Pride

Perfil: Géia Borghi, a enfermeira artista (1966-2014)

Nas ruas cinzentas de Campinas, em meio a tantos iguais, uma fada se torna a cor da tarde chuvosa. Dentro de seu automóvel, colore as ruas com imagem dos cabelos loiros, lábios com batom rosa claro e olhos verdes. Ao estacionar, as longas pernas passeiam harmoniosamente pela quadra, bem como bailarinas no palco: felizes e elegantes. 

A fada em questão é Géia Borghi, 42 anos, que caminha em direção ao Hospital Municipal Doutor Mário Gatti, às 13h. Ela se prepara para entrar na ala da pediatria. É lá que trabalha seis horas por dia como auxiliar de enfermagem. E garante: ama cuidar de crianças.

“Resumo a enfermagem como uma arte. Trabalhar na pediatria é gratificante (diz com os olhos já marejados). Nós não temos noção do quanto é preciosa a vida de uma criança. Tenho consciência de que, por trás daquela criança doente, existem várias histórias. E que faço parte delas e que sou responsável por elas”.
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No Mario Gatti, o nome Géia ainda é pouco utilizado. Somente os mais íntimos a chamam assim. Lá, é conhecida como . Curiosamente, na mitologia grega, tanto Géia quanto Gê, personificam a mesma pessoa: a Mãe Terra, livre de nascimento ou destruição, de tempo e espaço, de forma ou condição. Sorte, destino ou coincidência, Géia ou Gê são nomes femininos..

“A figura feminina existe mesmo com o nome Gê. Ela é mantida no hospital e é concluída fora dele. Divido a minha vida em cinco momentos: família, trabalho, vida espiritual, vida social e palco. A essência desses cinco momentos é a mesma, o que muda é a caracterização. Em casa ainda sou o filho, então não me visto 100% como menina. Fico mais de camiseta e calça. No trabalho, estou levemente maquiada, cabelos soltos e de branco. Na minha vida social, estou como você me vê, elegante, feminina, como eu quiser. E nos palcos, sou a Géia do glamour, do brilho e dos shows”..


A arte que lida no dia-a-dia no hospital veio dos palcos.  E na noite - sim – é a eterna e conhecida Géia. Artista das caracterizações, das inovações e dublagens perfeitas. Um dos ícones dos shows de transformismo dos anos 80 até os dias atuais. No extinto programa “Clube do Bolinha” (Tv Bandeirantes), foi ovacionada pelo público ao participar do quadro “Eles e Elas”, com muito brilho, profissionalismo e simpatia. Tal experiência é lembrada e relembrada quase diariamente. Muitas vezes, no atual ambiente de trabalho..

“Na verdade, o artista passa fome no Brasil. E eu sou artista, sempre fui. Minha carreira começou nos palcos e continuo com minhas apresentações. A enfermagem é a segunda opção que se tornou a primeira. Levo com amor porque me dá dinheiro. É lá que tiro meu sustento e o de minha mãe (uma senhora com deficiência visual que mora com ela). Faço dela a minha arte diária”..

Para quem passa pelo hospital Mario Gatti, uma fada poderá ser observada na ala infantil. Pois é assim que as crianças observam-na: nem como homem, nem como mulher, mas como com um ser com asas. Pelo menos foi isso que escutou de uma menininha e que levou como referência. Já para aqueles que frequentam casas noturnas de Campinas, o encanto a personifica para a arte: é unicórnio, princesa, príncipe, bruxa, Evita e Marylin Monroe...

MAMÃE QUERO SER CHACRETE 
- Que menina linda, é sua filha?.

A aparência, os traços e trejeitos femininos percorrem a vida de muitas trans desde a infância, como uma característica que vai além das escolhas ou educação. Ou seja, é uma característica intrínseca. Quando criança, Gê era constantemente elogiado pelas comadres de sua mãe.
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Nestas ocasiões, não era referido como um menino. Embora não fosse afeminado, nem tivesse essa pretensão, suas características físicas ganhavam destaque como se fossem de uma menina. A mãe, desagradada, respondia rapidamente: “Não! Não é uma menina! Ele é meu filho, um homem”.

