Pride

Atriz Bárbara Aires comenta polêmica sobre campanha de prevenção com travesti



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A atriz, profissional do sexo e produtora Bárbara Aires protagonizou a campanha mais polêmica de prevenção para o carnaval 2015, produzida voluntariamente pela equipe do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ).

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No vídeo, uma travesti é abordada por um rapaz folião e, após uma rápida conversa, vai para um canto transar com ele. Ele quer fazer sem camisinha, mas ela insiste que não fará sem preservativo. E, então, é exibida uma cena que sugere ela é ativa na relação.

Segundo críticas de militantes TT, a o vídeo reforça o estigma de que a travesti está sempre pronta para fazer sexo com qualquer um. E que o retrato do vídeo difere de outro envolvendo personagens gays, cuja história foi romanceada e não retrata o sexo-rápido.

A polêmica foi tanta que Jean teve que se explicar na rede social: "Se foi entendido dessa forma, devemos ter errado em alguma coisa ao passar a mensagem. Todas as peças apresentavam situações de sexo casual, nas quais o uso da camisinha é posto em dúvida. É claro que isso não significa que as pessoas transem a qualquer hora com qualquer um (sejam pessoas trans ou cis, gays, bi, lésbicas ou hétero). Aliás, quem tiver lido os fundamentos do meu projeto de lei de identidade de gênero sabe com quanta convicção eu combato esse preconceito transfóbico!".

Assista ao vídeo abaixo e leia a entrevista exclusiva com Bárbara Aires sobre a polêmica: 





- Como surgiu o convite para participar da campanha? Recebeu algum cachê?

O assessor do Jean, João Júnior, me mandou mensagem privada no Facebook me pedindo indicação de uma travesti bonita, feminina, que fosse responsável, militante e ativista para participar voluntariamente de uma gravação sobre conscientização do uso da camisinha. Falei que se estivesse no perfil, que faria sem problemas, caso não, veria alguém. Pelo que eu sei, ninguém recebeu cachê algum. Nem técnica, nem atores.

- Quando leu o roteiro, o que achou? É verdade que a priori é a travesti que nega usar camisinha? Foi você quem pediu para mudar?

Achei o roteiro ok para uma produção voluntária e específico para o carnaval. A campanha não gastou com nada, então, olhando por esse lado, não me incomoda o roteiro. Quanto à mudança, sim, no roteiro inicial as falas eram trocadas,  o rapaz perguntava da camisinha e a travesti dizia não ter, pra ir sem mesmo e o rapaz se negava. Isso realmente achei de péssimo gosto  e expliquei o estigma que sofremos em relação a isso. Pedi que fosse o contrário, o que todos aceitaram prontamente. Se o roteiro fosse mantido, eu nem faria... Eu participo do PREP, sou super consciente, não iria me expor e expor uma classe inteira já estigmatizada e marginalizada em tudo a mais essa chacota, no caso sermos vistas como propagadoras de doenças.

- Durante a gravação, imaginou que o vídeo daria tanta polêmica?

Imaginei que daria alguma repercussão, mas não tanta e nem tanta polêmica. Isso realmente foi uma surpresa. E fiquei inclusive triste com tudo isso, muita coisa desnecessária foi falada. As pessoas ainda são muito preconceituosas e fingem querer quebrar barreiras, estigmas e paradigmas, mas na realidade buscam se enquadrar em caixinhas pré-estabelecidas para serem aceitas, e ai atacam quem vai contra essa maré.

- O que você escutou sobre a campanha? O que as pessoas cis LGB disseram para você?

Escutei de tudo. “Parabéns”, que arrasamos, que era “um marco na história LGBT”, que a campanha era de bom gosto, real, sem hipocrisia, até que era um lixo, um desserviço, que estava horrível, péssima, mal feita, como eu me prestava aquilo, que "devia ter vergonha na cara", "como pode uma trans tão bonita e feminina fazendo ativa"... As pessoas cis LGB no geral gostaram da campanha e me parabenizaram pela coragem e ousadia em aceitar atuar como ativa no vídeo. Alguns parabenizaram a campanha, mas problematizaram o vídeo.




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- A repercussão entre as pessoas trans foi a mesma?

Não. Entre as trans ficou bem dividido. Parte gostou, disse que é isso mesmo, que não podemos negar a realidade. Chegaram a parabenizar dizendo ser uma campanha digna, realista e sem hipocrisia. Outras repudiaram completamente, pelo fato de mostrar uma trans que aceita o sexo rápido e fácil e ainda faz ativa. Outras gostaram da iniciativa e de dar visibilidade a nossa população, mas disseram que queriam um vídeo diferente, que não reforçasse essa imagem sexualizada de nós.

Mas vale lembrar que a intenção do vídeo é justamente essa, mostrar uma realidade e atentar para o fato que tem sempre que usar camisinha. Não era um vídeo de visibilidade trans pedindo respeito e educando para um novo tratamento e visão para com as pessoas trans. Mas quem sabe depois dessa polêmica toda o Jean e sua equipe não pensam em um assim? E inicialmente o vídeo teria apenas 30 segundos. Um vídeo diferente pede um pouco mais de tempo.

- Muita gente comparou com o vídeo da campanha dos gays e disse que voltado para a homossexualidade traz uma história, romance e tal, e que trataram a travesti como alguém disposta a fazer sexo com qualquer um. O que você achou?

