Pride

Amigos e ativistas pedem justiça e punição pela morte da artista Géia Borghi; veja ato



Amigos, colegas de trabalho, fãs e ativistas se reuniram na tarde desta segunda-feira (13) para pedir justiça e punição aos responsáveis e pela morte da mulher transexual Géia Borghi, enfermeira e ícone do cenário artístico LGBT, em Campinas, interior de São Paulo.

Géia foi brutalmente assassinada na noite de quinta-feira (9), após ter sido abordada em sua casa por dois homens, em Campinas, e levada para Monte Mor, onde foi torturada e assassinada com um tiro no peito.

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Com faixas, cartazes, camisetas e um carro de som, o grupo formado por cerca de 200 pessoas se reuniu na Praça Largo do Rosário e seguiu até a Praça Glicério. Eles pararam o trânsito da cidade, chamaram atenção dos transeuntes e sensibilizaram com falas que abordavam o lado profissional, artístico e humano de Géia.

“Ela era uma luz. Ela pegava a criança no colo que a mãe achava que ia morrer, que a família já estava esperneando, e encontrava de alguma forma a veia e dava um sopro de vida. Hoje, a gente não pode mais sentar com nossa amiga e escutar ela dizer que estava feliz porque a criança sobreviveu”, disse a amiga Bell Simão, que trabalhava com Géia no hospital Dr. Mario Gatti. 

Outros atos e homenagens também estão sendo realizados em memória de Géia. O clube Subway, casa em que Géia se apresentava em Campinas, dedicou um momento da noite de sexta-feira (10) para exibir um vídeo e homenagear a artista.

Depoimentos:

“Eu entrei no Mario Gatti em 2011 e Géia me recebeu super bem. Logo que eu entrei, a amizade foi recíproca, nos identificamos demais. A gente ficou muito colada, trabalhando junta, naquela felicidade de ter se encontrado, de ter se identificado, e chegou até um momento em que a chefia chamou a minha atenção. A equipe estava com ciúmes. Chegamos a sair para algumas festas, videokês, já que estávamos solteiras. Depois, entrei em um relacionamento sério e ela entrou em outro, mas mesmo um pouco distante a amizade continuava firme. Nos últimos momentos, ela não estava feliz no relacionamento, mas acabou conversando com outras pessoas, já que eu estava me casando. Para mim, ela era muito mulher, eu só via ela como mulher, e tínhamos uma convivência em que eu nem lembrava que ela era travesti ou transexual. Vou sentir muita saudade da minha amiga Géia. O pessoal do Hospital está me ajudando, tanto com dinheiro ou com folga, porque sabe que eu gostava muito dela”.

Carolina Vilas Boas de Souza,
 amiga e enfermeira, 34 anos



“O que eu sei eu aprendi com ela. Géia ensinava as pessoas a trabalhar, parece que ela já nasceu com o dom de cuidar de ser humano. Então, por isso, nós queremos justiça, pois ela era uma pessoa que trabalhava a favor da vida, lutando pela vida. Como alguém teve coragem de fazer isso? O lugar que ela ocupava no hospital nunca mais será ocupado por alguém. Sabe o que é você sair do carro do estacionamento e ela está ali do seu lado todos os dias? Alguém sabe o que é essa dor o que eu estou sentindo, que a família e os amigos estão sentindo? Essa dor e esse vazio vão ficar para sempre. Chega de impunidade”.

Bell Simão, amiga

“Tínhamos uma amizade de mais de 10 anos. Éramos amigos sem pudores, de viajar junto, de dormir na mesma cama, de sair para jantar... Teve uma época que eu administrava shows de algumas casas noturnas e eu sempre chamava a Géia. Chamava porque ela mandava muito bem, pela competência e pelo comprometimento, inclusive com o horário. Pedia, “preciso que você faça isso” e ela ia lá e fazia. Ela era uma mulher, feminina, era tudo de bom para o amor. Dizia para ela largar o hospital e vida. Fiquei sabendo da morte logo pela manhã de sexta-feira, porque amigos me mandaram dezenas de mensagens.  É difícil porque, quando a gente sabe de uma morte de um gay lá no Acre, a gente se sensibiliza na mesma proporção pela empatia, mas quando alguém morre ao seu lado, você pensa: “Poderia ser eu”. Esta manifestação é importante porque ela resgata o verdadeiro caráter de um ato. A Parada, por exemplo, deveria ser isso. Não deveria ter música, carro de som, deveria ser isso aqui. Será que reuniria tantas pessoas assim?”

Gustavo Tonini,
amigo e ator (também Priscilla drag), 34 anos



“Conversando com amigos que a conheciam, me dei conta que já havia visto a Géia em suas apresentações na noite campineira e me dei conta da pessoa incrivelmente generosa que ela era. A dor que vivi esses últimos dias, revivendo a história e a morte brutal me tocou. Pensar que poderia ser eu ali ou qualquer uma das minhas amigas travestis me fez envolver nesse ato. Tive medo de que Géia fosse simplesmente esquecida caso ninguém se dispusesse a diariamente gritar o seu nome, seus feitos e exigir justiça. Géia estava morta, mas era preciso agir para que outras mortes fossem evitadas. Vejo relatos diários de amigas sofrendo agressões, sobrevivendo a violências que as poderiam matar facilmente. Vivemos o medo ininterrupto de ser espancada, de sobreviver a uma sessão de violações infinitas, de passar pela tortura que passou Géia. Me sinto uma militante forçosa só por existir e isso é desgastante”,

Amara Moira,
ativista




Veja fotos: 












About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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