Pride

Em Brasília, militantes trans cobram direito ao nome e a identidade de gênero; confira

Lam, Angela, Pepe, Renata, Bianca e Fréd 



.
Como mais uma ação da campanha “Sou Trans e Quero Dignidade e Respeito”, várias e vários militantes trans – travestis, mulheres transexuais e homens trans – foram recebidos nesta segunda-feira (18) o Congresso Nacional, em Brasília, para dialogar sobre o respeito ao nome social.

+ Campanha "Sou Trans e Quero Visibilidade e Respeito" vai ao Congresso Nacional
+ Travestis e transexuais organizam campanha para respeito a identidade de gênero


Assim como foi divulgado pelo NLUCON, o grupo visa entregar um ofício sobre a campanha e dialogar com o ministro de Direitos Humanos Pepe Vargas, o deputado Jean Wyllys, além de conversar com outras Secretarias e Ministérios que também abordam a temática LGBT, bem como a Secretaria de Mulheres.

Antes de seguirem viagem, as militantes Renata Peron e Angela Lopes – representantes do Estado de São Paulo na campanha – falaram um pouco sobre as motivações, a transfobia e o diálogo com o poder público na discussão de políticas para travestis, mulheres transexuais e homens trans.

Também divulgamos abaixo com exclusividade o vídeo que foi entregue no Congresso.

Confira o bate-papo:


- Como surgiu a campanha Sou Trans e Quero Dignidade e Respeito?

Renata: No último mês, foi lançada em Brasília a resolução número 11 e 12, que dava direito a mulheres travestis, transexuais e homens trans de usarem os seus nomes sociais em delegacias, postos de saúde, escolas... Daí, estávamos comemorando, pois era uma “gambiarra legal” até que a Lei João Nery seja aprovada. Mas dois dias depois, 80 deputados entraram com uma ação para derrubar essa resolução. Fiquei revoltada e decidi gravar um vídeo com um texto da Simone de Beauvoir, que diz que ser mulher é uma construção.





- Você está dizendo que é a responsável pela campanha, é isso?

Renata: Não, não. Logo depois, entrei em contato com a Agatha Lima, depois com a Angela Lopes. Discutimos sobre como seria a campanha e a Fernanda de Moraes deu o nome: Sou trans e Quero Dignidade e Respeito. Ficamos gravando vídeos modelo até chegar ao formato que decidimos. Mas nunca quisemos que a campanha tivesse uma protagonista ou uma instituição responsável.

- Por qual motivo não quis institucionalizar?


Renata: Achamos que se a gente institucionalizasse e colocasse, por exemplo, a Antra (Articulação Nacional das Travestis e Mulheres Transexuais), as meninas e meninos da Rede Trans não fariam. E vice-versa. A campanha é nacional, é das pessoas mulheres travestis e transexuais que já não aguentam mais o desrespeito. E foi um sucesso, muita gente aderiu.

- E qual é a finalidade de ir à Brasília?

Angela: Este é o segundo passo da campanha, que visa dialogar com o poder público. Manter a resolução já é alguma coisa. Porque saber que 80 deputados querem que derrube uma resolução que vise tirar as travestis e transexuais da exclusão significa que eles querem que as travestis e transexuais continuem excluídas e na marginalidade. Então existe um cunho preconceituoso neste sentido. Mas a gente quer que a ida seja dada para que tenhamos alguma garantia. Ou seja, transformar em uma lei federal. 

- Por que esta briga pelo nome e pela identidade?

Angela: O nome e a identidade são dois aspectos importantes para as pessoas travestis e transexuais. Pois é por meio do nome e da identidade que você se circula, se identifica, se relaciona. Quando a gente é identificada pelo nome dado ao nascimento, isso causa um desconforto para nós e nas relações sociais. É por isso que queremos que o ministro dos Direitos Humanos faça a articulação, que defenda essa pauta, porque é uma parcela expressiva da sociedade que vive esse drama social. 

- A comunidade LGB não consegue sequer a criminalização da homofobia. Como você avalia a pauta trans na política?

Angela: Posso falar isso com muita propriedade porque também sou gestora pública. Então sinto isso no meu convívio profissional. Vejo que a gestão pública no âmbito nacional não tem interesse nessa discussão, não se sente confortável com essa pauta, tanto pelo preconceito quanto pelo desconhecimento. Há pessoas que realmente carregam a transfobia e há pessoas que simplesmente não sabem definir transexualidade, não sabem as demandas de transexuais e travestis. Muitos gestores ainda identificam travesti e transexual como um tipo de gay. Então, precisamos desconstruir o estigma e investir na militância T, que traz um diálogo específico com uma demanda específica.

- Mas uma campanha que brigou para não ser institucionalizada está indo para Brasília com várias associações, ongs e redes representadas, e não apenas pessoas físicas. Ela se institucionalizou?

Renata: Essas instituições entraram como apoiadoras da campanha. Para nós pedirmos uma passagem – e isso deve ser feito com vários dias de antecedência, a gente deve oficializar. Se eu, enquanto pessoa física pedir, não funciona. Então, eu tenho que pedir por meio das instituições. E não temos uma instituição apenas, temos várias apoiadoras. 





.
- Em quais momentos a identidade de gênero de uma pessoa trans é 
desrespeitada?

Angela: É desrespeitada a todo o momento, porque a sociedade foi criada e ensinada no modelo normativo macho e fêmea. Então, ela desconsidera e deslegitima qualquer identidade que fuja desse padrão que foi ensinado, apesar de não existir nenhum tratado que nos condiciona a viver neste modelo macho e fêmea. Então, a sociedade diz a todo momento que você nasceu homem, vai viver como homem, vai morrer como homem e ser tratado como homem e vice-versa. O que queremos é mostrar que temos o direito da identidade para além desta construção biológica e normativa.

- Algumas pessoas não conseguem entender como é dado esse desrespeito. Poderia dar alguns exemplos?

Angela: Vou citar exemplos pessoais. Todas as vezes que o policial me parava na rua e eu tinha que apresentar a minha identidade, era um constrangimento. Além de me discriminarem, eles faziam piadas, riam. Quando você vai ao banco abrir uma conta, o gerente faz o cara-crachá e uma série de perguntas para ver se você não está fazendo a falsidade ideológica. Quando você vai ao médico, e o profissional te chama com o nome de batismo na frente das pessoas ou até nem quer te atender porque acha que você é uma aberração. Na própria padaria quando você vai comprar um pão... E isso representa um desestímulo. É por isso que muita pessoa trans evita colocar, como dizem, a cara no sol. É para uma cidadania plena que lutamos, assim como qualquer outra pessoa.

Renata: Não é por privilégios. 


- Entendido, bom trabalho!

ATUALIZADO (18/05/33) : Em foto com o militante Lam Matos, de Brasília, Fréd Soter, Bianca Moura e Renata Peron, Angela escreveu em seu Facebook que Pepe “se comprometeu a atender a reivindicações”.

“Ele garantiu que a SDH, inicialmente, desenvolverá uma peça publicitária oficializando a campanha (...), comprometeu-se ainda e atuar pela manutenção das resoluções 11 e 12 do Conselho Nacional, chamando uma audiência pública para discutir sua permanência”.

O militante Fréd conversou com o NLucon e classificou o encontro como "bastante positivo". "O ministro, assessores e secretários se mostraram bem abertos. Demonstraram que querem ajudar a questão, inclusive dar continuidade na campanha para perpetuá-la".

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.