Entrevista

Thammy Miranda revela pela primeira vez: "Me identifico como homem trans"



Nos Estados Unidos, a representação dos homens trans ganhou força com o militante Chaz Bono, filho da cantora Cher. No Brasil um nome promete a repetir a façanha e dar visibilidade ao grupo na grande mídia: Thammy Miranda, filho da cantora Gretchen.

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Mas desde que afirmou que passaria pela cirurgia de remoção dos seios (e não foi a mastectomia masculinizadora, entenda abaixo), Thammy continua sendo chamado de “ela” e parece não se importar – algo que não ocorre com outros homens trans.

Foi depois que uma entrevista cheia de equívocos a um site de celebridades – inclusive de vírgula, que deu a entender que Thammy se sentia mulher – que o artista procurou o NLUCON para uma entrevista surpreendente.

Cheio de sinceridade, Thammy demonstra estar mais militante e disposto a ser voz do grupo, que ele passou a conhecer de perto nos últimos meses. Aproveitamos para abrir o canal e disponibilizar algumas perguntas dos leitores. Prepare-se para grandes revelações e entender melhor sobre Thammy. 


Confira:

- Conversei com a sua assessoria e disseram que você não se importa se te chamem de “ele” ou ela”. Mas as pessoas querem escutar de você. Como você gosta que te chamem e como quer que te tratem?

Foi exatamente essa instrução que passei. Para mim, por enquanto, é indiferente. Há muitos anos as pessoas me conhecem como Thammy. E, como sou uma pessoa pública, não posso simplesmente chegar na mídia hoje e dizer que me chamo... Por exemplo, Eduardo.  Quero que as pessoas se acostumem com a minha transição e passem a me tratar no masculino com o tempo, na medida em que elas vão percebendo a minha imagem masculina e percebendo que não faz sentido me tratar no feminino . Mas por enquanto não quero exigir nada de ninguém.

- Então posso dizer que te tratar no masculino é apenas uma questão de tempo? Já teria algum nome?

Acredito que tudo isso que se fala sobre a transexualidade seja muito novo. Quer dizer, sempre existiu, mas está sendo mais falado agora. Pelo menos em casos como o meu. Eu já me enxergo assim, mas gostaria que as pessoas me tratassem da maneira como elas me enxergam. E já posso dizer que algumas já começam a me tratar no masculino. Mas ainda não tem nenhum nome. Esses dias eu estava conversando e conclui que, caso eu não fosse famoso, talvez já queria que me tratasse no masculino. Não precisaria esperar esse processo que as pessoas se acostumem e tal.

- Saiu na imprensa que você foi chamado de tio Thommy em uma festa. Isso existiu?

Existiu, mas foi uma brincadeira. Coisa de família e que saiu em um vídeo. Ninguém da minha família me chama de Thommy. Só a Penélope (Nova, que participa ao seu lado do quadro Elas Querem Saber, do Programa Raul Gil). A Val (Marchiori) me chama no masculino, mas mantém o nome Thammy.

- Já que você tocou no nome da Val Marchiori, um dos meninos trans fez uma pergunta sobre ela... A Val já declarou anteriormente que “Deus me livre ter uma filha como a Chaz Bono (filho transexual da cantora Cher). Além de gorda é sapata”. Como consegue ter uma amizade com uma pessoa assim?

Não foi isso que ela falou. Ela falou que não gostaria de ter uma filha como Chaz porque ela é perua e quer uma filha perua também. Às vezes ela é mal interpretada. Ela é super do bem, me respeita e nunca foi preconceituosa comigo.




- O T do movimento LGBT brasileiro engloba travestis, mulheres transexuais e homens trans. Vou tirar a duvida de muita gente, você se define como homem trans?

(Respira fundo) Eu me defino como homem trans. Eu me defino assim hoje, mas até pouco tempo eu não sabia o que era um homem transexual. Pois é, não posso ser hipócrita. Eu soube a minha vida inteira o que eu não queria para mim, mas não o que eu seria. Eu não sabia que existia uma definição para querer me masculinizar, tirar os seios, sentir que aquele seio não fazia parte de mim e me sentir homem. E que essa definição é homem trans. Quando comecei a entrar nesse meio, a fazer terapia hormonal, é que comecei a entender melhor.

- Foi difícil entender-se como homem?

