Entrevista

Professora Bianca Soares diz: “Sou contra guetos; trans deve estar em todo lugar”






Por Neto Lucon

Rara, inusitada, extravagante, indefinível, chocante, curiosa, excêntrica e peculiar. Ou simplesmente Exótica. Era assim que a professora de inglês da rede pública e privada Bianca Soares era conhecida na noite paulistana desde os anos 90.

Mesmo antes de revelar a sua transexualidade nos últimos anos, era uma incógnita e não chegava a ser confundida com as drags. Tinha um visual diferente – fruto da amizade com grandes estilistas – e um repertório que surpreendia o público – evocado pelo amor aos anos 80.

Tem como inspiração Roberta Close, é amiga de Lea T e tem entre apoiadores e amigos Alexandre Herchcovitch, Dudu Bertolini e Johnny Luxo. Hoje, tem como uma das qualidades a autenticidade e o humor ácido.

Sim, Bianca é uma bomba-relógio nas redes sociais e uma das maiores críticas da página NLUCON. Não são raros os momentos em que comenta uma matéria com um grandioso “zzzzzzzz” e que declara não se sentir representada com as, então, entrevistadas.

Aos 39 anos, Bianca continua na ativa. Foi a primeira brasileira a posar para a revista trans francesa Candy. Continua dando aulas na rede pública e privada. Continua se jogando – somente por diversão – nas pistas paulistanas. E foi entrevistada pelo NLUCON ao som de disco music.

Confira:

- Quando falei que entrevistaria você, muitas pessoas questionaram: “Mas não é ela que sempre critica suas entrevistas?” Demonstrar o descontentamento doa a quem doer é uma característica sua mesmo, dentro e fora da internet?

Sou a mesma pessoa dentro e fora da internet. E, não sei se você percebeu, faço críticas para hétero, para amapô, para aluno, para trans... Vejo que as pessoas levam o Face ou o Instagram para um lado muito negativo, divulgando fotos de criança morta, de tiro na cabeça, de gente decepada. Hello, Facebook é para entretenimento. É claro que pode falar de política, de militância, disso e daquilo, mas as pessoas não entenderam que falar só de coisa ruim só atrai coisa ruim. E quando entro nas redes sociais, só vejo desgraça.

- E o NLucon é tão ruim assim? O que te incomoda?

Imagina. Tem muita coisa que eu gosto... Até me emociona, porque você veste a bandeira por uma coisa que não é. Você luta por uma causa, que na pirâmide LGBT é a menor de todas, e que muitas pessoas envolvidas sequer lutam. Isso é muito grandioso. Por outro lado, quando você pega vários exemplos de trans para entrevistas, eu não me encaixo em nenhum deles. E eu critico justamente para você buscar outros meios e outras pessoas que me representam. Bem ou mal, quando alguém vê uma entrevista sua, elas tendem a generalizar e achar que todas são assim. É um molde.




- E qual travesti ou transexual te representa, além de você mesma?

A Roberta Close. Ela não é bem vista por muitas, eu sei disso. Mas é a minha referência. Foi a referência de mulher e de feminilidade para o Brasil inteiro. E tornou-se um ícone porque nunca foi de palhaçada. Vão passar mais quatro gerações e não vamos ter uma do shape da Roberta. Ela soube sair da mídia no momento certo, mas ainda acho que se a Globo colocasse ela em alguma novela – e não esses homens caricatos interpretando trans – iria ajudar muito a causa.

- Além de subir a audiência, né?

Exato!

-Você tornou-se conhecida como Bianca Exótica, uma personagem da noite e da moda. Mas só revelou a transexualidade aos 30 anos. Já tinha consciência de que é trans?

Saio de casa desde os 12 anos e, hoje, tenho 39. Ia para a Boca do Lixo, tinha RG falso e era abusada. Quando criança, eu adorava assistir aos shows de calouros do Silvio Santos e via várias travestis que eu venero pela beleza. Uma vez, meu pai e meu irmão comentaram: “Nossa, que gostosa”. E a minha mãe disse: “Está louco? É homem”. E o meu irmão devolveu: “Não importa, virou de lado e eu como”. Pensei: se ela nasceu homem, conseguiu virar mulher e está gostosa, é isso que eu quero (risos). Tinha a Roberta Leru, Rosa Lubirosa, Aloma. Com 14 anos, falei para a minha mãe que queria virar travesti, mas ela disse: “Pelo amor de Deus, vira gay. Sendo travesti você vai sofrer, vai ter dificuldades para arranjar emprego. Até gay eu aceito”. E eu acabei deixando isso de lado.