“Eu agia como um menino, pois sempre fui moleque. Porém, como meu cabelo era um pouco mais comprido, sempre fui elogiado como se fosse uma menina. Desde pequenininha, com uns 8 anos, eu já tinha uma certa característica física. Mas não tinha noção disso”..

Sempre animado, Gê adorava brincar com meninos e meninas da rua de sua casa. No fundo, preferia a companhia dos meninos, já que, assim como ele, praticavam esportes radicais. Não gostava de bonecas, nem de brincar de casinha. Queria mesmo é andar de carrinho de rolimã e jogar bola. A atividade mais feminina que praticava era amarelinha e fazer shows de calouros.
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Inspirado nos programas de José Abelardo Barbosa de Medeiros - o Chacrinha - e Silvio Santos, Gê e seus amigos se divertiam ao imitar calouros e jurados dos antigos programas de televisão. Para o pequeno, as Chacretes eram o máximo! 

“Sempre quis ser Chacrete (referindo-se as assistentes de palco do apresentador Chacrinha). Sempre quis ganhar uma bota como a delas. Eu amava a Rita Cadillac. Meu sonho era ser como ela: artista, bailarina, dançarina, trabalhar na televisão. Os meninos participavam disso tudo. Eles eram jurados, apresentadores e imitavam os cantores. E, eu, era a Chacrete (risos)”.
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Mesmo quando interpretava papéis femininos, os amigos não se importavam e nem faziam piadinhas. Tudo era encarado como uma grande brincadeira e a Chacrete como apenas mais uma personagem. Até porque, quando a brincadeira acabava, Gê voltava a ser o “menininho de sempre”. .

Foram nessas imitações e divertimentos que começou a revelar o talento para a arte. Entre os super-heróis da Liga da Justiça, encarnava a Mulher Maravilha, a princesa de Themyscira, primeira heroína a ser criada, em 1941, pela DC Comics. Gê colocava um lacinho no cabelo e interpretava Maravilha, cuja identidade secreta é, curiosamente, Diana Prince, uma enfermeira da Força Aérea Americana. Sim, uma enfermeira. .

Por volta dos 13 anos, brincava de ser farmacêutico. Travesso, ia às farmácias e mexia nos lixos. Queria fazer remédios. “Adorava ir às farmácias e mexer nos lixos. Pegava vidros vazios e cheirava. Gostava daquele cheiro. Acho que estimulou um pouquinho na questão de escolher a enfermagem. Mas ficou só no ar. Naquela época eu queria ser tudo: chacrete, artista, professora, bailarina, médica, tudo!”

- A referência de feminilidade vinha da minha irmã
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Os primeiros contatos com o masculino e feminino são observados através de familiares e pessoas próximas. O pai, por exemplo, é a referência “máxima” de como um homem deve ser e se portar. A mãe, por sua vez, é a referência da mulher e do feminino. Muitas vezes, os exemplos são trazidos são mesclados por irmãos, primos, amigos ou tios. A identificação, todavia, independe de ter nascido com o genital atribuído masculino ou feminino.
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Para Gê, estar ao lado das irmãs era uma das suas maiores alegrias, pois se identificava com o feminino trazido por elas. Adorava estar junto, principalmente de Cidinha, cujos cabelos eram longos, loiros e lindos. Ficava observando-a na cama enquanto ela se arrumava. Muitas vezes auxiliava nos preparativos para o tão sonhado baile. Enquanto Cidinha saía linda para namorar, Gê sentia-se importante por ajudar na conquista do visual.
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“Lembro que ela enrolava o cabelo e dormia com uns bobs enormes. Acordava com o cabelo lindo e ia trabalhar linda. Era uma referência de beleza e feminilidade. À noite, ia ao baile com os namorados. Eu ficava só olhando...”.

A relação com o irmão mais velho, todavia, não foi das mais agradáveis. Aos 12 anos, após discutir com a mãe, Gê se trancou no banheiro. O irmão tomou as dores e decidiu dar uma lição em Gê. Ele pegou um cinto, arrombou a porta, tirou sua roupa e o surrou. A experiência foi traumatizante.
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“Foi um dos momentos mais tristes da minha vida. Eu apanhei, apanhei, apanhei, apanhei. Apanhei tanto que aquilo ficou marcado na minha mente, na minha vida. Não consegui esquecer até hoje, pois fui covardemente agredida e ninguém me ajudou. A partir daquele dia eu nunca mais conversei com ele (fica com o olhar entristecido). Hoje não o cumprimento, a gente tem uma relação que não é de irmão”.