Tenho certeza absoluta que esta é a forma como eu me sinto desde sempre. Mas a dificuldade surgiu por causa dessa sociedade que é machista, que diz que para ser homem é preciso ter um pinto. As agressões que eu sofro são: “Mas você não vai ter um pinto nunca, nunca vai ser homem”. Para as pessoas, ser homem é ter um pau, da mesma forma que as pessoas chamam de “cara” as (mulheres) transexuais que não fizeram a operação (de redesignação sexual, a mudança de sexo). Devemos brigar para que sejamos definidos como trans, porque eu me nego a me resumir a uma genitália. Eu sou homem, mas um homem trans, no sentido de hombridade, de me sentir como um, não por causa de um órgão genital.

- Um ano antes de você anunciar a cirurgia eu já havia sido informado sobre a questão. Tentei contato, mas você preferiu não falar. Ainda estava nesse processo de autodescoberta?

Exatamente. Eu não poderia chegar na mídia e dizer “Sou homem transexual” sem ter a certeza disso. Não poderia dizer isso em um dia e dizer outra coisa em outro. Não posso brincar com a mente das pessoas e nem do grupo. Não posso mais errar. Preferi ficar quieto até ter certeza. Ontem mesmo recebi um monte de gente perguntando o que tinha acontecido (saiu uma nota no Ego, em que a jornalista teria errado na vírgula e usado uma frase com Thammy dizendo que não é homem).

- A maior reclamação das mulheres transexuais e travestis que aparecem na mídia é o assédio em torno da cirurgia de redesignação sexual, a mudança de sexo. O que acha de tantos holofotes e notas em torno de aparições de camisa, sem camisa, em relação a você?

É a mídia sensacionalista que quer ganhar cliques. Falar que Thammy está sem camisa vai dar mais cliques que falar sobre o meu novo trabalho. A população gosta de polêmica e a mídia vive de cliques. Entendo assim e já estou acostumado.
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- Você tem consciência que aqui no Brasil você está sendo visto como um exemplo para os homens trans? E que muitas pessoas estão conhecendo o assunto por meio de você?

Há pouquíssimo tempo eu não tinha essa consciência. Ainda não me vejo como exemplo e me assusto. É uma responsabilidade. Até então, para mim, era uma coisa leve: “Só estou querendo ser quem eu sou”. Mas muitas pessoas estão me cobrando essa responsabilidade. Se eu não me defino estarei em cima do muro e parece que não quero pegar essa causa para mim. E, agora, tomando consciência dessa proporção, estou procurando conversar com outros homens trans, a gente fez um grupo no Whatsapp e estamos marcando encontros. Eu quero conhecer mais eles, as histórias deles. Caraca, estou achando muito bacana. 

- E o que tem descoberto por meio desse encontro com outros homens trans?

Por exemplo, funciona de um jeito pra mim, que sou uma pessoa pública e que o público conhece minha trajetória; e funciona de outro jeito para eles, que conseguem viver no anonimato. Perguntei: Como é para vocês irem ao banheiro? E eles responderam que vão ao banheiro masculino. Caraca! Para mim não dá. Se eu entro no banheiro masculino, os caras dizem: “tá maluca”. Se eu vou no banheiro feminino, as mulheres aparecem só para me ver lá. É complicado e às vezes não é. Estamos dividindo nossas experiências e eu estou aprendendo muito.

- Como falamos, referências na mídia são importantes para dar visibilidade para assuntos e pessoas que são invisíveis. Qual foi a sua referência para descobrir que existem homens trans e se identificar?

Tenho várias histórias desde a infância que podem significar algo. Eu já tinha visto o filho da Cher. Mas sinceramente não sabia que o que ele era se chamava transexual. Tomei consciência a primeira vez que eu estive com o João Nery (autor do livro "Viagem Solitária", e considerado o primeiro homem trans operado do Brasil). Conheci pessoalmente e foi a primeira vez que falei sobre o assunto. Quando comecei a fazer o tratamento, fui retirar os seios, a querer que a minha voz engrosse é que conversei com os médicos e comecei saber o que eu sou.

- Você disse que só quer ser quem você é. Você não está disposto, então, a falar pelo grupo?

