Entrevista

Dindry Buck fala sobre amores, igreja, carreira e militância: "Ninguém é uma ilha"




Por Neto Lucon (foto: Cris Faga)

A primeira drag queen a gente nunca esquece. São pelo menos 10 anos de um contato verdadeiro, honesto e que evoca a felicidade. Alegria que vem com um fácil e charmoso sorriso, com as cores vibrantes de uma peruca ou de uma maquiagem perfeita - ou até mesmo da sincera cara lavada.

Dindry Buck - personagem do ator, maquiador e jornalista Albert Roggenbuck - é uma das maiores estrelas de São Paulo e também uma das pessoas mais íntegras dentro da sopa de letrinhas.

É artista para todos os telegramas, soldado da alegria em festas infantis, casamentos e até clubes noturnos. É militante dos bons, com linguagem de A a Z. É cristão, filho, amigo, cidadão e, acima de tudo, consciente do poder de se transformar. Seja nos figurinos ou na sociedade.

O primeiro contato com este jornalista ocorreu quando ele sequer era jornalista. E, de maneira simpática, sincera e sem qualquer tipo de segunda intenção, sempre esteve munida de um grande e acolhedor sorriso. É isso que a torna ainda mais fantástica e de verdade.

Agora, 10 anos depois do primeiro contato, ela concede a primeira grande entrevista. O bate-papo foi feito pessoalmente numa tarde fria no Parque Ibirapuera. A mãe de Albert/Dindry, Maria da Conceição, esteve presente e deixou a conversa ainda mais emocionante. Confira:

- A atriz Audrey Hepburn já disse: “Eu amo as pessoas que me fazem rir. Sinceramente, acho que é a coisa que mais gosto. Cura uma infinidade de males e é provavelmente a coisa mais importante em uma pessoa”. Como é...

Que curioso! Quando fui ao programa do Jô (Soares, na Globo), ele me comparou justamente a Audrey e disse: “Você tem muitos traços da atriz, o rosto quadrado, aquela coisa menininha, bonequinha de luxo”. Fiquei lisonjeada com o elogio e, agora, fiquei feliz e surpresa com essa afirmação dela... (risos).

-  (risos) Mas responda, como é trabalhar como drag queen e evocar a alegria e o sorriso nas pessoas?

Quando eu comecei, não entendia essa história de passar na rua e escutar as pessoas gritando. Depois de um tempo, analisando a história toda, percebi que a expressão máxima da alegria é o grito, né? Em um jogo de futebol, o grito de gol é o ápice da felicidade. Portanto, acredito que a drag queen é a mensageira da alegria e que carrega a alegria em todos os elementos. A drag que não sabe tirar um sorriso de alguém não é uma drag completa. Afinal, é importante saber maquiar, se produzir, ter o dom do improviso, mas saber tirar um sorriso é fundamental em nossa profissão.

- Sei que você vai ao trabalho montada, dirigindo... Como as pessoas lidam como uma drag queen motorista, buzinando, no trânsito? 

É no trânsito que já sei como será o espírito do trabalho. Ele é  termômetro. Se alguém mexe comigo, faz uma brincadeira, eu começo a ver que o dia está apto, que o povo está aberto. Mas quando é um dia sombrio e as pessoas não notam, eu sei que o termômetro pode não ser tão legal. E é fato: as pessoas estão mais mornas e, por mais que você dê mais de si, que faça piadas gostosas, o povo fica mais fechado. Então, eu gosto que gritem e mexam comigo, sim.



-Em sua entrevista na BBC, você diz que a drag queen não sofre preconceito quando está montada. O humor quebra o preconceito? 

Totalmente! O humor tem uma ação imediata e atua como remédio. As informações passadas com humor entram mais na pessoa e atinge o objetivo que uma informação passada por alguém totalmente sério. Você pode reparar que o professor mais humorado é aquele que a gente mais se recorda e que mais guarda o conteúdo. O Esquadrão (das drags) surgiu dessa forma.

- No Esquadrão das Drags você é como uma "professora", que orienta de maneira lúdica adolescentes e jovens. Como surgiu a ideia e a necessidade de trabalhar com essa população ? 