Géia acredita, que, depois da agressão, ficou por um tempo fortemente traumatizada. Não podia ouvir gritos, visualizar movimentos bruscos, nem receber broncas, pois sentia medo e chorava.
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- Sempre gostei das humanas, matemática não era meu forte.
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Um estudo do professor Cláudio Pedrosa (mestre em Psicologia Social pela PUC-SP) mostrou que transgêneros têm um QI acima da média (WONDER, 2008)..Na escola, Gê era considerado um bom aluno, daqueles de sentar na primeira carteira e prestar atenção em tudo que o professor falava. Preferia português, educação artística e literatura. Só não ia tão bem em matemática e física. Sempre foi das humanas..

Pela maneira rígida em que era educado pela mãe, sabia se comportar em todos os ambientes. Na sala de aula era atencioso e quieto. Somente nos intervalos é que se permitia ser "travesti", divertir-se ao lado dos amigos. Gê teve um problema aos 12 anos, quando passou se sentir mal e a vomitar sem motivo.
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 Entre uma aula e outra, despejava no chão tudo o que havia ingerido e gerava desconforto entre os colegas. “Tive muitos problemas na infância e era muita magra. Vomitava muito, muito, muito... E tinha muita vergonha perante os colegas. Levava até saquinho dentro da minha mochila porque me sentia mal. Não sei te dizer o motivo, só que foi uma fase complicada”.
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Na quinta-série já tinha a convicção de que gostava de artes. Realizava-se ao pintar quadros e recorda-se do cheiro da tinta. Em uma aula, enquanto fazia um trabalho, derrubou uma grande lata com tinta cor de rosa. Ao ver a tinta escorrer pelo chão, um pânico tomou conta. Levaria uma bronca? O que a mãe poderia pensar? Seria agredida novamente? O receio foi tão grande que começou a chorar. Olhava para a lata, para a tinta, e chorava desesperadamente. 
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“Sabia que não podia ter deixado cair. Sabia também que, se fosse chamada a minha atenção, me sentiria mal. Sempre fui frágil. Como eu já tinha apanhado do meu irmão, qualquer grito já me assustava. Eu me recolhia. Mas a professora chegou perto, olhou para mim, para a lata e pediu para eu limpar. Só. Chorei sem motivo (risos)”.

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Da sexta à oitava série estudou na escola Reverendo José Carlos Nogueira. No primeiro colegial, foi para Culto à Ciência e reprovou em inglês e matemática. “Saí de um colégio que era fraco e fui para outro superior, de elite. O currículo de lá era muito exigente. Acabei repetindo no primeiro ano do colegial”. A mãe resolveu, então, matriculá-lo no Dom João Nery.

 Gê adorou, pois pela primeira vez poderia escolher a área em que gostaria de estudar. Sem dúvidas, claro, escolheu a das humanas e seguiu a vida escolar tranquilamente e sem novas interrupções.

 Fui office-boy numa empresa 
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Gê tinha 14 anos quando foi orientado pela mãe a procurar um emprego, pois “deveria aprender a criar responsabilidades”. Comprou um jornal e procurou nos classificados algum trabalho. Não fez distinções de ofertas e logo avistou o anúncio “Escritório de contabilidade oferece vaga para office-boy”. Era esse!
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“Comecei a trabalhar como office-boy. Era aquele menino que andava para pagar as contas do banco, ia entregar algum documento, ia buscar alguma coisa. Lembro que andava, andava, andava muito. Mas me divertia, pois acabei conhecendo muita gente. O primeiro salário dei para minha mãe. Sim, todinho. Foi aí que comecei a ajudar em casa”.
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Trabalhou durante três anos, e neste período, subiu de cargo para auxiliar administrativo e auxiliar de escritório. Mesmo com a pouca idade, vivia tendo propostas para mudar de emprego, mas sempre recusava, pois não queria “trocar o certo pelo duvidoso”. Até que, num dia, dois engenheiros – clientes do escritório em que trabalhava – ofereceram uma proposta irrecusável.
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Gê trabalharia no departamento pessoal e teria um salário duplicado. Desta vez, pediu a conta e foi direto para o novo emprego. A função era de levar os peões para assinar a carteira de trabalho, escrever contratos, aviso prévio e demissões. Ficou durante dois anos e pediu, mais uma vez, demissão. O motivo? Nos últimos meses, não estava sendo pago e "o duvidoso acabou saindo caro, de fato". 