- E a transexualidade ficou adormecida?

Que nada! Veio a onda clubber e eu comecei a me vestir de mulher. Pensava que poderia ser gay, me vestir de mulher e, ao voltar para casa de homem. Neto, isso era o que eu tinha. Não estava feliz, mas era o que eu poderia fazer por mim. Até que aconteceu um acidente.

- Segura um pouco. De onde surgiu o seu nome artístico, Bianca Exótica?

Foi graças à Erika Palomino e o Johnny Luxo. Antes, eu tive vários! Um deles foi Bianca Byington, porque todas as amigas que começaram colocavam nome de Globais. Tinha a Camila Pitanga, a Betty Lago, a Malu Made... e eu a Bianca Byington. Só que começou o site da Erika, que pautava a noite gay, e ela me disse que não poderia repetir o nome da atriz, pois as pessoas iriam confundir. Daí ela e o Johnny falaram: “Você é exótica, Bianca Exótica”. Trabalhei no Massivo, na Loca, fiz curtas, desfilei para o Alexandre Herchcovitch, me tornei uma personagem forte na moda e entre os clubbers.

-Você lembra da primeira noite em que você se apresentou?

Olha para você ver como eu era diferente. A maioria começou nas casas gays do centro. Eu não. Comecei em Pinheiros e em uma casa de rock. Fui mais ou menos na linha da Claudia Wonder. E olha que eu não sou do rock, gosto de Disco e Disco Funk. Bom, fui convidada pelo Adriano Costa e o Bispo para me apresentar numa boate chamada Torre do Dr. Zero. Falei: Posso fazer o que eu quiser? E já comecei chegando. Quem me levou para fazer a performance foi o (diretor) Dácio Pinheiro, que gravou. Fui de vestido de paetê da Blumarine, sandália da Beneducci, colar de strass... Comecei a pular, girar e a fazer performance. Você sabe que eu não dublo, né? É um show diferente.

- Sim, sei. Mas explica para os leitores...

O meu negócio é dançar e fazer loucura. É performance e não show. Quem faz show são as divas, Marcinha do Corinto, Natasha Dumont. Eu adorava as músicas de Whitney Houston, Chaka Khan, Diana Ross lado B... E vou te contar uma coisa, eu não era bonita naquela época, mas eu tinha uma postura de mulher linda, porque eu acreditava. Assim como eu acredito que sou uma mulher. Eu acho isso muito louvável, porque quando a gente acredita, o resto é resto.

- E quando você percebeu que o seu nome estava estourado e que você estava famosa?

Comecei a chamar atenção devido ao meu círculo de amizades. Eu não sou uma pessoa de gueto, eu tinha amizade com todo mundo, artistas, estilistas... Com o povo da moda, Alexandre Herchcovitch, Dudu Bertholine, Vic Meirelles, Johnny Luxo. E a medida que ia fazendo amizades, eu fui acontecendo. Fui uma das primeiras a trabalhar com o Alexandre no Mundo Mix, fui uma das poucas fotografadas pelo Terry Richardson, fiz vários curtas, desfilei no Morumbi Fashion, fiz um monte de festa particular e coisinhas que se tornaram coisonas... E fui entrevistada pelo Jô por ser uma professora e ao mesmo tempo querer virar uma travesti.

- Desse seu contato no mundo da moda, como define uma pessoa elegante?

Elegante é você concordar ou não concordar, mas saber respeitar. Deus deu dois ouvidos e uma boca. Então ser elegante é falar menos e ouvir mais. É não ter preconceito, não fazer estereótipos, não prejudicar ninguém. Agora, elegante é também frequentar um lugar bom, um restaurante bom, estar bem vestido como mulher ou homem, dependendo de cada situação. Elegante é fazer high low, misturar Zara, Renner, com Gucci, Hohan, usar brechó. Elegante é fazer amizade, com várias escalas, com criança, adolescente, adulto, pobre, gay, negro, branco, trans... Mas uma pessoa tem o total direito de não gostar de uma trans, porque eu também não gosto de todos os héteros e nem de todos os gays, mas eu respeito. Isso é ser elegante.

- O que tem no seu guarda-roupa?