Estou tendo a consciência que esses homens querem que alguém seja a voz deles. Só me dei conta disso agora. E, se eu estou com o microfone na mão e com uma câmera focada em mim, por que não representar? E quero representar também os homossexuais em geral, as pessoas que querem ser aceitas como são. O meu programa no Youtube vai se chamar "Aceita, que dói Menos", justamente para as pessoas aceitarem como somos. Não quer dizer que quero que as pessoas nos engulam, mas que, caso elas nos aceitem, vai doer menos para mim, para ela, para você, para todo mundo.


Thammy, na entrevista que deu ao Ego, está escrito que você se define como “homossexual” porque se envolve com alguém “do gênero oposto”. Não é o contrário? Você sabe a diferença de orientação sexual e identidade de gênero?

Identidade de gênero é como eu me sinto e eu vivo como homem. E a orientação sexual fala sobre o desejo que eu sinto, que é heterossexual, porque eu me relaciono com uma mulher.

- Então...

Eles erraram mais uma vez. Eu falei que me sentia como homem trans, mas que me envolvo com uma mulher que gosta de mulher. Daí eles erraram e colocaram essa frase. É muito complicado quando você diz uma coisa e eles interpretam e escrevem como querem...

- E como é ser homem, se identificar como homem, e se relacionar com uma mulher que gosta de mulher?

Foi um processo normal. Ela foi acompanhando tudo desde o começo, foi vendo a evolução, foi evoluindo comigo. E o que posso dizer é que o amor prevalece. Tanto que se ela dissesse que iria cortar o cabelo e ser mais machinha, eu não deixaria de amá-la. Quando o amor é verdadeiro, isso não é o mais importante.

- O que escutou de mais bacana e o que te entristeceu desde que começou a transição de gênero?

O que mais me entristece é quando definem homem como um pau. Parece que o homem e tudo se resumem a um pinto. Daí falam que a Andressa deve procurar um homem que tem um pau.  Cara, o meu pai, que é um homem que eu admiro muito, não se resume a um genital. Ele é muito mais que isso. Ele me ensinou que o homem é aquele que protege, que cuida, que está junto... A Andressa não está comigo só por causa de uma genitália. Ela está comigo porque eu trato ela como uma princesa. E o que mais me deixa feliz é quando as pessoas chegam e dizem: “Não me interessa se você é homem ou mulher, só sei que gosto de você. E, se você quer ser chamado no masculino, vou fazer isso porque te admiro”.

- Além da mastectomia masculinizadora, como está passando pelo processo transexualizador? Quais são as mudanças físicas e psicológicas que percebe?

Não fiz mastectomia. Fiz mamoplastia redutora. De cirurgia por enquanto não pretendo fazer nada. Estou satisfeito. Mas na questão psicológica muda tudo. Eu tomei antidepressivo a vida inteira e hoje não tomo mais. Não preciso mais, me sinto bem, me sinto completo. Eu comigo mesmo.

- Que fantástica essa declaração...

Pois é. Dentro de mim era um turbilhão e eu consegui regular tudo isso. Uma coisa que eu quero muito é tentar ajudar quem depende do SUS para tomar hormônio, pois fiquei sabendo da situação de muitos. Não sei como posso ajudar, mas quero muito tentar. 





- Você tem a intenção de fazer parte do movimento de homens trans? Sabe que existe o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades? O militante Luciano Palhano declarou que eles adorariam dialogar com você.

Tenho! Sei da existência sim. O Luciano até entrou em contato comigo e a gente vai combinar. Passa o contato da minha assessoria para eles e vamos marcar. Tenho total interesse.

- Um dos leitores pediu para eu te perguntar: qual é a sua diferença para a Tereza Brant?

Pelo pouco que conheci da Tereza, ela não gosta de rótulos e ainda prefere ser ela. Ela não quer ser trans, nem homossexual, nem se definir, disse que é desnecessário. E gente deve respeitar. E eu já estou me definindo aqui (risos).

- O deputado Jair Bolsonaro combate todos os direitos LGBT, já disse que filho LGBT tem que apanhar, diz que o sangue dele é melhor que o nosso... Por qual motivo você tira foto com ele e ainda sorri?