- Já fiz show de transformismo na Puc-Campinas

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As dúvidas de um jovem sobre o que ser profissionalmente é frequente. Afinal, escolher uma profissão não implica em escolher apenas uma função de 6h ou 8h, mas um estilo de vida, colegas de trabalho, ambientes, horários e cobranças sociais. Quando finalizam o ensino médio, as dúvidas tornam-se cobranças: é o momento de decidir o que quer ser.
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Aos 20 anos, Gê queria ser médico. Para isso, prestou medicina na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), mas não passou. Logo, tentou geografia na PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica), mas não gostou do curso. Tentou pedagogia, mas também não se identificou. Até que resolveu: “vou fazer Educação Artística!”.

Prestou o vestibular na PUC e logo começaram as aulas. Ainda não era “transformada”, mas já tinha consciência pelo menos da sua orientação sexual. Tanto que era apaixonada por um “bofe” de sua sala, que nunca correspondeu às suas expectativas. Sobre o curso, não gostava de muitas disciplinas e só sentia empolgação pelas aulas de “Teatro e Música”, onde os dotes artísticos começavam a aflorar e a se propagar pela universidade.

Foi aí que Géia nasceu: num show de transformismo.

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“Fazia shows como trabalho de faculdade e sempre com a identidade feminina. Uma vez, queríamos fazer alguma coisa diferente para o trabalho sobre folclore. Fizemos uma apresentação de capoeira e eu fui Clara Nunes. Me caracterizei como baiana e dublei a música “Guerreira” (composição de João Nogueira e Paulo César Pinheiro). Foi um sucesso. Tiramos 10! Nessa época que comecei a me encontrar, pois era isso que eu queria fazer. Aos poucos, descobri que era isso que eu queria ser.”
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GUERREIRA
Se vocês querem saber quem eu sou
Eu sou a tal mineira
Filha de Angola, de Ketu e Nagô
Não sou de brincadeira
Canto pelos sete cantos
Não temo quebrantos
Porque eu sou guerreira
Dentro do samba eu nasci,
Me criei, me converti
E ninguém vai tombar a minha bandeira

O professor da disciplina ficava encantado com as performances do grupo: “os olhos dele brilhavam”, lembra. Géia também sentia a aprovação de todos os colegas da faculdade. Assim como na infância, ninguém fazia piadinhas ou comentários preconceituosos em sua frente. Talvez o respeito viesse, não por vê-la como uma pessoa transgênero, mas por observá-la como uma artista, ou seja, “o grande ator que se veste de mulher”.
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“Todos ficavam encantados, pois tudo era inusitado. Era um público heterossexual, para uma universidade católica, num país preconceituoso, com show de transformismo. No mínimo, me admiravam pelo ineditismo e pela coragem. Sempre adorei receber aplausos”.
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Estudou durante dois anos, mas como não gostava das outras matérias propostas resolveu trancar a matrícula. “- Parecia que já sabia o conteúdo, me chateei e fui embora (risos)”.
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“No primeiro dia de trabalho na enfermagem, desmaiei”