A gente precisava levar informação e conscientização para adolescentes e jovens, que vinham da periferia de São Paulo para o centro, e que não tinham limites. Pensavam que lá era uma zona onde tudo era permitido, sem pais ou um adulto. Então, eles bebiam demais, alguns entravam em coma alcoólico, alguns transavam em praça pública, destruíam a vegetação da Praça, pichavam, as obras de arte... Chegamos com os elementos da cor, da diversão, da irreverência e do bom humor com o objetivo de atingir essa parcela da população. E conseguimos falar sobre questões LGBT, bem como sobre direitos e deveres de cidadãos.

- Mas eles aceitaram logo no início? 

Não. Nas duas primeiras semanas foi complicado.  A gente chegou e eles pensaram: “Ixi, elas chegaram, vão colocar limites e vão tentar consertar alguma coisa”. Mas depois eles mesmos começaram a contar os problemas, as situações familiares. Virou uma experiência muito gostosa e ganhou tal espaço que já fomos para outros lugares não só da cidade mas do Estado.

- Por qual motivo você escolheu ser uma drag que, além de levar humor, também carrega em seu trabalho a militância? 

Ninguém é uma ilha, né, a gente vive em sociedade. Então você tenta se mudar, tenta mudar ao seu redor e as pessoas, que passam a se sentir bem, também se tornam multiplicadoras e vão fazendo a sua parte. O objetivo é construir um mundo melhor, onde as pessoas convivam melhor em sociedade, em harmonia, respeitando as diferenças.

- Ok, Dindry, mas a maioria das drags não é ativista. Assim como muita gente, elas só fazem o trabalho, guardam a peruca e tchau. Ocorreu algum episódio para você ter a veia do ativismo? 

Eu venho de uma formação cristã, pois sou católico. E o catolicismo prega isso: você tem que amar o próximo, construir um mundo melhor e tentar fazer com que esse próximo viva com o mínimo de dignidade. Eu estava dentro da igreja e participava de um monte de grupos de jovens e pastorais, grupos de jovens (a parte cênica) e a pastoral litúrgica (cantos), sempre foram o meu forte. Vim de Minas para São Paulo e, depois que eu me descobri, conheci o movimento e participei da segunda Parada (do Orgulho LGBT). Até então, sentia que era o grupo que mais sofria preconceito, inclusive dentro da própria igreja. Depois da Parada, fui conhecendo as pessoas e não parei mais...

- Por qual motivo você acha que as demais drags não são militantes? 

Talvez elas não tenham pego o começo da história. Os primeiros shows na Feira da Diversidade, por exemplo, foram totalmente voluntários, não tinha cachê, não tinha nada. Você preparava o seu número, representava uma casa noturna – na época, eu fazia a Freedom e Planet G – e fazia aquilo só pela causa, pelo amor. Nós levávamos em conta que estávamos numa feira do movimento LGBT e que era a forma de mostrar o nosso trabalho e, de uma forma direta ou indireta, mostrar que a diversidade na comunidade existe. Até hoje vou à Parada porque encaro que é uma forma de a gente estar lutando. Eu entendo que as pessoas precisam sobreviver e de dinheiro, mas existem momentos na vida que a gente tem que saber se doar. E o universo vai se abrindo e conspirando ao seu favor.



- Todos os anos há a discussão sobre a validade das Paradas. Você acha que ela está ok da maneira que está ou você acha que ela pode ser melhorada? 

Eu vejo a Parada assim: A gente luta 364 dias por ano e a Parada é como se fosse a comemoração da luta. É tanto irmão morrendo, sendo agredindo, seja fisicamente ou verbalmente, e os movimentos estão lutando, ainda não temos leis para criminalizar esses crimes. Então chega a Parada e é o nosso respiro. Existe o momento político, mas tem a hora de você comemorar, de ser feliz, que está ali naquele momento para se mostrar, para beijar na boca. Não existe o carnaval, em que as pessoas saem da realidade dura e vestem a sua fantasia? Então encaro a Parada da mesma maneira, de ser feliz e de mostrar para o mundo a felicidade.

- Vamos voltar um pouco... A sua vida foi marcada por inúmeras situações de preconceito. A começar com você sendo filha do padre da cidade. É isso mesmo?  