Não concordo com o que ele fala, mas conhecendo ele nos bastidores não considero o Jair um ser humano do mal. Ele é um cara conservador, que foi educado a vida toda por um militar e que fez ele pensar daquele jeito. Vi que ele fala muitas coisas, mas que não é o que ele pensa de fato. Quando eu fui entrevistá-lo no Raul Gil, ele veio no corredor, me abraçou, disse que é meu fã e que era para eu pegar leve.  Eu disse para ele: “Não concordo com o que você pensa, mas respeito. E é isso que você tem que fazer com a gente, não precisa aceitar o LGBT, mas tem que respeitar”. Falei para ele que ele deve ter cuidado com o que fala, que a palavra dele vai a muitos lugares. E que muitos vão apanhar porque ele falou que apanhou e que deve apanhar. Eu vejo uma total diferença entre ele e o (deputado Marco) Feliciano. O Feliciano é do mal.

- Por qual motivo diz isso?

O Feliciano é dissimulado, tem fala mansa, age tudo muito bem pensado e faz tudo de propósito. Ele não age por impulso como o Bolsonaro, o que torna muito pior.

- Foi por causa disso que você abandonou o palco do Raul Gil quando o entrevistou?

Não sai por causa dele, eu saí por causa do Raul Gil. Mas na edição, eles colaram uma imagem na outra e foi como se eu tivesse ficado puto com o Feliciano. O que rolou é que teve um momento que o Raul Gil falou: “tira o microfone dela, que ela está levando para o pessoal”. Mas daí falei: Você desliga o meu microfone e, se eu estou aqui para entrevistar, não tenho mais o que fazer aqui”. Daí eu saí e o Raulzinho foi até o camarim, disse que o pai não deveria ter feito aquilo e eu voltei. O Feliciano não me tirou do sério nenhum minuto. Ele é tão do mal que eu jamais ficaria nervoso por causa dele.

- Mais uma pergunta de duas leitoras: Depois de só ficar com gostosonas, você namoraria uma travesti ou uma mulher gordinha?

Foi o que eu falei: amor não tem explicação. Quando você se envolve e começa a gostar, essas coisas são indiferentes.

- Outra: Há muitos homens trans grávidos. Você ficaria grávido?

Muitos? Eu sei que há pouquíssimos (risos). Mas não ficaria. A minha dúvida só é se a quantidade de testosterona interfere na gravidez.




- Mais uma: Como está o livro que você vai escrever?

É a minha biografia e o assunto é a minha vida. O livro já está finalizado e já está na parte de a editora fazer a revisão. Vai ser lançado no dia 3 de setembro na Bienal do Livro. Vai falar sobre tudo isso que falamos aqui, infância, adolescência, vida, revistas...

- Você namorou o Rafael Vanucci e o romance foi noticiado pela mídia. Foi o seu único namorado?

Não, eu namorei outros. Mas o que posso dizer é que o Rafa foi muito especial naquela época, porque foi logo que eu comecei a ficar com mulher. Eu dividi com ele, e ele foi um homem foda. Ele ficou do lado, disse que entendia. Foi muito amigo.

- Como foi posar para a revista Sexy com o título "mais mulher"? É verdade que você chegou sem depilação, sem preparação e com a Gretchen enlouquecida com o atraso?

É verdade (risos). E eu vou contar esse episódio completo no livro. Mas para mim posar nua foi uma bosta toda, independente do título.

- Você pensa em atuar em uma nova novela?

A gente depende de convites, mas se rolar, com certeza.

- O que achou quando a sua mãe declarou: “Você é o homem da minha vida?”.

Eu acho que é o que todo trans espera a sua vida inteira. É quando você atinge esse patamar com a sua família e principalmente com a sua mãe.

- Todos os anos o seu nome aparece na lista de confinados de A Fazenda, mas você nunca aceitou. O que acontece?

Primeiro, porque o meu nome vende, dá cliques. Segundo, porque já me convidaram algumas vezes e eu não quis. Nem hoje em dia eu gostaria de ir.

- O que você diz para os homens trans que estão te vendo como exemplo?

Eu quero que eles me vejam como uma pessoa que tem garra, força e que luta para ser feliz. E que isso sirva de estímulo para ele ser feliz.

- Qual é o seu maior sonho?

É continuar fazendo isso que faço, poder representar as pessoas, e diminuir o preconceito cada vez mais. Que as pessoas se respeitem mais, pois ninguém é obrigado a aceitar ninguém, mas é obrigado a respeitar.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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