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Após deixar a faculdade, decidiu cursar enfermagem no Senac. Na época, a profissão era designada como “atendente de enfermagem”. O curso durou um ano e meio e, assim que concluiu, engavetou o diploma.
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A renda de Géia vinha unicamente das apresentações que fazia nas danceterias de Campinas. Mesmo assim, mal remunerada. O cachê pelos shows consistia em R$80,00 por apresentação. E, com a desvalorização do cachê de artista, retomou o certificado de técnico de enfermagem e tentou uma vaga na Casa de Saúde de Campinas, local onde nasceu.
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No primeiro dia, ao fazer um procedimento, uma grande ironia fez parte da experiência. Viu o cateter na barriga de um paciente e, inexplicavelmente, começou a se sentir mal... Desmaiou! “Acordei e estava com a injeção de glicose fora da veia. Levei um ponto no supercílio, pois havia batido a cabeça na manivela da cama. Pensei “ai gente, será que é isso que eu quero mesmo? Mal entrei e já fiquei de atestado (risos)”.
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Quando voltou, pediu para ver o mesmo procedimento novamente. Sempre motivada a desafios, queria ter a certeza de que tinha escolhido a área correta de trabalho e que não ficaria desmaiando a cada procedimento médico. “Eu vi de novo, gostei, amei... Acabei ficando e trabalho na área da saúde até hoje”, resume. 

“De dia enfermeiro, de noite artista”
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Na Casa de Saúde, Géia trabalhou na ala de nefrologia (especialidade médica que diagnostica e trata doenças do sistema urinário). Trabalhava muito, pois a fila de pacientes era constante. Nos fins de semana, chegava em casa, tomava banho e se montava para os shows de transformista. Ficou nesta vida durante três anos.
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Sua aparência já era andrógina e Géia ia tomando conta cada vez mais. Nos últimos anos, começou a pintar o cabelo ora de uma cor, ora de outra, e a usar assessórios. A inspiração vinha do cantor Ney Matogrosso (que ao lado de Caetano Veloso, o Grupo Dzi Croquetes, entre outros, provocavam escândalo ao pôr em questão, entre outros assuntos, o comportamento convencional de masculino e feminino). O cantor aparecia nos palcos com trejeitos, vestimentas e maquiagens femininos e era a inspiração de Géia.
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Em 1981 tentou uma vaga na boate Bubs, em Campinas, e, numa performance inédita e figurino inovador, surpreendeu aos jurados. “Fui com a pele toda pintada de cobra. Mas ainda assim achei que aquela cobra estava muito pobre, muito simples. Comprei uma gaiola, tirei a parte de baixo e coloquei na cabeça. Era como se ela tivesse invadido a gaiola e devorado o passarinho. Todo mundo ficou impressionado e eu entrei para o elenco da Bubs”.
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Com muito jazz e música eletrônica, começou a caprichar nos figurinos que ela mesma costurava. Criava em cima de sucatas.

 “Sabe aquela coisa de lixo-luxo? Eu já fazia. As minhas roupas, os meus vestidos, eram todos feitos a partir de sucata. O primeiro foi um vestido inteiro de folha. Eu saí procurando folha de árvores, fiz uma base de plástico e apliquei folha por folha. Quando entrei, as pessoas ficaram passadas, pois não tinha nada a ver com a música (risos). Com o tempo, começaram a esperar algo diferente a cada apresentação. Daí eu fui melhorando, adaptando as músicas ao figurino. Acabei deixando a sucata de lado. Mas sempre procurei inovar”.

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No trabalho, os colegas da enfermagem incentivavam-na na vida artística e até foram assistir algumas de suas apresentações. O visual inconstante, por sua vez, era motivo de elogios e descontração.

- O sonho de estar no Clube do Bolinha (Bandeirantes)


Na década de 80, os shows de transformismo eram moda na televisão brasileira. Silvio Santos (SBT) e Bolinha (Bandeirantes) traziam várias artistas transgêneros para os conhecidos shows de calouros. Embora sempre perguntassem o nome masculino ou fizessem alguma piadinha constrangedora, eram nesses programas que muitas trans conseguiam exibir os seus trabalhos.

Nesta época, Thelma Lipp (1962- 2004) e Roberta Close traziam uma nova imagem trans para o país: propagavam a beleza trans e figuravam na telinha como juradas. Thelma no programa de Bolinha, Roberta no de Chacrinha.

Em Campinas, uma produtora de São Paulo, ao assistir as apresentações de Géia na boate Bubs tratou logo de convidá-la para participar do programa “Clube do Bolinha”. Outra artista da casa – a amiga Morsa – também foi chamada. Juntas, estariam no quatro “Eles & Elas” para um show de dublagem. Era a grande atração dos sábados, ou seja, a grande oportunidade de ter o trabalho divulgado.