Sim, sim, vou contar. O meu pai era padre e a minha mãe se apaixonou por ele. Eles acabaram se envolvendo e eu nasci. O meu pai continuou como vigário da paróquia, mas imagine como a cidade caiu em cima da minha mãe? Ela fez de tudo para me proteger, mas o povo sempre dizia na rua: “Olha filho do padre, olha filho do padre”, tinha até a conversa de que eu vivaria Lobisomem. Chegou um ponto que eles não me atingiam mais e, como eu era delicado, eles me chamavam de “mulherzinha, bichinha...” cheguei até ser agredido fisicamente porque não revidava aos insultos. E aquilo foi criando uma couraça em mim, me machucava mas me fortalecia. Quando eu fiz 17 anos, vim para São Paulo e fui acolhido por uma família maravilhosa – uma viúva com 14 filhos. Eles nunca questionaram sobre a sexualidade e os primeiros shows eu fiz na casa deles, nas festas de Natal.

- Com a formação católica, você já tinha dado o primeiro beijo antes de vir para São Paulo?  

Com 16 anos, eu dei um beijo em uma menina e não gostei da história. Eu fingia que era apaixonado por ela, dei o beijo, mas não teve nada demais. Depois, vim para São Paulo e aí fui fazer faculdade, fiz comunicação social e paralelamente fazia aula de teatro. Daí me formei, sem beijar ninguém. Com 22 anos, minha mãe veio para cá e comecei a frequentar uma paróquia. Tinha um grupo de jovens que a gente ficou próximo e existia um rapaz que era apaixonado por uma amiga. Um dia, na porta da igreja, foi onde rolou o primeiro beijo, aos 25 anos.

- Mas ele não era apaixonado pela sua amiga? 

Foi ela quem pediu: “Você só vai me beijar se você beijar o Albert” (risos). E ele me beijou. Parecia que eu estava flutuando, vim sonhando e achando que ele seria o homem da minha vida. Para mim foi algo realmente significativo e para ele provavelmente não. Depois ele conseguiu ficar com a menina e hoje está casado com outra mulher. E com 27 anos, eu perdi a virgindade.

- Essa espera gerou uma expectativa ou você lidava tranquilamente? 

Tinha época em que eu ficava na maior deprê porque eu ia para as boates e pensava: “Meu Deus, ninguém me quer, ninguém olha para mim?”. Eu não sei se era essa carga toda do preconceito, essa pressão, de me fechar e não me abrir. Então, eu nem queria ir pois pensava: “Eu vou, todo mundo vai ficar com alguém e eu não vou ficar com ninguém!!!”.

- Você já disse: Gay fica com gay e não gosta de drag. Continua assim?

Continua. O único gay que gosta de drag é o que está atrás (o assessor de Dindry, no banco de trás do carro). É a coisa do preconceito dentro do mundo GLBT. É o gay masculino que não gosta do gay feminino, e daí a drag já tem o lado feminino que ele não gosta... E vai surgindo a coisa do preconceito. Quem fica mais com as drags são os t-lovers, que gostam da trans e que ficam com as drags, pois eles vêem nelas quase uma trans.

- Você já viveu o seu grande amor? 

O meu grande amor é a minha mãe. Mas sou uma messalina. Hoje, não tenho amor, tenho amores.

- Algumas drags começaram a se assumir trans, como a Nany, a Leo, a Paulette. Já passou pela cabeça ser travesti ou transexual? 

Nunca. O legal para mim é montar e, em determinado momento, tirar tudo aquilo. De menino sou tão largado, a roupa que mais me identifico é uma camiseta e um short. Além disso, no meu trabalho de telegrama não funciona (ser trans). O legal da drag é saber que por trás daquilo ali tem um homem vestido de drag. Um homem que não tem peito e que, por mais que seja feminino em toda a sua essência, é um menininho como qualquer outro. Essa é a magia da história.



- Você já disse que a Dindry surgiu do teatro e que se inspirou em heroínas dos quadrinhos. Gostaria de saber quais são essas heroínas e como surgiu a composição da personagem? 

Sempre gostei do visual e da personalidade da She-Ra, daquela coisa da Mulher Maravilha de ser reservada e depois se transformar... Então é assim, o Albert é uma coisa – mais tímido e reservado - e quando se transforma em Dindry é outra completamente diferente. O teatro me ajudou muito, pois, além da questão do texto, me incentivou a desenvolver a técnica do improviso. Comecei primeiro como transformista e o Eduardo Moraes (jornalista) me falou antes de ir para um evento do Mix Brasil: “Se você não mudar a maquiagem e o seu jeito de vestir, acho que você não vai acontecer. Ouse mais”.