Estou sempre bem vestida, sou vaidosa... Já fui para Nova York, Europa, estou sempre ligada. E não tenho vergonha de falar que ganho muita coisa dos meus amigos. Ganho, ganho, ganho. Mas aquilo que não é acessível eu ganhar, eu compro em vezes. Tenho uma bolsa Chanel Lego. Eu tenho roupa de estilistas lado B, Old School, Laya. Mas eu também tenho Versace, Cavalli...

- Como você avalia a noite dos anos 80 e 90 para a noite de agora?

Quando comecei a noite já não era muito boa comparada às antigas. Mas eu vibrava porque era adolescente. Chegava a me montar dentro do trem, morrendo de medo de apanhar da torcida. Mas eu acho que a noite de hoje deixa a desejar para a noite do meu tempo, e a noite do meu tempo deixa a desejar para a noite mais antiga. Hoje você não vê mainstream, mistura. Ainda é gueto. Fora os lugares que a transexual vai e é mal tratada. O staff fica tirando sarro, diz “olha ela quer você”. Parece que tem um treinamento para a gente não ser bem tratada. E estou falando de lugares gays.

- Existe algo que você gosta e que venha da nova geração?

Nada (risos). Eu não gosto nada da música, mas o estilo, o styling, a moda que ela ditam eu adoro. Lady Gaga, Beyoncé... Claro, elas vestem grandes estilistas e grifes... Eu gosto de tudo o que remete ao antigo. Então, dublagem chiclete, Lady Gaga, eu detesto. É como se eu fosse uma velha ranzinza falando de adolescente. E é natural uma transexual mais velha torcer o nariz.




- E o que acha das artistas que trabalham na noite da nova geração?

Uma vez a Roberta Close falou no Jô e no Faustão que não era parâmetro para ninguém. É isso, eu também não sou parâmetro para elas.

- Bom, paralelo à carreira na noite, você não deixou de ser professora de inglês. Foi difícil não se deixar levar pelo glamour e a ilusão da noite?

Sinceramente, graças a Deus nunca dependi da noite. Independente das festas, sete horas eu estava na escola dando aula. Sabe aquela coisa de viajar na maionese e pensar: “Vou largar tudo para virar na noite”? Nunca! A escola sempre foi a minha base. Acordo às 7h da manhã e vou dormir às 23h. Tenho uma carga horária de 50h de trabalho, dou aula em quatro escolas, três particulares e a noite na pública. Ralo muito. As pessoas acham que eu vivo de noite. Mas a noite é só um anexo, diversão. Mas eu garanto que sou muito mais bem tratada no meu trabalho que na noite.

- O que te motivou a revelar a transexualidade, foi o acidente?

Em 2009, eu estava de madrugada indo para o D-Edge, quando veio um motorista bêbado e me arrastou. Quase morri e fiquei um mês no Sírio Libanês. Fui desenganada pelo médico, que disse que eu ficaria tetraplégica. Mas em quatro meses eu consegui me recuperar com a fisioterapia e com as orações da minha mãe. Fui na cabeleireira e ela disse: “Bianca, Deus te deu uma segunda vida, você não vai querer ser igual à gente, transexual?”. E a minha melhor amiga também disse: “Está na hora de se decidir se quer ficar se montando pelo resto da vida, sendo que você não gosta, ou se vai assumir quem você é”. Eu comecei a chorar. Eu nunca fui confundida com drag queen. Era sempre andrógina, mulher, travesti, sempre como travesti.

- Foi da morte para a vida que você resolveu ser feliz... Como foi assumir-se trans aos 30?

Foi da vida para morte ou da morte para a vida. Fui ser eu. Com os meus defeitos e qualidades. Comecei a fazer a reposição hormal, coloquei as próteses, fiz o meu nariz... Fui para a Taiândia, operei e mudei todos os meus documentos. A minha mãe foi a minha luz, pois me disse: “Você tem que dar tempo ao tempo”. Eu perdi por um lado, pois todas as minhas amigas foram ser trans no auge da beleza. Foram para a Itália, foram ser cabeleireira. Eu não. Fui ser professora, que é o que eu sei fazer. E como é que há 21 anos a gente teria uma professora transexual na rede pública e particular, do jeito que o Brasil manda embora por qualquer coisa?

- E como que a escola encarou o processo transexualizador?