Antes do programa, estavam nervosíssimas. Não sabiam como era a gravação de um programa de televisão, nem como seriam tratadas. Arrumaram-se no camarim durante o dia e ficaram aguardando serem chamadas. A gravação aconteceu somente à noite. “Sempre achei que o programa tivesse público, jurado, como víamos na televisão. Mas não era bem assim. Era um auditório vazio, as Boletes ficavam paradas e os jurados nunca estavam. Eram apenas um palco pequeno e as câmeras. Tudo editado! Depois, eles colocavam as palmas, os risos, os jurados, cortavam a música pela metade”. Aprendeu ali que televisão é definitivamente uma ilusão.



Ao todo, eram três transgêneros, uma mulher e o humorista Marquito. Ficaram em uma fila aguardando a apresentação de Bolinha. O coração pulsava forte, mas Géia estava confiante, pois tudo estava muito bem ensaiado. Stephannie foi a primeira trans a se apresentar e dublou Watusi. A amiga Morsa foi logo em seguida. Vestida de sereia e com calda verde, dublou a música “A Lenda das Sereias, Rainha do Mar”, na voz de Marisa Monte. Só depois de Morsa, do humorista Marquito e da artista Paula Zamp, é que Géia foi se apresentar. Era a atração final do quadro, a mais comentada e esperada. 

_ Géia? É você linda? Vem cá amor. De onde você é?
_ De Campinas.
_ E você está em qual boate?
_ Boate Bubs.
_ Boate Bambis?
_ Não, boate Bu-Bis
_ Ah! Boate Bubis. Fui fazer cola e não deu certo.
_ Você parece com um cara da produção, linda. Solta o som maestro.

Automatic Lover, de Dee D Jackson, foi a música escolhida. Era o primeiro LP que Géia comprou desde que começou a trabalhar como auxiliar de enfermagem. No programa, deu um show de dublagem, que surpreendeu até mesmo o apresentador Bolinha. Ele não poupou elogios e disse para o Brasil inteiro: “que apresentação maravilhosa”.

Muito elogiada, conseguiu outros trabalhos na atração, onde pôde conhecer a jornalista Marília Gabriela, a dançarina Gretchen, o grupo Los Angeles, e a cantora Martinha. Ali, vivia um sonho. Mas como nem tudo são flores, ao avistar o cachê, quase desanimou: 80% iam para a produtora que a convidou. “Se ela pedisse 100 reais, somente 20 eram nossos. Achava uma sacanagem, pois não tínhamos sido avisadas. Mas vida de artista é assim mesmo... Só com amor. A gente ama o que faz e não liga para cachê, para o que falam, para a crítica destrutiva, não liga para nada. Só o amor basta”. É por isso que nunca abandonou a enfermagem.

Desta experiência, destaca ter conhecido as Boletes. Já que não conseguiu ver uma Chacrete, estava feliz por ver (e estar ao lado de) uma Bolete. Era a realização de um sonho de criança. 

- Só tem viado dentro desse hospital

O pré-conceito está presente, de alguma forma, em todos os lugares e em todas as camadas sociais. Certa vez, o escritor inglês William Hazlitt (1779 – 1830) afirmou que ele é o fruto da ignorância. Mas, na atualidade, apesar de estar consciência coletiva a aceitação das diferenças, o preconceito aparece, até mesmo, em lugares aparentemente composto por intelectuais.

Após três anos de trabalho, Géia deixou a Casa de Saúde de Campinas e fez outro curso de enfermagem. Prestou concurso na Prefeitura do Município e passou em sétimo lugar em 1990 para trabalhar no hospital Dr. Mario Gatti. Na época, já havia passado pela transição: ostentava cabelos longos, usava batom, depilava-se e nutria seios desenvolvidos à base de hormônios femininos.

Chegou bem acolhida pela maioria dos médicos e enfermeiros – não poderia ser demitida por transfobia, afinal era concursada. "Essa é uma excelente dica para as trans, prestem concurso público", avisa. Todavia, enfrentou piadinhas de alguns superiores. Como a de um médico que, sem ver Géia, destilava preconceito contra a comunidade LGBT em uma sala.