- Daquele jeito bem “delicado”, “carinhoso”, mas sincero e necessário do Edu, né?

Exatamente (risos). Na época, eu não era muito amigo da Sissi, pois a gente se conhecia de uma ou outra ocasião. Eu só pensava: Como eu vou me tornar uma drag? O Marcos Gutierrez me emprestou uma roupa de onça e eu coloquei um buá (adereço de penas) na cabeça e exagerei na maquiagem. Assim que cheguei ao evento do Mix Brasil veio um cara da Folha de São Paulo e foi a minha primeira reportagem. Foi uma página inteira e, de lá para cá, fui me aperfeiçoando.

- Vou te confessar uma coisa. Acho que se eu começar a me montar, não vou parar mais (risos). Com você rolou esse tipo de pensamento? 

Eu tinha as minhas restrições. O rapaz que me maquiou a primeira vez, falou: “Vamos te transformar”. E eu falei: “Mas por qual motivo? (risos)”. E quando eu olhei no espelho não acreditei que era eu quem estava ali. É um choque e uma coisa deliciosa, pois podemos viver outra pessoa. Quando surgiu o papel no teatro – uma empregada, de cabelos básicos e quase sem maquiagem, algo transformista (da peça Fulaninha e Dona Coisa, de Noemi Marinho) -  eu encarei como estava vivendo uma personagem. Mas a Dindry, não. Por mais que ela seja uma personagem, é o Albert como Dindry.

- Vejo que muitas drags carregam o sobrenome de outras porque foram amadrinhadas. Mas o seu sobrenome é só seu. Você não se inspirou e não teve referência de outras drags? 

Foi o Roberto, meu saudoso afilhado, que me levou para conhecer (a noite gay). Um amigão, Ivo Brasil, fez a minha primeira roupa, o Ricardo Antunes fez a minha maquiagem, então não tive a referência de ver uma drag se maquiar. Eu fui criando a Dindry da minha própria imaginação, tanto que para ter a mudança da transformista para a drag foi complicado e eu precisei desse empurrão do Eduardo. É por isso que eu criei a Oficina de Montagem. Como eu não tive isso no começo da minha carreira, é legal fazer isso para que outras pessoas tenham uma referência e saber o que é uma drag queen. Tem gente que pensa que drag é a “rainha dragão”, mas não. Se você ver a etimologia da palavra: DRessing At Girl significa: vestida como uma garota. Tem gente que pensa que drag é algo novo, mas o transformismo é tão antigo quanto a humanidade, prova disso é o teatro Grego, Joana D´Arc.

- O seu forte são os telegramas, mas sei que já trabalhou como hostess. Você já fez show de dublagem? 

Já fiz dublagem, já tive até especial de Dindry... Tudo começou quando o Ricardo Medeiros, que está agora no Sul, me viu andando na rua e disse: “A Freedom tá passando por uma reformulação e está precisando de uma hostess para ser a cara da casa. Como você é desconhecida da noite, eu queria levar você para lá”. Fui trabalhar na Freedom e o povo gostou tanto que algumas pessoas pensavam que eu era a dono da casa (risos). Na segunda-feira, tinha um quadro que era o “Invasão de Privacidade”, em que eu entrevistava personalidades da noite com a assessoria do Eduardo Moraes, como a Nany People, Léo Áquilla, Dimmi Kieer. Nesta época, o Rubens, dono da Planet G viu e falou: “Nossa, a gente precisa de você, porque você tem a cara do centro e o povo gosta de você”.Ele conversou com o dono da Freedom, o Marcos e foi feita essa dobradinha.

- Nessa época, você conhecia a Sissy Girl? 

A gente se conheceu no Ponto G, grande SexShop, quando eu trabalhava no departamento de criação do mesmo.  Depois fomos contratadas para trabalhar numa casa LGBT em que o público era o pessoa da meia idade, na Amaral Gurgel - Daddance. Era eu, a Sissi e a Bianca Campbell. De lá saiu esse laço de amizade. Tanto que na Planet G e na Freedom fizemos uma dobradinha. Quando uma estava numa casa a outra estava na outra. Era a época das vacas magras, muito trabalho e sem carro, imagine carregar sacolas de roupa, maquiagem, peruca dentro de ônibus lotados, altas madrugadas...

