Pride

“Ela se divide entre a mãe do peitinho e a do colinho”, diz casal de mães cis e trans







Por Neto Lucon

Conversava e selecionava histórias de mulheres LBT (lésbicas, bissexuais, travestis e mulheres transexuais) para uma reportagem do site A CAPA (leia aqui), quando uma delas me chamou atenção. Era sobre um casal formado por mulher cis e uma trans, que vivem uma história de amor e que tiveram um fruto por meio de material genético de ambas.

+Edith Modesto fala sobre delicada relação de pais e filhos
+"Apoio familiar é determinante na vida de uma trans"


Julia K. é esposa de Lilian e ambas são mães biológicas da pequena Alice. Por uma questão familiar, elas preferem não exibir os seus rostos. “Não gosto da ideia de aparecermos com foto e tudo. É uma exposição muito precoce”, defendeu Julia, o que foi respeitado pelo NLUCON – com muita dor no coração, pois as fotos com a pequena são simplesmente lindas.

Enquanto Lilian – que é cis – sempre cogitou ser mãe, independente de ter ou não uma relação, Julia nunca pensou em ser mãe sozinha. “Acho que a maternidade é uma coisa natural, que cabe a nós permitir ou buscar para que aconteça. Simplesmente encontrei a pessoa certa para ser mãe comigo”, declara.

Após conversarem muito sobre a maternidade e também sobre a criação dos filhos – despesas, valores e família - elas decidiram finalmente ser mães. O casal optou pela inseminação artificial, mas uma dificuldade quase desestimulou: ambas estavam inférteis.

GRAVIDEZ DE RISCO

Julia enfrentava problemas em função da transição de gênero e Lilian buscava a recuperação da fertilidade. “Quando a primeira conseguiu retomar a dela, congelamos o sêmen para uma inseminação futura. E foi no último segundo – depois de eu quase desistir – que conseguimos engravidar”, conta Lilian. Apesar da fertilização, foi uma gravidez de risco.

Os meses pareceram se arrasar e Julia admite que só pensava em tornar a gravidez mais tranquila possível para a mulher. “Esqueci de mim. O que importava era ela, o conforto dela, o bem-estar dela. E continua sendo assim”. Quando Alice nasceu, depois de uma cesárea com muita violência abstétrica, elas finalmente comemoraram a maternidade dupla. “Só consegui pensar: Finalmente, bem-vinda ao mundo, minha filha”, diz Lilian.

Fofa, linda e risonha. Julia revela que “é uma delícia” ser mãe da pequena Alice. “Toda a experiência da maternidade é marcante, especialmente à da criação, do contato frequente com aquele serzinho que está aprendendo do zero como o mundo funciona. Mas ainda é muito nova, não tem nem um ano e meio. Enquanto o relacionamento de mãe e filha se constrói desde o útero, eu canto para ela desde a gravidez”.

SENDO MÃE

E como prova de que Alice também escutava a mãe Julia cantarolando heavy metal na barriga da mãe Lilian é que ela se apegou à tia da creche que canta. E que a primeira reação corporal que ela aprendeu em relação à música – qualquer música – é bater o cabelo como uma autêntica roqueira.

“Em casa, ela dividiu as mamães em ‘mamãe do peitinho’ e a ‘mamãe do colinho, eu. É comum ela dormir depois de uma sessão dupla de colo e mamada, às vezes pulando de uma mamãe para outra mais de uma vez. Dá trabalho, mas é o melhor para ela. É um pouquinho de padecimento para muito paraíso”, diz Julia.

Lilian revela que, apesar de a filha ser muito pequena, age naturalmente com a relação das duas e começa a mostrar consciência da maternidade dupla. Elas aproveitam cada olhar, sorriso, passinhos e falas. “É lindo fazer parte da vida dela. Sendo clichê, adorei quando ela me chamou de mamãe pela primeira vez e no dia seguinte chamou Julia pelo mesmo vocativo. São os pequenos gestos e ações corriqueiras que fazem tudo valer a pena”.

PRECONCEITO?

Elas afirmam que até o momento não enfrentaram nenhuma resistência por serem mães cis e transgênero de Alice. Mas sabem que é possível que deparem com algum tipo de preconceito no futuro. “Pretendemos lidar com isso com dignidade e honestidade. Preparar nossa filha para esses desafios será uma parte importante da educação dela”, defende Julia.

A mamãe afirma que não sabe se será necessária uma conversa “tradicional”, uma vez que a filha vai crescer em um ambiente aberto e que todas as perguntas serão respondidas com a maior franqueza. “A melhor abordagem é sempre a mais natural. Algo como: ‘A maior parte das pessoas gosta de namorar gente de outro gênero, mas uma pequena parte, como as mamães, gosta de gente do mesmo gênero. O importante é ficar junto de quem você gosta, e você pode gostar de quem você quiser”.

Lilian concorda: “Não vivemos nos escondendo, nem na rua nem dentro de casa, somos o que somos e nossa filha crescerá vendo isso como é: normal”.

Ao responderem sobre as expectativas que sentem em relação à Alice – àquelas que muitas vezes atrapalham a vida de LGBT – elas afirmam esperar apenas que a filha seja honesta, justa e feliz. “Se ela se tornar alguém em quem se possa confiar, vou ter feito um bom trabalho como mãe”, dizem as mamães.

Que tenham um feliz dia! 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.