Pride

"A vida piora para depois melhorar", afirma universitário sobre se assumir homem trans




.
Theo Barreto é um carioca sangue bom. Tem 22 anos, é estudante de serviço social na UFF e trabalha como assistente administrativo na Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro. E, sim, ele é um homem trans.

+ Buck Angel fala sobre pornôs e homens trans brasileiros
+ "A testosterona foi o passaporte para a minha felicidade"
+ Homem trans diz sofrer agressão ao ir a banheiro masculino
+ Homens trans falam de sonhos e pesadelos durante infancia e adolescencia


Recentemente, Theo publicou fotos da cirurgia de mastectomia masculinizadora (a retirada dos "intrusos" ou seios). Recebeu inúmeros comentários positivos e mostrou estar completamente feliz com mais uma etapa de sua transição.

Bonito, sarado e cheio de tatuagens pelo corpo, o universitário ainda estava em recuperação quando foi convidado para relatar aos leitores do NLUCON detalhes da experiência de transição. Aceitou na hora, a fim de retribuir a contribuição que um dia teve das experiências de outros trans.

Com muita sinceridade e tocando em pontos importantes sobre a trajetória, ele fala sobre a identidade masculina, o contato com a mãe, a ajuda de amigos, experiências na rua e cirurgias. 
Abaixo, mais exemplo positivo para todos os meninos e meninas que buscam a auto aceitação.

Confira:

“Começar a transição foi a coisa mais fiel que eu já fiz por mim. Tratava-se de me perceber, de me escutar e de me entender. De outro jeito, pois do jeito que os outros sempre disseram para eu ser não ajudava em nada. Minha mãe esperava que eu usasse um vestido. Eu esperava crescer e usar as roupas do meu irmão e dos meus primos, para parecer mais com eles.


Todos os dias ela encrencava com minhas roupas, mas de alguma forma ela vislumbrava o que acontecia, talvez até antes de mim. "Daqui a uns dias vocês vai estar coçando o saco", ela dizia, "Qual é o próximo passo? Colocar uma meia nas calças?"... Enfim, ela sabia. Ela se mantinha cega pra isso e lutava contra, sempre tentando me feminilizar

E eu não tinha nome para dar ao meu sentimento de não pertencimento ao gênero feminino, às roupas que ela me impunha, ao comportamento das garotas... Isso me deixava bastante sozinho e deslocado. Nunca me apresentaram a opção "trans". Quer dizer, eu NUNCA fui uma mulher, isso é bem claro pra mim, mas não sabia o que fazer com esse tal inquietamento.

Até que um dia uma amiga me mostrou o blog de um cara trans (o polonês Oliwer, leia entrevista com ele clicando aqui). Esse blog era seu diário (t journal) e todas as pastagens eram sobre a transição dele. Eu entendi tudo desde a primeira vez. Entendi que eu era como ele. Ver o blog dele me dava esperança.

Desde o verão de 2013 eu sabia que as coisas não precisavam ser como sempre foram, eu soube que eu podia ser feliz, como aquele cara do blog. Tudo que eu precisava fazer era “ser” Só que SER desse jeito que eu queria me dava muito medo, tinham muitas coisas envolvidas...


MINHA MÃE VAI MORRER QUANDO SOUBER

"As pessoas vao achar que eu estou maluco. Muita gente vai deixar de falar comigo. Será que eu tô maluco? Minha mãe vai morrer quando souber. Nunca vou poder fazer isso antes dela morrer. Como vai ser no trabalho? Na faculdade?" A maioria desse grilos eu consegui eliminar fácil. "Melhor mesmo não ter por perto quem não quiser falar comigo por eu assumir minha identidade trans. No trabalho, na faculdade, em qualquer espaço, é só eu me impor e pronto. As pessoas não tem que escolher se elas querem me respeitar ou não, eu exijo e mereço respeito como qualquer ser humano."


Durante mais de um ano eu sabia o que eu queria/precisava, mas não me movi muito. O assunto ficava rodando na minha cabeça constantemente. Comecei a usar packer. Me sentia mesmo doido. Eu nem tinha com quem conversar sobre isso direito. Queria começar a tomar testosterona, fazer a mastectomia e ter músculos, pelos e barbas e um formato de corpo masculino, como daqueles caras da internet.

Todos os dias eu olhava aqueles blogs (descobri muito mais). Com certeza se eles conseguiram, eu podia conseguir também. Mas ainda tinha a minha mãe e eu não tinha conseguido me livrar do peso de não ser quem ela esperava. Comecei a conversar a respeito da minha não conformidade de gênero com alguns amigos. Eles me ouviam e eu já tinha muita clareza do que eu dizia, então eles só ouviam curiosos. Pedi que não me chamassem mais no feminino, mas relutava em mudar de nome.

"Se eu sou um menino e meu nome é "xis", então "xis" é nome de menino". Não funcionava muito. Fiquei pensando que o antigo nome remetia ao antigo pronome e precisava de uma mudança mais radical. Foi nesse mesmo tempo que a Bia (guardem esse nome), numa tarde lá em casa, me perguntou: "por quê você não toma T?". Eu sabia que era a minha mãe a causa principal, mas quando eu usei esse argumento pra responder a pergunta, ele já não teve mais a força que tinha antes. Respondi, "ah, eu tenho procurado há muito tempo alguém que me arrumasse uma ampola, mas não consigo, vou tentar uma ultima vez".