- Algumas pessoas não sabem, mas você é a primeira drag queen brasileira a participar de um reality show, o Tá na Mão, da Band. Como surgiu essa oportunidade? 

Havia um cara que frequentava a Freedom e que também trabalhava na Band. Ele falou: "Assim como a Casa dos Artistas colocou a primeira travesti (a Bianca Soares), a gente quer colocar a primeira drag num reality show". E lá fui eu conversar com a Marlene (Mattos)... Ela gostou do fato de eu ter ido desmontado, porque a ideia era eu participar desmontado e, caso eu perdesse ou ganhasse, que fosse montado para dar todo o close no fim do programa. Ela me escolheu e eu participei. Foi maravilhoso. O povo da Freedom apareceu em peso lá no Shopping, onde ocorreu a gravação. Mas eu encarei mais como uma forma de aparecer na mídia, porque como o prêmio era um carro, na época eu nem dirigia e nem queria dirigir. Foi legal porque me projetou e o povo começou a conhecer a Dindry.



- E como você entrou para o mundo dos telegramas? 

Quem me apresentou foi a Sissi. Ela foi me passando as coordenadas. O primeiro foi uma tragédia, eu cheguei, sentei no sofá da casa do homenageado – lembro-me como se fosse hoje – e fiquei conversando com ele. A coisa evoluiu de uma forma, que chegou um ponto que não dava para conciliar o trabalho da noite e os eventos. Pintavam eventos de fim de semana e o cachê de um evento é bem bem maior que o cachê da noite. E eu falei: tenho que optar e focar nos eventos, montar uma empresa e tudo mais. Sabia que teria que abandonar e só aparecer esporadicamente na noite. Geralmente me chamam para ir a uma boate do interior, e a gente vai, preparo um número e vou na cara e na coragem, isso raramente, pois final de semana é fogo.

- Quais são os telegramas mais inusitados que você teve que ir? 

O mais inusitado ocorreu em uma festa infantil, onde eu tive que ir de índia. E era tão interessante, porque na recepção do hotel eles colocaram índios de verdade, que eles trouxeram de uma tribo. Era uma mansão chiquetérrima. Como não tinha uma roupa de índia, coloquei um sutiã de penas, uma saia de penas, um cocar, e fui com a barriga de fora. Não fazia parte da minha personalidade, mas as crianças adoraram e falaram: “Nossa, é a Barbie” (risos). Foi um evento inusitado. Também já fiz um chá de bebê em que o marido falou algo que me deixou desconcertada. Disse: “Ela é mais gostosa que você”, na frente da esposa. Jesus, contei até 10, abriu um buraco, o homem conseguiu me tirar do eixo, mas a esposa levou de boa.

- Algum bafo com algum famoso? 

As pessoas criam a imagem de alguns artistas e às vezes a gente fica desconfiada. Falaram, por exemplo, que o Antonio Fagundes era um cara chato, fechado. Mas quando ele viu a gente em três espetáculos que fomos na estreia, ele foi super simpático, veio, tirou foto.,, Foi um fofo. Outro que deixou a gente encantada foi o Julio Rocha, que chegou, pediu licença e disse: "Eu queria muito que minha namorada tirasse uma foto com vocês". Eu achei uma coisa linda, pois ele nos tratou como se nós fôssemos as celebridades. Esses atos de humildade é o que nos encanta e é o que falta no mundo.

- Sei que a Sissi emociona com facilidade. O mesmo ocorre com você? 

Ela é chorona, mas eu não sou. Por mais que eu seja afetuosa, eu não me emociono nos trabalhos. Acho que, como tenho essa coisa do jornalista, tento não me envolver . Já a Sissi vai fazer casamento e vai às lágrimas. Ela participa da história e eu falo: "Vai estragar a maquiagem" (risos)". Eu me encaro como um produto contratado, que vai levar a alegria e emocionar os presentes. Em 15 anos, já vi muitas histórias e discursos emocionantes, mas nunca chorei. Me seguro.

- Quais são os elementos básicos que uma pessoa precisa para montar uma festa babado?

A festa deve ter gente animadíssima, uma comida maravilhosa, bom DJ que saiba tocar e que toque as músicas que o povo goste. É muito bom pensar nas pessoas que vai convidar, pois há muita gente que não se enturma.

- Em qualquer festa cabe chamar uma drag?

