Pride

Homem trans relata confusão e agressão ao ir a banheiro masculino em clube

O banheiro voltou a ser um dilema de preconceito na vida das pessoas trans. Desta vez, envolvendo Bernardo Gonçalves, um homem trans de 21 anos, que foi proibido e agredido nesse sábado (17) ao tentar usar o banheiro masculino do clube Seven Pub de São Carlos, interior de São Paulo.

Com exclusividade ao NLUCON, ele faz relato em primeira pessoa do drama que viveu:

Sexta-feira, ultimo dia de férias, calor muito forte pra ficar em casa. Opa, convite pra cerveja com os amigos, quero? Por que não? É a primeira vez que vou sair de casa sem fazer a barba. Tudo bem que quase não parece uma barba, mas já da pra ter uma esperança pequena de que essa noite não vou ouvir os temidos pronomes femininos, ou que pelo menos vou usar o banheiro sem o olhar de desconfiança das pessoas sobre o volume na minha blusa, muito característico do meu peitoral feminino (que ilusão).

Entre uma conversa e outra precisei ir ao banheiro. É sempre a mesma luta, o mesmo drama, sempre o mesmo medo de ser reconhecido como alguém que não deveria estar ali, ou como alguém que se quer deveria existir. Encosto na parede, coloco os ombros pra frente e faço pose de cara mau, fecho a cara e apenas torço pra que a fila ande rápido e eu possa me aliviar em paz (outra ilusão).

Ouvi uma voz no final da fila que gritava para os quatros cantos: "Quem tem pinto aí? Vai mijar em pé? Porque eu sou homem de verdade e eu tenho prioridade porque tenho pinto e quero mijar primeiro". Olhei na direção da voz, tentei levar na esportiva, já que claramente o sujeito estava se referindo a mim. Olhei para ele e disse "”Amigo, todos vamos usar o banheiro , apenas aguarde a sua vez". Ele não gostou.

O homem disse que eu deveria usar o banheiro feminino porque tenho "boceta". Eu disse que ia usar o banheiro que eu quisesse e entrei. Assim que atravessei a porta senti algo me puxando pela camisa. Ele olhou pra mim e disse que eu não iria usar a "porra do banheiro " porque eu sou "sapatão". Tentei me afastar, ele tentou me acertar. Outros caras que estavam na fila tentaram tirar o homem de cima de mim, minha camiseta rasgou, justamente no peito, deixando-o a faixa que uso para comprimir os seios à mostra.

E de repente a minha simples ida ao banheiro virou uma demonstração pública do que eu tenho esconder todos os dias. O homem olhou para mim, riu e disse "Está vendo, tem até teta essa porra". Eu preferia que ele tivesse me acertado um soco. Tudo o que aconteceu depois disso fui um borrão, eu ainda não consegui entender se ele foi retirado da fila. Eu simplesmente entrei no banheiro e fiz o que tinha ido lá para fazer. Saí do banheiro, morrendo de vergonha, desejando mais do que nunca ir para minha casa, ou pra qualquer lugar em que pudesse ser acolhido.

Voltei para perto dos meus amigos e disse " acho que preciso ir embora , minha roupa está rasgada". Relatei o que houve , e eles ficaram revoltados, procuramos a segurança do bar. Quando encontramos o segurança, ele e o dono do bar já estavam cientes do ocorrido e tentavam encontrar o homem que me agrediu. Quando encontramos, fomos até ele para conversar e esclarecer o fato. Acho que até esse momento minha ficha não tinha caído. Eu algum momento da conversa , a companheira do homem que me agrediu chegou, e começou a enfiar o dedo na minha cara, dizendo que eu deveria me tocar que tenho "perereca". E o diálogo que seguiu daí pra frente foi mais ou menos assim:

" Se você nasceu com boceta, aceita que tem boceta e não fica querendo ser homem porra". "Sinto muito, mas você não deveria usar o banheiro masculino, porque você é mulher e isso não é correto". Respondi: "Eu sou transexual e tenho o direito de usar o banheiro, sou protegido pela lei " . Ele disse: “Su sou militar e conheço a lei, o estabelecimento não é obrigado a aturar esse tipo de sem-vergonhice, se você é mulher se põe no seu lugar. Você tem pinto por acaso?". "Não, eu não tenho...mas existem leis que me protegem, acho que você precisa estudar mais"


Meus amigos preocupados com o que poderia acontecer, me tiraram de perto e me levaram para longe. Quando cheguei a minha casa, pensei em jogar fora aquela camiseta e apagar esse dia. Passei algum tempo analisando a situação e decidi me posicionar publicamente sobre o que aconteceu comigo. Tirei uma foto, ainda chorando, e tentei escrever resumidamente o que aconteceu comigo. Eu não fiz isso só por mim, fiz isso por todas as pessoas transexuais que são discriminadas, odiadas e privadas de seus direitos mais básicos, sendo resumidos apenas a seus órgãos genitais. Recebi milhares de mensagens de apoio de pessoas trans, cis, militantes, mães.

É muito gratificante ver que a nossa causa tem muito mais agregados do que nossos olhos podem alcançar. Eu não pretendo processar ninguém, a humilhação que sofri não pode ser paga com dinheiro. Também não quero responsabilizar o proprietário do estabelecimento, acredito que ele não pode ser culpado pela opinião e atitudes das outras pessoas, mas pretendo junto a ONG pró LGBT da minha cidade , acionar o estabelecimento para uma ação de conscientização, é um local que atende muitas pessoas transexuais.

Recebi algumas criticas também, por ter me exposto. Mas não pretendo ficar sentado na minha zona de conforto enquanto milhares de pessoas são agredidas física e verbalmente. O que aconteceu comigo, não foi nada perto do que poderia ter acontecido, eu poderia ter sido seriamente ferido e isso é inaceitável. A única maneira de conseguir nosso espaço é lutando e nos unindo. Uma grande amiga trans-mulher que infelizmente faleceu no ano passado, me disse uma vez que todos nós temos o direito e o dever de ser quem somos. Eu penso nisso todos os dias, e estou decidido a não me calar sob qualquer ameaça de transfobia. Coloquei a camiseta rasgada na minha parede para me lembrar todos os dias que não existe conquista sem uma boa luta, e eu estou disposto a lutar.

(Bernardo afirmou que irá levar o caso para o conhecimento da Divisão de Políticas para a Diversidade Sexual. Ele quer propor uma capacitação para funcionários do bar e a solicitação de banheiros sem diferenciação por gênero, uma vez que o bar é justamente frequentado por muitos LGBTs).

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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