Isso é fato, a diferença nos vídeos. Mas antes de atacar o vídeo, temos que pensar no motivo que foi colocado assim. Não acho, sinceramente, que o Jean e sua equipe sejam transfóbicos, mas socialmente falando, culturalmente, ainda há essa imagem de que a travesti só serve pra sexo, e essa barreira os gays já ultrapassaram. Quantos gays famosos com companheiro de anos nós conhecemos? E quantas trans com companheiros? Eu entendo toda revolta das trans e adoraria também que o vídeo mostrasse uma outra realidade, mas ela ainda é rara e pouco conhecida.

- Apesar da polêmica, essa cena da campanha acontece na vida real?

Então... (risos). Não exatamente como está no vídeo. Mas ali é uma cena de ficção, uma situação criada e pensada para duas pessoas que se viram, sentiram tesão e foram pra transa sem culpa, independente da situação, local, e então lembrar que em toda relação deve-se usar a camisinha. Mas infelizmente as abordagens masculinas para conosco são bem parecidas sim, alguns até tiram o órgão pra fora da roupa pra mostrar. E se fazem isso, fazem porque em algum momento deu certo com alguma trans. Mais uma vez, não estou falando que é certo, nem que eu gosto, nem que toda trans gosta, mas acontece, principalmente no carnaval, comemoração para qual o vídeo foi criado.

- Vi muitos comentários falando sobre você ter sido ativa. Por qual motivo pega mal ou é negativo uma trans se reconhecer ou ser vista como ativa?

Sinceramente? Não sei... Juro que estou até agora tentando entender o porque uma trans não pode gostar do seu pau e não pode gostar de usá-lo... Infelizmente eu sou transexual e almejo a cirurgia, mas adoraria ser travesti e me curtir inteira. Infelizmente no sentido de não aceitar o meu corpo e de ter o gasto com a cirurgia, não infelizmente por ser trans.

Mas acho que ainda incomoda uma imagem feminina com pênis, e que goste desse pênis e que goste de usar esse pênis. Percebi que as pessoas se chocaram com o sexo casual consentido, a fast foda, e ela ser ativa, mas o porquê, realmente, não faço a menor ideia.




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- Você admitiu que o vídeo tem alguns erros. Quais são eles?

Sim. Penso que foi desnecessário o rapaz estar com a cerveja na mão, desnecessário ele estar vestido de mulher, o que é problemático em se tratando de população trans, pois parece que se vestir de mulher é uma brincadeira de carnaval, e é muito além disso pra nós, é nossa identidade, é quem somos. Poderiam ter mais pessoas na rua, a abordagem poderia ter sido outra, e o fato de ele abrir a camisinha com a boca.

Mas para mim e o ator foi tudo explicado antes. Eles queriam passar uma cena real e verossímil, lembrando que dentro do contexto do carnaval, e que por isso o roteiro era aquele. Inclusive da camisinha ele assumiu que sabiam ser errado, mas que a maioria das pessoas faz assim, então até isso seria mostrado assim. Talvez se tivesse uma figuração, pessoas em um bloco real, e não fazer parecer que o bloco passou, os dois se paqueram e saem dali para alguma lugar e ai mostrar a camisinha...

- Você acha que o objetivo da campanha atingiu o objetivo e o público alvo, que são as travestis e transexuais e os parceiros de travestis e transexuais?

Eu acho que atingiu em partes. Infelizmente tiraram o foco da camisinha e problematizaram as questões dos estigmas trans e focaram nisso como se o vídeo fosse reforçar ou mudar algo em relação a como nos tratam. Eu me perguntam, será que acreditam mesmo que um vídeo vá aumentar o número de homens que nos tratam assim? Ou que se fosse diferente ele mudaria a forma como nos tratam?

Usando esses argumentos, não estamos fazendo o mesmo que as pessoas cis hetero fazem quando dizem que mostrar homossexualidade, travestilidade e transexualidade vai incentivar as pessoas a serem assim e nós tanto rebatemos?

Eu já acho que mudar isso é uma desconstrução política e cultural que leva um pouco mais de tempo. Ele apenas mostra uma das realidades que vivemos, mas isso não quer dizer que todas são como a personagem do vídeo. Mas acho também que foi sucesso, estamos com mais de 515 mil acessos, o primeiro video gay não tem nem metade, menos de 220 mil e o segundo não chegou a 70 mil... E só se falou no vídeo por 3 dias, eu recebi muitas mensagens, pedidos de amizade, fui parada na rua...

E se você comparar com o vídeo que fiz pra CEDS, Aids não tem cara, Aids não tem cura, você ainda percebe que as pessoas precisam desse choque para que alguma mensagem chegue até elas. Mesmo com toda polêmica, o vídeo cumpriu seu papel, e mais ainda, trouxe à tona várias outras discussões!!!

- E você usa camisinha, Bárbara?

Sim, uso, lógico!!! Não vou ser hipócrita, é óbvio que é melhor sem... Mas nós ficamos muito expostas ao risco das DSTs. Não só HIV/AIDS, como hepatites, HPV, Sífilis... Temos que nos cuidar!!! Sou nova e quero viver muito ainda, e saudável!!!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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