Claro! A drag é a cerejado bolo! É importante deixar claro que a drag não tem um trabalho para zoar ninguém. Pois tem muita gente que liga e pede: "Quero que você zoe o meu amigo". E eu digo que o nosso trabalho é para animar e deixar todo mundo feliz. Mas há drags que vão para tirar sarro e acabam denegrindo a nossa imagem. Há profissionais e profissionais. Eu recebo muitos elogios porque tenho um jeito sutil de falar algo que soaria como sacanagem e faço dinâmicas em que todos participam.

- As drags que fazem telegramas são unidas, em relação a cumplicidade, respeito pelo trabalho e valores?

Infelizmente não. Eu e a Sissi temos um trabalho muito legal porque, antes de sermos drags, somos amigas. E a gente nunca teve problemas em relação ao dinheiro e sempre prima pelos valores  de casa para não passar a perna. Mas o meio das drags é complicado. Quem está começando e não tem produção, começa cobrando mais barato para fechar mais trabalho. Há outros que ligam para o telefone pedindo o contato de outra e a pessoa diz: "Mas nós temos a melhor de São Paulo" e não passa. Nunca tive problema com isso; se a pessoa liga para mim, pedindo o contato de outra é porque ele gostou do trabalho da outra e se identifica com o mesmo, se tenho o contato passo sem problemas. Mas a diferença é gritante. O mercado é competitivo, mas se pararmos para pensar: São Paulo tem mais de 5 mil festas a cada fim de semana. Então, tem trabalho para todo mundo.



- O que você acha das drags da nova geração? 

Falando das drags que fazem show... Bom, é um pouco complicado opinar, porque elas estão na vibe do bate-cabelo, do bate-cabelo, do bate-cabelo, e vejo que esquecem da performance em si. Tá como Gremelim, jogou água, vira drag, mas fica difícil de "acontecer". Nós temos drags maravilhosas da noite, como a Lysa Bombom e Alexia Twister. Ia me esquecendo, as Deendjers são uma supresa e tanto, uma novidade deliciosa.

- Mas a Lysa não é da nova geração, né? 

Não é, mas é uma pessoa que a nova geração deveria pegar como referência. Deveriam se espelhar nas drags que têm história, que sabem o motivo de estarem no palco. A falta de referência faz perder o glamour. Tanto que o único espaço que investe em um show de qualidade é a Blue (Space). É onde elas conseguem mostrar o trabalho, reflete como uma vitrine para elas serem convidadas para outras casas.

- Outro assunto que gostaria de abordar é da sua presença dentro da Igreja Católica. Apesar da nova vertente promovida pelo papa Francisco, o que pensa de uma religião que já teve momentos como a inquisição? 

A igreja é feita por homens. O homem é um ser humano falho e pecador. Vejo esta fase da inquisição como  sombria, um período em que o povo interpretava a Bíblia ao pé da letra. Mas a igreja tem que acompanhar a evolução da humanidade e, felizmente, a igreja foi se abrindo com o decorrer da história. Para mim, religião nada mais é que "religar" o homem ao divino. E você não tem que ter muitos tabus ou obstáculos, senão perde a essência, que é o amor. Na minha comunidade, eu tenho um pároco que é super aberto a todos os tipos de questão. Tanto que ele deu uma entrevista muito bonita quando gravei o Reis da Rua (TV Cultura).

- Eu assisti, ele falou que você é santo...

(risos) Você assistiu mesmo! Depois da gravação, ele me levou para apresentar na festa de fim de ano dos paroquianos. Foi um dos trabalhos mais delicados que eu fiz e que tive medo de fazer. Foi um frio na barriga, mas a receptividade foi maravilhosa. Foi muito legal.

- O que a sua mãe achou de você se apresentar montada na igreja? 

Ela sempre me deu a maior força em tudo. Até mesmo quando eu estava tirando carta e tinha medo de pegar o carro. Ela dizia: "Vai lá, pega que eu vou junto". Já nesta festa da igreja, ela disse: "O povo não tem que pensar nada, pois foi o padre que te convidou". E isso foi maravilhoso. Em outubro, faço a festa das crianças da creche, e elas me adoram e pensam que sou uma bonequinha. E ao fim do ano ainda tenho a festa dos paroquianos. A igreja está começando a se abrir para a questão da diversidade. Se o Papa falou quem é ele para julgar, nenhum padre ou bispo tem que falar mais nada.

