outro meio de chamar atenção?”, “isso é arte?”, eu me foco nos desejos de potencializar e estimular, de provocar reverberações que gerem ações mais ousadas ainda, por exemplo. Os colegas artistas também adoraram e muitos se sentiram instigados, contentes com o bikini. Ouvi comentários de gente que a partir da proposição, pôde rever como pensam determinadas noções, como a separação entre arte e vida e o entendimento de estética como discurso.
.

- E você acredita que realmente podemos ter uma sociedade com homens de bikini?

Totalmente! E mulheres sem a parte de cima. E quiçá a gente poder andar nu na rua. A gente ainda pode chegar a um nível de experimentação muito grande e de muita coisa.

- A drag queen RuPaul disse: “Todo mundo nasce pelado, o resto é drag”, no sentido de acumularmos papéis durante a vida. Concorda?

Com certeza. Tudo pode ser visto como uma grande performance. Entendo a drag queen como um ato estético muito ousado, dentro dessa padronização, dessa homogeneização das subjetividades, elas afirmam um lugar da vestimenta que não é feminina nem masculina, não são figuras homens nem mulheres; é uma afirmação da vida, uma construção de si, uma atitude muito bonita. Diria até política.

- Embora você tenha se tornado conhecido pelo Bikini Quadradão, não é a primeira vez que você aborda essas questões de gênero. Na performance Sizígia, você cobriu o rosto e o genital, deixando que os espectadores iluminassem a performance com uma lanterna. Como pensou esse trabalho?

Primeiro, eu parto do princípio que a noção de masculino e feminino são construções sociais. O que é do homem e o que é da mulher? Em sizígia, eu desidentificava o rosto cobrindo-o com um longo pano que fica preso na porta de uma cela, fiz uma triangulação vaginal prendendo o pênis dentro das pernas e me mantenho em cima de um tapete de cacos de vidro durante 50 minutos na meia-ponta. Tendo contato com aquela imagem, as pessoas ficavam ansiosas, alertas e também tinham receio de cair em meio aos vidros. Ao tempo em que eram participantes, estavam dentro do jogo compondo a luz e podendo pisar em cacos de espelho que ficavam fora da cela, onde elas estavam.

- Quem as pessoas entendam todos os elementos... Além de sizígia, você teve uma manifestação englobando um grupo de travestis que trabalham como garotas de programa, certo? Pode contar a experiência?

Vesti roupas daquele universo, mantive a barba e os pelos e lidei com aquela realidade como uma delas. Fiz isso na Carlos Gomes, que é um lugar mais abandonado pela gestão pública, e na Pituba, ambos em Salvador. Não cheguei a me prostituir, mas lidei com elas, com os caras e com toda aquela composição estando dentro da situação, "prostitutiva". Os carros buzinavam, ouvia muita coisa e pude perceber que, além de lidar com todas as interferências, muitas vezes violentas das vivências da madrugada, houve muito respeito e delicadeza entre as pessoas naquelas situações. Um cara, que eu sabia que era uma figura que roubava na região, me disse: “Ei, você não vai conseguir nada hoje, o seu dia pra ganhar é domingo”. Notei que houve reconhecimento e cooperação naquela frase, no jeito de corpo. Foi emocionante.
.

- O que as trans achavam de você montado e de barba dentro do universo da prostituição?

Elas achavam engraçado, riam... Aquela coisa de “esse é meu espaço” não existiu. Foram tranquilas e receptivas. Quando eu dizia que estava na mesma situação, não acreditavam. Diziam: “Mas barbuda desse jeito”? [risos]. Ou seja, notei que até pra elas certo tipo de padronização dos corpos age de modo imenso, não experimentando formas que borrem produções corporais binárias, fixas, masculino e feminino. Aquela experiência foi bacana pra estimular o despojamento de preconceitos dentro daquele espaço.

- Ao contrário de muitos artistas que se dizem ousados, muitos ainda não são aliados às causas. A inquietude é o principal elemento para a sua arte?

Pode ser uma inquietude, me agrada também pensar a produção a partir da ideia de ousadia, experimentação, provocação e abertura dos sentidos. Existem signos que estão aí expostos, fixos, restringindo a liberdade corporal, a experimentação de si e identifixando demais as significações; eu procuro produzir dando novos sentidos para eles, inventando outros, abrindo para significações diversas através de diálogos sensíveis, vezes não verbais.

- O que você pensa sobre as manifestações que ocorrem em todo o país, sobre a Copa, sobre passagens de ônibus...?

Eu já participei, participo, inclusive recentemente, mas penso que a manifestação de rua precisa imprimir outro caráter para a coisa. Penso que precisamos compreender e incorporar na vida a estética como discurso. O berreiro e a exibição de cartazes, o mais do mesmo já era. Acho importante o caráter de manifestação, acho legítimo e acredito nas reivindicações, mas precisamos nos ligar mais no sentido do discurso estético, no discurso dos signos para que a manifestação seja uma revolução. E para a manifestação revolucionar alguma coisa, ela precisa revolucionar a si mesma.

- A questão de gênero é a que você mais gosta de trabalhar?