Foi maravilhoso. Porque todos acompanharam: família, amigos, alunos, professores. Não foi numa sexta-feira que eu sai de homem e voltei segunda de mulher - como muitas fazem. Fiz os meus alunos e professores, querendo ou não, a me respeitar, a acompanhar tudo. Sempre questiono: que educador é esse que não respeita a diferença? E sempre prego: você tem o direito de não gostar, mas tem que me respeitar. Na sala, por exemplo, tenho alunos que usam drogas, eu não gosto, mas eu respeito. E ele me respeita, é uma troca. Fora isso, como eu sou uma pessoa conhecida, as pessoas querem ser minhas amigas.

- Bianca, pelo que você fala foi uma maravilha. Não teve situação de preconceito, dificuldades?

Já lidei com pais preconceituosos. Já fui mandada embora da Prefeitura de Barueri. Eles alegaram outras coisas, mas foi preconceito, eu sei. Mas fechou uma porta e abriram 10 janelas, mas por conta da competência. Nunca fiquei desempregada.

- Como é a sua relação com os alunos?

Existe preconceito, mas eu estou lá para isso. Estou lá para ser cobaia e ver o que acontece. Você acha que um aluno nunca me chamou de viado e traveco? Já, vários! Mas eu vou mostrar para ele que eu sou tão boa, tão competente, que gosto dele tanto como aluno, que no fim do ano ele vai me pedir desculpas. Vários já pediram. Você tem que ganhar o aluno. Eu sou rígida e muito, muito, muito respeitada.

- Com esta sua personalidade forte, como lida com as situações de preconceito no cotidiano?

Ai, que pergunta difícil. No meu trabalho, tenho a maior paciência. Agora, se eu estiver em um lugar em que estou me divertindo, eu não consigo engolir sapo. Vamos pela lógica. Você trabalha a semana toda, sai da sua casa, paga o pedágio, paga a gasolina, paga o estacionamento para se divertir e ainda é ofendida? Não dá. Já ouvi muitas vezes: “Vai para o lugar onde você é bem vista”, “Você tem que frequentar lugar gay”. Não, eu quero frequentar o Terraço Itália, Casa de Chá, eu quero frequentar onde eu quiser. A gente não pode viver em gueto, a gente tem que viver em qualquer lugar. Mas também tem que saber entrar e sair com postura de qualquer lugar, senão não dá.

- Mas hoje vemos mais pessoas trans em todos os lugares, não?

Gosto muito de algumas meninas da nova geração, porque elas só não vão a lugares gays (risos). Eu amo isso, e acho maravilhoso. Também amo quando tem um monte de hétero em lugar gay. A gente tem que pensar: Eu posso ver uma trans fazendo pista, mas também posso ver uma transexual no banco, seja como cliente ou trabalhando. Ou então na igreja, no fórum, na festa de confraternização do meu marido...

- Que história é essa de que você prefere pessoas que se assumem transfóbicas?

Eu prefiro aquele que diz logo que não gosta de gay, de trans, que aquele que finge que gosta, mas faz piada e odeia. Acho a hipocrisia um lixo. Lido com pessoas todos os dias e, se eu sei que aquele um é preconceituoso, eu nem passo ali. É mais fácil lidar. Pensa bem: é mais fácil a gente identificar um Bolsonaro que um CQC, por exemplo, que fala que gosta, mas faz aquela palhaçada. É mais fácil identificar um Silas que a palhaçada que a TV faz com a gente, prometendo uma matéria de respeito. Com os preconceituosos, a gente não precisa mais falar nada, ele não gosta, ok, mas tem que me respeitar. Mas o que falar quando o inimigo é oculto. Fora isso, o que me deixa irritada é o estereótipo.

- Explica...

Por exemplo: será que toda trans tem que ser engraçada? Tem que andar como uma palhaça? Uma vez, eu estava na cabeleireira e chegou uma mulher e disse: “Pessoas como vocês são tão legais, né, engraçadas, alegram o ambiente”. A minha cabeleira mesma respondeu: "Desculpa, ela não está aqui para te alegrar, ela não é palhaça". Infelizmente, o estereótipo é pior que o preconceito. O estereótipo, tanto positivo quanto negativo, tem a função de te rotular, roubar a sua autenticidade e te colocar num lugar conveniente para os outros. E não para você.

- Você é vista de uma maneira diferente depois da redesignação sexual?