(Mãe de Dindry):  Não ofendendo ao dono e à mãe dEle, tudo vale. Quem julga é o criador e mais ninguém.

- Muitos gays não tem esse apoio e incentivo da mãe. Como é ser aplaudida por sua mãe?

Sou filho único e a minha mãe sempre tentou me proteger das maldades do mundo. Ela sempre me apoiou. Não chegou um momento em que eu tive que falar: “mãe, eu sou gay”. Não, ela foi acompanhando o processo. Aí quando eu fui ser drag, ela falou: “Toma o dinheiro, vai lá comprar a sua peruca”. O meu afilhado Roberto arrastava o sofá de casa para ensaiarmos nossas performances, tive aula de postura com ele, como andar de salto com livro na cabeça, ser mais feminina, e a minha mãe falava, sentada no sofá: “Tá muito masculino, faz mais assim”. E a gente foi fazendo a história acontecer. A Sissi sempre fala que ela é a mãe dos gays. A maioria dos meus amigos chama ela de mãe.

(Mãe de Dindry): “Falei: segue a sua vida. Se não está fazendo nada demais, não está prejudicando aos outros...".

- Como é ver o Albert de Dindry? 

(Mãe) É normal. Fica lindo. Muda a fisionomia completamente. Graças a Deus, ele é honesto, não tem nada imoral. Eu me divirto nas festas e, para mim, todo mundo é igual.



- Você acha que a igreja católica vai celebrar algum dia um casamento gay ou é demais? 

O casamento católico é um sacramento cujo objetivo maior é a união de duas pessoas para fins procriativos. Mas a igreja já aceita casais homoafetivos, que comungam, sem segregação. Além disso, surgem as igrejas inclusivas para quem tem essa necessidade. Na igreja católica, isso não vai mudar tão cedo, assim como não vai ter tão cedo uma mulher celebrando a missa. Porque vem de acordo com a Bíblia, que é um livro machista.

- O que achou da notícia de que uma igreja inclusive tem uma drag queen pastora? 

Acho mais que justo. Não é porque alguém está travestido que não vai conseguir levar a palavra de Deus. Ao contrário, se ela consegue levar a palavra desta maneira - e cativa as pessoas dessa maneira - é mais que justo. É claro que ninguém deve ir à Igreja por causa de um padre ou pastor, mas se aquela pessoa serve de instrumento para estar mais perto de Deus, é válido. Você sabia que na década de 50 foi a igreja católica quem autorizou a travesti Coccinelle a fazer a mudança de sexo?

- Drag tem prazo de validade? 

Tomara que o meu prazo demore (risos). Este é o meu ganha-pão, a única fonte de renda. Estou super feliz, o retorno é grande, dá para viver bem. Sobre a validade, temos a (Miss) Biá com seus 70 e poucos anos e que ainda se monta. Ainda tenho uns bons anos de validade...

- Para finalizar, o que te faz chorar? 

Tem momentos que me deixam triste, algumas situações desagradáveis, saber que por mais que a gente lute vem alguns deputados e líderes fanáticos para tentar jogar tudo por terra. Dá vontade de chorar quando notamos que a sociedade evolui e ao mesmo tempo dá 10 passos para trás. Mas não podemos desacreditar. A fé é o que move o ser humano. Quando você desacredita, deixa de sonhar e deixa de querer tentar algo melhor, você deixa de viver e apenas vegeta. Não podemos perder a ternura JAMAIS.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

Ricardo Rocha Aguieiras disse...

Achei linda, profunda e perfeita a entrevista, com uma das pessoas mais admiráveis que tive a oportunidade de conhecer, pouco mas tive. Ela é brilhante e posicionada, é o que importa" Adorei o Jô a comparar com a Audrey Hepburn, ele acertou em cheio! Que ela brilhe sempre e seja sempre feliz, sempre!!!!
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Guardarine, M.I. disse...

magnífica entrevista.... foi passando um filme na minha cabeça dos momentos onde estava presente ou acompanhei por fotos e falas tua..... é isso.... apenas continuar teu trabalho que é magnífico..... que o restante (a recompensa divina e humana) vem naturalmente, ou seja pelos desígnios de Deus: vc leva amor e alegria seguindo a Cristo Jesus. E, pelo lado humano: saúde, dinheiro e amor desse povo que gosta muito de ti.

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