A questão de gênero também, mas também existem milhares de questões sociais que interessam. A meta é a maior questão. A sociedade "mais do mesmo" é pautada a partir de construções frágeis que basta termos um pouco de consciência para compreendê-las e fazê-las explodir. Pautas religiosas, da sexualidade ou a questão da loucura e seu dito inverso, a sanidade.

Tudo é um jogo de sobrevivência e vivência, um jogo onde a gente pode estar dentro e às vezes não estar, às vezes não estar estando. As redes midiáticas trabalham a reiteração desses signos, de valores, buscando uma padronização dos corpos para visar o lucro. Nossa sociedade é diversa por si e a tentativa de padronizá-la pode não dar muito certo, pois há que se ter espaço para a diferença. Penso que o conflito, a diferença, o dissenso movem a vida. Tudo que é muito consensual: desconfie. Quando tudo é paz e amor e Deus no coração, fiquemos de olho.
.

- Você foi uma criança que gostava de usar rosa, brincar de boneca, numa referência de se questionar esses padrões? Ou isso você adquiriu com o tempo?

Adquiri com os atravessamentos da vida. Quando criança, não tinha a coisa de rosa, mas tinha a coisa de experimentar, como colocar uma toalha na cabeça e sentir que era o meu cabelo, e bater o cabelo. Adorava brincar com as meninas, mas também com os garotos. Fui uma criança que, a partir da convivência com a instituição família, tendi a acumular traumas e inseguranças, que, paradoxalmente, moveram as superações. No decorrer das experiências, entendi a família a partir da alienação e castração que é intrínseca  - e ainda muito forte à nossa sociedade. Mas aos poucos e com esforço didático, a família também passa a enxergar em determinados momentos que o desejo não passa de construção e que é possível jogar a favor e jogar contra e no meio termo, produzindo nosso corpo e a si mesmo. Aquilo que é pulsante e vivo te atravessa e te transforma. E é isso que me interessa, essa transformação da gente, da vida.

- Ser ator ou artista também surgiu dessas reflexões?

Não afirmo que sou ator ou performer. Antes de qualquer coisa, estou vivendo e sendo atravessado pela vida e por muitas linguagens, multiplicidade própria da vida mesmo. Costumo usar a expressão: transdisciplinaridade pra uma indisciplina, que é isso de lidar com os atravessamentos, interferências e metamorfoses da vida para produzir a si.

- Bom, vi por suas fotos que, mesmo quando não está dentro de um contexto artístico, você veste roupas atribuídas ao universo feminino. É isso mesmo?

É isso! Minha história, nesse momento, é essa. Não re-produzir a partir da ideia de apresentações, é vida como arte, vidarte. O cotidiano construindo as coisas a todo o momento, a roupa, uma música que você canta, o jeito como anda, como fala, do simples ao histriônico pode ser encarado como uma produção. Ando experimentando roupas, tecidos no dia-a-dia.

- Embora a subjetividade não precise de definições, vivemos em uma sociedade que nos coloca rótulos a todo o momento. Se eu escrever que você é um artista trans te incomodaria?

Não gosto, me incomoda. Acho que o princípio da identidade é a desidentificação. Não tem como me apegar às identidades fixas, eu não estou para a vida dessa forma. A gente vive e está lidando com interferências, com fluxos, movimentos, experiências que nos transformam a todo tempo. Não sou travesti, não sou transexual, mas também não sou homem e não sou mulher. Eu não sou, estou. Se for para ser alguma coisa, sou devir.

- Interessante... Você pode contar com exclusividade a próxima vestimenta?

Chama-se ul-traje para ocasiões fúnebres. A ideia da peça é que seja usada em formaturas, casamentos, festas de quinze anos, batizados... Por enquanto é isso, haverá uma intervenção por aí, em breve divulgarei as imagens.

- Todos torcem para que você tire do armário logo. Hoje, qual é o seu sonho?

Neste momento, no aqui e agora, estou precisando sobreviver em São Paulo, arranjar um emprego fixo que estimule e para estimular composições novas. Se souberem ou quiserem, lancem propostas que serão super bem-vindas. [risos].

Confira vídeo do Bikini Quadradão:



Foto dos bastidores:
Os estímulos: Flávio de Carvalho, Borat e Inês Brasil




Entrevista foi realizada na Casa das Rosas, em São Paulo

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Ricardo Rocha Aguieiras disse...

Gosto dele pela coragem extrema, ousadia e transgressão, tão necessárias nesses dias de conformismo e covardia. São pessoas como ele que provocam mudanças, vide o que o seu inspirador Flávio de Carvalho fez, anos 50, e que repercute até hoje. Gosto também quando dizem - eu vivo dizendo isso - que cada um ou uma se veste como quer e como pode e fodam-se os outros e os defensores escrotos da moda que enforma. Espero que continue e que não seja absorvido pelo sistema que aí está, cooptador. Ah, uma única coisa penso diferente acho que identidades fixas ainda são muito necessárias para a conquista de Direitos e para não estimularem o enrustimento em nome do "não aceito rótulos", é um ponto em que eu penso bem diferente dele. ah, dois, a bunda dele é bem gostosa.
Ricardo Rocha Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Tecnologia do Blogger.