Pride

Em Encontro, 106 homens trans militam pela visibilidade; “Parece sonho”, diz João Nery




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Um momento histórico. Um marco na luta de homens trans de todas as regiões do Brasil. Homens que, para dar visibilidade à luta e à identidade, se reuniram nesta sexta-feira (20) na abertura do 1º Encontro Nacional de Homens Trans, no anfiteatro de geografia da USP. Até a segunda-feira (23), o grupo visa debater, refletir, propor ideias e soluções para as demandas da população T.

+ Saiba a programação do Encontro Nacional de Homens Trans


Sobretudo se empoderar do discurso, se orgulhar da identidade trans e seguir os próprios passos. Como diziam nos bastidores: “Nunca vi tantos homens trans juntos”. E o número por si só demonstra um marco de engajamento e da busca pela resistência: 106 homens trans. “É o fim da invisibilidade”, concluiam.

Em seus discursos, militantes travestis e mulheres transexuais, bem como Keila Simpson, Agatha Lima, Fernanda de Moraes e Nicolle Mahier, destacaram que homens trans notaram a urgência de agir e 
protagonizar a própria história de luta. E se firmaram como pares apoiadoras. "A Antra sempre foi vista como a mãe das travestis, mulheres transexuais e homens trans. Agora, ela é mãe e pai", frisou Agatha, sendo aplaudida pelos presentes.  

Com a apresentação do ator Leo Moreira Sá e da cantora Renata Peron, o evento foi marcado por apresentações artísticas, discursos de militantes históricos, gestores, apoiadores e a divulgação de três livros sobre a temática. Por meio das falas emocionadas do coordenador nacional do IBRAT, Luciano Palhano, o evento homenageou pessoas que contribuem com a causa.

Dentre elas, o escritor João W Nery, a cartunista Laerte Coutinho (que foi responsável pela arte do encontro), o militante Alexandre dos Santos Peixe, o militante Raicarlos Coelho Durans, a militante travesti Keila Simpson (da ANTRA), a pesquisadora Regina Facchini, o militante Lam Matos, o militante Samuel Silva, entre outros.

O projeto Transcidadania, que foi lançado recentemente e que visa incentivar a volta de travestis, mulheres transexuais e homens trans à sala de aula em São Paulo, também recebeu um dos troféus, por meio do coordenador de políticas para LGBT Alessandro Belchior.  


NÃO QUEREMOS APENAS MODIFICAR OS CORPOS

Considerado um dos precursores do movimento, Alexandre dos Santos Peixe afirmou que a luta pela visibilidade foi ("e ainda é", destacou ele) uma “batalha árdua” ao grupo. E que a falta dela dificultou o processo na conquista de direitos, mesmo quando a pauta discutida era transexualidade. Segundo ele, as mulheres transexuais e as travestis são muitas vezes as únicas referências sobre o assunto.

“Foi muito difícil, complicado, uma batalha árdua. Quando começou a discussão do processo transexualizador do SUS, havia apenas eu, o Rai e Regis (Vascon, militante). No começo não era o ideal, ainda não é, mas foi uma luta solitária. Porque só tinha eu de homem trans querendo entrar em um espaço que as pessoas só queriam falar de travestis e mulheres transexuais. Então, realmente é histórico o que está acontecendo aqui, este encontro com tantos homens trans. Eu sonhei muito com isso”, afirmou Alexandre.

Raicarlos discursou sobre a transfobia e frisou que o grupo não quer apenas modificar os corpos, mas também almeja participar da política.


Raicarlos e Alexandre: Homenageados pelo Encontro


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Luciano Palhano homenageia Lam Matos







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“Essa sociedade nos oprime cotidianamente de forma visceral, só porque somos diferentes, porque ousamos subverter a ordem política, médica, social e dizer sem cansar que somos o que somos e ponto. Vim aqui para construir a nossa luta, a nossa história e não vamos arredar pé. Nós estamos juntos, sim, e não queremos apenas mudar os nossos corpos, nós queremos também participar da política, com as mesmas oportunidades e sem a truculência do estado”.

João Nery derramou lágrimas em diversos momentos e decreta o fim de sua viagem solitária. “Estou muito emocionado por poder ver finalmente tantos homens trans juntos. E estar aqui ainda vivo, aos 65 anos, para ver. Eu, que tantos anos lutei sozinho comigo mesmo, sem ninguém para nem dividir a experiência, e agora ver tantos meninos que deixaram de se preocupar só com o próprio umbigo ou com seus hormônios, e que começam a lutar por políticas públicas e os nossos direitos... Parece um sonho”, disse..

893 HOMENS TRANS NO BRASIL

O escritor revelou um levantamento voluntário que realizou com homens trans por meio do Facebook. Ponderando que nem todo homem trans usa a rede social e que nem todo declara-se homem trans, ele apontou o número de 893 homens trans em todo o Brasil.

“Eu também separo por estado, peço que eles coloquem em seu perfil o estado, porque um pode se comunicar com o outro. Além de eu fazer essa contabilidade, eu sugiro os homens trans daquele estado para a pessoa que me adicionou. A minha ideia é que eles se encontrem, se reúnem e se fortaleçam”, contou.

LIVROS E NOVOS CAMINHOS

ALém de João, as escritoras, Jaqueline Gomes de Jesus – autora do livro Transfeminismo, Teorias e Práticas - e Simone Ávila – autora do livro Transmasculinidades - também divulgaram os seus livros e doaram parte das vendas para a o Encontro.




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Por fim, o artista Raul Capistrano emocionou ao encerrar o evento com um monólogo, o poema Cântigo Negro, de José Regio, que pode ser interpretado como os aconselhamentos sociais para o percurso de homens trans – muitas vezes facilitadores, mas mascarados de transfobia.

Ele finaliza dizendo que o melhor caminho sempre é o próprio, mesmo com todas as adversidades. Um texto que encaixa perfeitamente com o momento político de homens trans, que agora segue os próprios passos em busca da cidadania plena. E é só o primeiro dia...

(Nos próximos, o NLUCON vai disponibilizar fotos e vídeos de alguns dos momentos. Fiquem de olho)

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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