Pride

Leelah Alcorn, adolescente transexual, comove ao deixar carta antes de suicídio

(Sou contra divulgar notas de suicídio à revelia, porque há um debate nos órgãos de imprensa desde o século 19, que sugere-se que, dependendo da abordagem, a notícia sobre suicídio gera influência no espectador, ou seja, pode provocar suicídio por imitação, uma série de outros atos semelhantes.

Porém, decidi escrever esta porque considerei que o caso de Leelah e o manifesto dela - dentre tantos outros que presenciamos - pode contribuir com a luta contra a transfobia. E por não querer q
ue esta seja mais uma morte em vão por conta do preconceito.

Considero importante dizer que a nota de Leelah Alcorn não seja lida apenas por pessoas trans, que já sabem do que acontecem na vida de uma travesti, mulher transexual e homens trans, mas principalmente por pessoas que são CIS e que, apesar de sempre julgarem e emitirem alguma opinião, não sabe o que é ser trans neste mundo).

Leia o texto:

"Corrijam a sociedade, por favor"

Leelah Alcorn
, uma garota transexual de 17 anos, morreu no último domingo (28), em Kings Mills, Ohio, após ser atropelada por um caminhão em movimento. Mais tarde, uma mensagem apareceu em seu Tumblr e comoveu o mundo.


Leelah havia programado uma carta para ser publicada pouco após a sua morte. E revelava que não se tratou de um acidente, mas de suicídio, uma atitude frente há anos sofrendo com a transfobia e sem esperança. "Se você estiver lendo isso, significa que eu me suicidei e evidentemente não consegui apagar esse post".

Ela contou todas as agressões morais que sofreu da família e sociedade depois que revelou aos 14 anos que não era um menino, mas uma mulher transexual. Ela disse que se percebeu assim desde os quatro anos e que 10 anos depois, quando descobriu a palavra "transgênero", foi conversar com a mãe.

"Mas ela reagiu de forma extremamente negativa, dizendo que aquilo era uma fase, que eu jamais seria uma mulher de verdade, que Deus não cometia erros, que eu estava errada. Se vocês estiverem lendo isso, pais, por favor, não digam isso aos seus filhos. Isso só vai fazê-lo se odiar. E foi exatamente isso que aconteceu comigo", escreveu.

A adolescente disse que chegou a fazer terapia com cristãos terapeutas, que foram preconceituosos, e que nada ajudaram a curar a depressão que sofria. "Só tive mais cristãos me dizendo que eu era egoísta e errada. E que eu deveria pedir ajuda para Deus para mudar".

TRANSFOBIA FAMILIAR

Aos 16, foi proibida de começar a transição e decidiu, então, se assumir gay na escola ao invés de transexual. Mas seus os pais não gostaram mais uma vez. "Eles sentiam-se como se eu estivesse atacando a imagem deles, e que eu era uma vergonha para eles. Eles queriam que eu fosse o perfeito garotinho cristão, e evidentemente não era o que eu queria".

Como punição, os pais a tiraram da escola, o notebook, o celular e a isolou do contato com amigos. "Fiquei completamente sozinha por cinco meses. Sem amigos, sem ajuda, sem amor. Apenas a decepção dos meus pais e a crueldade da solidão". Leelah entrou em uma profunda depressão pela espera pela transição de gênero, pelas amizades desfeitas, pelos amores não correspondidos e pela felicidade posta à prova a todo o momento.

"Já me entristeci o suficiente, não poderia ter uma vida pior. As pessoas dizem que 'tudo vai melhorar', mas não é verdade no meu caso. Fica pior. A cada dia fica pior. Ou viverei o resto da minha vida como um homem solitário que deseja ser uma mulher ou viverei o resto da minha vida como uma mulher solitária que se odeia. Não há saída".

Ela finaliza a carta dizendo que deseja que 100% do que tem seja doado para grupos de ajuda às pessoas trans."O único jeito de eu viver em paz será o dia que as pessoas transgêneros não sejam tratadas do jeito que eu fui, quando forem tratadas como humanas. Gênero precisa ser ensinado nas escolas, quanto mais cedo melhor. Minha morte precisa significar alguma coisa. Minha morte precisa ser acrescida ao número de pessoas transgêneras que cometeram suicídio esse ano. Quero que alguém olhe esse número e diga: 'isso é foda' e corrigir isso. Corrijam a sociedade. Por favor. Adeus".

Na internet, há uma petição aberta para que a família de Leelah coloque o nome social dela na lápide. Você pode assinar clicando aqui .

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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