Neste dia, Géia escutou: “Estava reparando... só tem viado nesse hospital, hein? Credo!”. E ela retrucou: “Bom meu querido, começando por você, né?”. O médico ficou constrangido e o silêncio imperou dentro do ambiente. Foi uma intervenção necessária. Ele nunca mais fez tais piadas sobre gays ou pessoas trans. “Com o tempo, os funcionários foram me respeitando porque viam que eu era profissional e que só estava lá para ser profissional. Tanto que, depois que esse médico começou a trabalhar comigo, ele viu que o viado arrasa na profissão (risos)!”.


No Gatti, começou no Pronto Socorro (PS) adulto. Costuma dizer que “carregava o PS nas costas”. Pessoas baleadas e esfaqueadas a todo o momento. Era muito trabalho, mas recebia recompensas: elogios pelo excelente tratamento. Um dia, uma emergência tomou conta das emoções da enfermeira Géia. Uma criança chegou ao hospital e foi encaminhada às pressas ao PS. Mas não havia mais tempo, estava muito carbonizada. Não havia o que fazer, estava morta.
“Um barraco tinha pegado fogo. E a criança chegou com 90% do corpo queimado. Estava preta, dura, um carvão. Aquilo me marcou muito, doeu muito dentro de mim. A partir dali, comecei a gostar de cuidar de queimaduras”. 

- Ele se interessou por mim depois de saber que eu trabalhava

- Olha, quem é aquela moça no palco?
- É a Géia, você não a conhece?
- Não, é a primeira vez que venho aqui
- Ela é uma artista da casa. E trabalha em um hospital
- Ela trabalha? Não faz programa?
- Que eu saiba, não.
- E onde ela trabalha?
- No Mario Gatti, aqui em Campinas.

O diálogo entre o estudante de direito e um amigo foi a chave para um futuro romance. Ele queria se relacionar com uma trans, mas uma trans que não trabalhasse com programas. Ou seja, Géia.

No dia seguinte, descobriu o número do telefone do Mario Gatti e pediu para falar com uma enfermeira artista. Identificou-se como um fã à procura de sua musa. Atenciosa, Géia agradeceu os elogios daquele homem, que logo pediu o número do seu celular. Naquela mesma noite, ele ligou, assim como na outra e na outra, durante todo o mês. Conversavam sobre todos os assuntos: vida, religião, direito, trabalho, transexualidade. Apaixonados sem se verem pessoalmente, faziam até sexo por telefone.


O estudante queria logo conhecer aquela trans que mexia com seu coração. Géia evitava, pois tinha medo de se magoar. Ela nem sabia como era o rosto dele! Em junho, finalmente cedeu: ela prepararia um jantar romântico. “Estava tão nervosa que tomei pinga (risos). Era noite e ele se atrasou um pouco. Isso me deixou ainda mais aflita. Não sabia se era gordo, feio, magro. Até que vi o farol e corri para abrir o portão. Entrou em casa e me deu um presente. Era um anjo. Fiquei encantada. Conversamos e rolou o primeiro beijo”.

Aquele beijo demonstrou algo diferente daquilo que viveu em outros relacionamentos. Tinha um carinho, uma ternura que a deixou encantada. Não sabe o motivo, mas estava convencida que teria que transar com ele naquele encontro. Porém, o estudante surpreendeu-a: naquela noite ele disse querer apenas a sua companhia. Era algo realmente diferente.

No dia seguinte, levou a enfermeira ao trabalho e a buscou. Apaixonado, fazia todas as vontades da amada, que retribuía com muito carinho. Não demorou muito tempo e começaram a namorar. “Com ele, tive uma vida de hétero. Frequentava os melhores restaurantes, ia aos melhores lugares. Aprendi muito. Era um cara corajoso, de caráter, honesto. Foi ele que me fez mulher em todas as situações: na cama, na vida social. Mesmo fazendo barba, ele falava que eu não estava me barbeando, que eu estava apenas me depilando. Foi uma mudança radical de vida”.

Tal mudança consistia, porém, em abandonar os palcos, deixar a vida noturna e os sonhos de artista. Por amor, assim fez durante quatro anos. Estava preenchida por um lado, mas sentia-se triste por outro.

