Pride

Travestis e transexuais não são respeitadas pela imprensa nem após a morte





Uma das maiores lutas do movimento de travestis e mulheres transexuais é o respeito à identidade de gênero, ao nome social e ao tratamento condizente ao gênero escolhido. Porém, o que vemos no cotidiano é justamente o contrário.

A imprensa – ou seja, o quarto poder desta sociedade – reforça o estigma, ajuda a aumentar o desrespeito e a propagar a desinformação sobre o grupo.

O falta de consciência é tão grande que nem mesmo quando uma pessoa trans morre ela tem o nome respeitado. Na última semana, Géia Borghi, de 48 anos, foi brutalmente assassinada no interior de São Paulo. Ela era artista e enfermeira da ala de pediatria do hospital Doutor Mario Gatti, em Campinas, e foi tratada como “homem” pela maioria dos jornais.

Primeiro, o site G1 anunciou que “um homem é morto ao lado de carro em chamas”.  Depois, o jornal Correio Popular fez questão de usar o nome do RG e utilizar todos os artigos masculinos: “Transexual é morto após tortura”. Outros sites, programas de TV e blogs, como o Todo Dia, Revista Arco-Íris, EPTV - também repetiram os erros, utilizando o nome de registro e tratando-a como um homem. 

Mas, afinal de contas, por que isso é desrespeitoso? Nas entrelinhas, a imprensa diz e propaga para a sociedade (já transfóbica) que a pessoa trans nada mais é que “alguém que quer se passar por aquilo que não é”. Uma ilusão, um disfarce, uma farsa, uma brincadeira, um fetiche, um engano. Jamais um ser humano que foi em busca do seu melhor jeito de ser, como uma identidade possível e legítima.

"Olha, ela diz que se chama isso, mas na verdade o nome dela é esse, viu? Não se enganem. É um homem se passando por mulher".

É por conta do desrespeito ao nome e ao tratamento que muitas pessoas trans deixam a escola, são desrespeitadas pelas famílias, enfrentam problemas ao usar o banheiro feminino, no mercado de trabalho (como vão querer contratar e confiar em uma farsa?), sofrem violência na rua...

Embora Géia entendesse que a mãe de 91 anos a tratasse como “filho” e que alguns a chamassem de “Gê”, o nome do RG representou pouco sobre ela nesta vida. O nome Géia “não era apenas como ela preferia ser tratada”, como a mídia noticiou. Géia era quem ela de fato era. Era o nome que ela escolheu, utilizava na vida social, em seu Facebook, nos palcos, para os fãs e amigos. Era o nome que representa a sua... Vida.

Triste saber que, mesmo após ter sido assassinada, Géia continua sendo desrespeitada. 

RIP GÉIA!

* A matéria do G1 mudou o título e respeitou a identidade de Géia e o tratamento solicitado. O novo vídeo da EPTV, contudo, continua tratando-a com o nome de RG e como um homem. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

Anônimo disse...

E infelizmente não vai mudar, lutamos e batalhamos mas não vai mudar essa e a realidade.

Anônimo disse...

Entendo seu ponto e traçando um paralelo, por exemplo, o Lula e o Tiririca, quando citados em reportagens ou até no enunciado do TSE (como devem aparecer na urna) são chamados pelo nome, com o nome público entre " ", ou seja é padrão, não vejo pq tratar um trans diferente, afinal não é por igualdade a luta?!?

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