Não, não. Mudou para melhor por uma questão pessoal, mas a sociedade continuo sendo a mesma pessoa de antes. Para a sociedade, o grilo, a raposa, a trans, o viado e a bruxa são iguais. Eu, você, a Silvetty, a Roberta Close, o viado que se monta na novela está tudo dentro do mesmo saco. É por isso que eu falo que a trans que trabalha no canavial pode sofrer o mesmo preconceito que uma que está lá em Paris. A discriminação pode poupar em alguns casos, mas em outros o olhar é o mesmo. A operação deve ser feita para você e não para a sociedade.

- Hoje, você se incomoda se ainda te chamam de Bianca Exótica?

Não me incomodo, porque é uma personagem e faz parte da minha história. Mas eu sou a Bianca Soares nos meus documentos e sou muito feliz. Vou te dar um exemplo. Quando participei da escolha de aula no meio de 500 professoras, a responsável chamou o meu nome no microfone: “Bianca Soares”. Eu até fingi que não escutei para ela repetir o meu nome. “Senhora Bianca Soares”. É maravilhoso mostrar para os meus colegas que a competência e a habilidade superam qualquer preconceito. Não tem nada a ver com o gênero.

- Você tem amizade com outras transexuais?

Olha, tem gente que presta e não presta em todos os lugares. Eu não gosto de nivelação e de me jogar em um grupo com o qual eu não me identifico. As bichas e as trans de São Paulo não gostam de mim muitas vezes por causa disso. Eu não gosto de viver em manada. Eu falo da Kimberly (Luciana dias), da Patricia (Araújo), da Roberta, da Glamour (Garcia), da Rafaela Manfrini, da Claudia Wonder... Posso não gostar de nenhuma delas, e nem elas gostar de mim, mas se alguém as ofender, eu fico totalmente a favor delas, 100%. Porque também pode ser eu. É isso que temos que colocar na nossa cabeça. Quando uma sofre, sofrem todas. Sempre penso naquelas que abriram portas, que morreram na prostituição. Paralelamente, tem a ver comigo. Poderia ser eu, a Roberta, a Lea...




- Você é amiga da Lea T, né?

Sou. E acho ela magnífica, uma mulher fantástica, inteligente, bonita, que vem de uma geração nova e que vive a vida sem estereótipos. Aos poucos, assim como eu, vai ter a própria felicidade.

- Bianca, e os amores?

- (Suspira). Ai, vou confessar uma coisa. Nós, transexuais, somos carentes, muito carentes, devido a tudo o que passamos... Existem trans que pagam michês, que bancam maridos... Eu entendo perfeitamente. É o que tem para hoje. Namorei um cara durante quatro meses, que chegou em mim e disse: “Fiquei com você para esquecer a minha noiva”. Bom, hoje eu não tenho amor, tenho sexo. Sexo não me falta. Mas o que uma trans quer? Um amor.

- É isso o que você mais quer?

Eu largaria tudo para viver o que nunca vivi, um amor. Eu largaria a escola, largaria a minha família para viver algo que eu nunca vivi direito. Por isso que eu sou armada. “Ai, ela é autentica”. Que nada, às vezes eu sou grossa. Às vezes é uma armadura. Um gay assume outro gay, uma lésbica assume outra lésbica. Mas um hétero não assume uma trans. Daí você entende porque ela se opera e quer renegar o passado? Mas não adianta porque a hipocrisia é maior que a operação. Um homem me ganha pela sutileza. Ele pode ser horroroso, mas se tiver um bom coração e for educado... Para mim, vale mais um abraço bem dado que um p... na minha boca. Virei trans porque gosto muito de homem.

- Mas você não é transexual porque gosta de homem, é?

Não sou hipócrita. Não foi só isso, mas foi uma das coisas. Vai falar que as outras não falam isso? Todas sabem que é gostoso ser desejada como uma mulher. É uma delícia.

- Então tá. Qual é a mensagem que você quer passar para a nova geração?

Estude, trabalhe, ame a sua família. Depois, é só consequência boa.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Gareki disse...

Tenho 21 anos, estou cursando pedagogia e sou transsexual ainda não assumida. Quero terminar minha faculdade, arranjar um emprego estável, juntar um bom dinheiro, para só então me assumir para o mundo. Confesso que antes de ler essa matéria me bateu uma duvida muito grande sobre ir em frente com tudo isso ou não, por uma questão de medo de ter que enfrentar tanto preconceito e hostilidade por parte da sociedade, mas ao ver que a Bianca conseguiu todas essas conquistas me deu muita confiança e esperança em relação ao meu futuro. Obrigada.

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