Géia ajudou o amado no trabalho de conclusão de curso da faculdade. O estudante abordou a mudança do registro civil de uma transexual e, ao fim, dedicou: “à minha musa inspiradora, Géia”. “Ele sabia que eu tinha problemas com o meu nome. Tanto que não queria que usasse o meu talão de cheques, cartão, quando íamos a determinados lugares. No TCC, ele mencionou meu nome como a musa inspiradora. Foi lindo!”

- Fim do romance


Mas, com o passar do tempo, o amor e o ciúme do estudante começaram a sufocar Géia. Com tanta proximidade, telefonemas e mensagens, não conseguia mais sentir saudades e queria um tempo para estar sozinha ou com os amigos. 

“Ele era maravilhoso, mas queria saber onde eu estava, com quem estava. Era o tempo todo. Não sentia mais tesão, nem queria ficar bonita para ele. Cheguei a sair disfarçada. Rolou uma traição. Não numa questão sentimental, mas paguei para um garoto de programa. Foi horrível, mecânico, não chegou a se concretizar. Mas ele descobriu, pois tinha colocado alguém para me vigiar”.

Acabou o namoro, infelizmente. Para ambos, só restam saudades: “Sei que atualmente ele é casado com uma mulher. Acho, que, se eu tivesse a cabeça de hoje, tudo seria diferente. Se chegar a vê-lo novamente, acho que tenho um enfarto (chora)”.

- Crianças são sinceras

Quando trabalhava no PS adulto, Géia substituía as enfermeiras da ala da pediatria. Isto acontecia todas as vezes que alguma enfermeira estava de folga ou faltava. Muito atenciosa, as substituições começaram a ser frequentes e Géia começou a conquistar o universo infantil.

“Não tem coisa melhor que lidar com criança, porque elas são sinceras. Ou ela gosta ou não gosta. Ou ela quer, ou não quer. E eu sinto que elas gostam de mim. Quando a criança te olha muito, ela não olha apenas você, ela te olha com asas. Está enxergando aquilo que você realmente é. Não estou falando de ser homem ou mulher, estou falando de enxergar a sua essência, a sua alma. Nós somos ninfas para elas, somos fadas”.

O momento mais triste dentro da profissão foi quando teve que tirar uma criança do bebê-conforto, após um acidente violento de carro. Ao entrar no veículo para salvar a criança, a enfermeira viu que ela já estava inconsciente e morta. “Tirá-la sem vida de dentro do carro foi muito triste. Lá, vi que, na nossa área profissional, temos que ser muito fortes. Não foi fácil, mas consegui lidar com a morte. Comecei a vê-la com outros olhos".

No dia-a-dia, afirma não sofrer preconceito dentro do hospital. Os pais dos pacientes, segundo ela, nunca propagaram nenhum tipo de gozação ou chacota. Afinal, sabem que se trata de uma das melhores profissionais da casa. Quando acontece de ser chamada de “tio” por alguma criança, as mães é que sempre tentam concertar: “é tia”.  Géia dá um sorriso e afirma não se incomodar.

Géia mora com a mãe, que é deficiente visual e de quem cuida com o maior carinho. "Não vou deixar minha mãe para ficar com nenhum homem. Ela está em primeiro lugar", afirma. "Eu nasci para os palcos, mas a enfermagem foi a segunda opção que se tornou a primeira. Acho que também nasci para cuidar". 

Hoje, no hospital, para toda criança asmática, com bronquite, pneumonia, que ingere objetos estranhos, poli-traumatizadas, feridas com pedras, que sofreram quedas, diabetes e que foram queimadas, existe uma fada: Géia, a enfermeira transexual e artista.

"Aparecem muitas pessoas que, quando crianças, foram cuidadas por mim e que, hoje, são mães e trazem os seus filhos. O hospital é minha segunda casa, e eles a minha segunda família (chora). 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Sandra CA disse...

Conheci a Géia de vista, incrível, temos um amigo em comum , a conheci em diferentes épocas da vida dela, mas nunca fizemos amizade, que pena, pena que ela se foi, tão cedo, que Deus e os bons espirítos estejam cuidando desta sua passagem espiritual com a mesma atenção , cuidado, carinho, com que ela cuidava de seus pacientes e dedicava a tudo que fez nesta curta passagem pela terra!

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