Pride

"Sonho em ir à praia sem camiseta", diz homem trans que luta para retirar a mama

Lucas faz campanha no Vakinhas.com para realizar a mamoplastia masculinizadora

POR NETO LUCON

O estudante de psicologia Lucas Rocha, de 20 anos, passa por um desconfortável processo toda vez que tem que sair de casa.  Ele precisa envolver uma apertada faixa elástica entre o peitoral, vestir um binder [cinto em formato de macacão que comprime o peito] uma camiseta e um casaco folgado. Tudo isso junto, justo e apertado no calor de 40º do Rio de Janeiro para se sentir mais seguro com a própria imagem.

Lucas é um homem transexual e afirma que, por conta dos intrusos – nome que o grupo trans dá ao peito/mama – deixa de viver experiências comuns de qualquer outro jovem de sua idade.

“Meus intrusos são grandes e, às vezes, uso dois binder. Imagine, não dá para respirar direito, não dá para me movimentar direito, fora que ando sempre curvado para a camisa não colar no corpo e não marcar. Tenho pavor de me olhar sem camisa no espelho”, declara Lucas ao NLucon. Ele diz que deixou de lutar boxe, malhar e fazer outras atividades corriqueiras devido aos problemas relatados.

Recentemente, Lucas lançou uma campanha para realizar a mamoplastia masculinizadora - a retirada dos intrusos - e pede ajuda. "Minha mãe é aposentada e eu faço freelancer como garçom para pagar os hormônios. Não sobra quase nada para a cirurgia". A campanha no Vakinhas arrecadou R$770, mas precisa de 6.730 para ser concluída. "Existe também a questão de saúde, pois existem muitos casos de câncer na minha família e a retirada também evitaria".

Pelo SUS - Sistema Único de Saúde, que dá assistência ao grupo - homens trans levam dois anos para concluir as consultas com psicólogos e enfrentam uma fila de espera de pelo menos dois anos. "É muito sofrimento passar pelo processo diário e esperar tanto tempo", desabafa ele.
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Lucas conseguiu até agora 10% do valor necessário

De dentro pra fora

Lucas mora no Rio de Janeiro e nasceu em Governador Valadares, Minas Gerais. Divide a casa com a mãe, a madrinha e a irmã e diz que, embora tenha nascido com uma vagina, sempre soube que é um homem. Quando criança, brigava para usar roupas, cortes de cabelo, brincadeiras e mantinha o comportamento atribuído ao universo masculino. Por conta disso, era excluído das rodas e, tempos depois, foi acolhido por algumas mulheres lésbicas. "Mesmo assim, sabia que não era o grupo com o qual me identificava, pois às vezes eu queria falar sobre homem e não podia, era visto como nojinho".

Sim, ele gosta de homens e mulheres. Lucas tinha a consciência de que, embora fosse visto como uma mulher lésbica e masculina, sua vivência se tratava de um homem bissexual - o que prova que identidade de gênero nada tem relação com orientação sexual.

Aos 17 anos, tudo ficou mais claro. Lucas assistiu a um documentário que falava sobre Buck Angel - homem transexual que protagoniza filmes pornôs gays - e outros homens trans. "Foi a luz que eu precisava. Parece até desenho, pois literalmente abriu uma luz na minha mente e eu percebi que era aquilo que eu queria para mim". Ele passou a pesquisar na internet sobre transexualidade, leu artigos, acessou grupos em redes sociais e procurou Ongs. Quando completou 18 anos, passou a tomar hormônios e fazer o tratamento em T - de testosterona. "Eu já sabia o que queria: passar para fora o que eu sou por dentro".

Em casa, ele conta com o recente apoio da mãe, que apesar de procurar entendê-lo ainda não consegue tratá-lo pelo nome de Lucas. "Ela perdeu a irmã neste últimos meses e começou a perceber o quanto a vida é curta. Ela se esforça ao máximo para me tratar no masculino, mas ainda não me chama pelo meu nome. Ao mesmo tempo, ela está querendo me dar um novo nome. Acho que terei um nome composto", revela ele. A proposta dada pela mãe: Lucas Frederico.
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Lucas é um homem transexual bissexual

"Gritaram 'viado' e notei que o tratamento estava dando certo"

Após o tratamento em T, Lucas enfrentou a insegurança de colocar os pés para fora de casa. O maior medo era de que os hormônios não estivessem fazendo o efeito esperado e que ele continuasse sendo visto como uma menina. "Em uma tarde, criei coragem e fui dar uma volta. A minha maior felicidade foi naquele dia que jamais irei esquecer Estava distraído no estacionamento do shopping quando um motorista passou e gritou: 'Sai daí, viado' [risos]", lembra.

"Na hora nem liguei para a homofobia, só pensei que o tratamento hormonal estava dando certo e que naquele momento fui reconhecido como homem", continua.


Com 1 ano e cinco meses em T, passou a ter coragem para sair de casa, frequentar o banheiro masculino - "antes, só usava o de deficiente, porque a cabine era privada" - e hoje é visto como qualquer homem cisgênero - "não que eu queira isso, pois não tenho vergonha de ser trans". De acordo com ele, definir alguém como homem ou mulher é bastante subjetivo e pessoal. "Apenas a pessoa pode dizer quem ela é ou não". 

Na faculdade de psicologia, ele tem o nome social respeitado e recebe o mesmo tratamento que qualquer outro aluno cis. "Minha coordenadora é um amor, meus professores sempre me respeitam. Me chamam pelo nome social e me autorizam a assinar como Lucas. Acho que isso se dá pelo curso que eu faço, pois para ser um bom psicólogo é preciso se livrar dos preconceitos", defende.

"Vou doar o meu cabelo para uma instituição" 

O próximo capítulo da vida do estudante é conseguir a mamoplastia masculinizadora. "Não penso em mexer no meu genital neste momento. Talvez as cirurgias para homens trans evoluam no futuro e, neste caso, prefiro esperar. Para mim, a mamoplastia é a mais importante porque, mais que estética, é a um caso de saúde e liberdade. Quero poder me sentir livre, sem a neura de que algo está aparecendo. Levarei uma vida mais confortável".

Lucas quer ir à praia e tirar a camiseta

Sobre a vaquinha, recebeu o apoio público de João W. Nery - primeiro transhomem a fazer a cirurgia no Brasil. Lucas também vem recebendo muitas mensagens de incentivo, mas lamenta a pouca contribuição. Como agradecimento, ele afirma que deixará o cabelo crescer e doar para uma instituição de combate ao câncer. "Também quero fazer a minha parte e contribuir com o mundo". 

Ele diz que, após realizar a cirurgia, o maior sonho é comemorar indo à praia ou a num parque aquático - sem a camiseta, claro. 

"Não penso em tirar a camisa na balada ou na rua, até porque sou gordo [risos] - que bobagem! - mas adoraria sentir a liberdade de tirar a camiseta em um banho de mar, ficar na praia de braços abertos com a maior tranquilidade. Acho que seria uma das melhores experiências da minha vida", frisa. Certamente, uma cena que evoca o melhor sentido da palavra liberdade que todos buscamos. 

* Para doar e contribuir para a cirurgia de Lucas, basta clicar aqui.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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