VIVENDO EM T

Mandei um whatsapp pra um amigo que tinha trabalhado comigo há uns anos. Eu sabia que ele já tinha tomado T pra malhar e que provavelmente ele tinha contatos. Ele respondeu na hora: “Tenho, te arrumo, quer?" Marquei de pegar no dia seguinte na casa dele. Fui até lá de carro com uns amigos e depois fomos pra casa da Amanda (guardem esse nome!). Lá, tomei minha primeira dose de t. Eu estava pronto para minha mãe nunca mais falar comigo. Eu não me importava mais com isso. Eu podia viver em qualquer lugar do mundo e fazer qualquer coisa que eu quisesse sendo o Theo.

Eu era muito mais forte do que eu pensava. Voltei a ver meu psicanalista. Cada mudança me fazia melhor. Parei de beber no mesmo dia da primeira dose de t. Comecei a malhar. Meus amigos estavam preocupados sobre eu tomar hormônios sem acompanhamento médico. Prometi que ia procurar um médico. Uma semana depois da primeira dose de t tive uma consulta com um medico particular do plano, que não sabia nada sobre homem trans e disse que não podia me dar uma receita para testosterona. Mas me encaminhou pro IEDE.

Duas semanas depois tive minha primeira consulta no programa transexualizador do estado do Rio de Janeiro. Um mês depois tive minha primeira receita de t. Já soube que a mastectomia eu só conseguiria pelo SUS depois de dois anos de acompanhamento. Comecei a sondar a ideia de fazer isso via particular. Cada dia mais meus peitos eram a única coisa que me "traiam". Minha voz estava ficando legal, meu corpo estava ficando legal, mas os intrusos me colocavam sempre num estado de pavor tremendo. Pavor que alguém os visse e assim minha identidade fosse quebrada.

SER LIDO COMO HOMEM OU MULHER NA RUA

Durante todo o tempo que eu estava na rua, caminhando, indo de casa ao ponto de ônibus, ou da faculdade ao mercado, ou dentro da academia, minha mente estava completamente afundado em pensamentos ansiosos. A rua é o lugar de maior insegurança e instabilidade. Apenas estranhos. Tudo o que você tem é uma fração de segundos. Apenas um olhar vai te flagrar e sua imagem vai passar por todo o processo mental de percepção e categorizarão subjetivo daquele indivíduo observador. E como interpretar o resultado? Expressões faciais, desvios de olhos, um nervosismo que escapa do outro lado. É claro que tudo isso é uma ilusão. Uma grande armadilha da mente ansiosa, insegura e egocêntrica.




Um dos maiores esclarecimentos a se fazer talvez é o seguinte: Ser alvo de um olhar nem sempre significa ser alvo de um pensamento que vai se seguir desse olhar, sei lá. Quer dizer, as pessoas te olham pensando no frango da padaria, no casamento da titia, na janela da cozinha aberta, num ator que viu no seriado, em como sua camisa é da hora ou que foderia contigo. Descentralização. Um pensamento revolucionário: você não é o centro do mundo. Muitas pessoas nem vão te perceber, não se preocupe tanto... Além do mais, não seria muito mesquinha, neurótico e pequeno querer prever o que diabos as pessoas vão pensar de você?

Quer dizer, a minha nóia é tentar prever se as pessoas vão me achar "homem" ou "mulher". Mas temos muito mais do que isso pra sermos interpretados. se prender a isso é se prender ao sexismo e à divisão biológica (e bilógica) aleatória e estabelecida dos sexos. É se dedicar a prever um reconhecimento que eu não quero que me defina ou que me alinhe com algum comportamento, nem atribuições, características e subjetividades já demarcadas. "Será que eles pensam que sou uma mulher?". Então eu sempre olhava pros intrusos e me dava conta que qualquer um poderia percebê-los, tentava arrumar a camisa de um jeito que escondesse, ia no banheiro mil vezes, entrava em desespero, queria me esconder.

Tava sempre calor para as roupas que podiam me esconder e às vezes eu saia de casa aceitando ser infeliz, lido como mulher. Se isso era verdade ou não, se as pessoas podiam mesmo me ler como mulher ou não, eu não sei. E depois de muito de torturar com isso e de pensar racionalmente a respeito percebi que esses pensamentos eram uma grande bobagem. Tentei parar de me preocupar com isso. Parar eu não consegui, admito, mas pude relaxar um pouco mais e pensar em outras coisas ao longo do dia que não só em como as pessoas estavam me lendo.

DISFORIAS


No trabalho eu usava o nome social, na faculdade falei com todos os professores para que me chamassem por Theo. No começo foi um inferno, óbvio. Acho que quando a gente se assume trans a vida dá uma piorada para depois melhorar. Muita gente errava meu nome e meu gênero e aquilo me deixava muito mal. Eu achava que o fato deles errarem era culpa minha, culpa da minha aparência não masculina o suficiente para ser chamado no masculino.

Hoje eu sei que as pessoas respeitam minha identidade não porque eu impus e exigi que elas fizessem isso, mas porque eu seduzi e as convenci a me chamarem assim, desse jeito mais fiel. Apesar de todos os esforços e racionalizações, quando eu estava em espaços públicos, tinha a constante sensação de que cada uma daquelas pessoas estavam contra mim, um vez que nenhuma delas tinham ideia do que eu sentia e de como era difícil pra mim só estar ali.

Comecei a me sentir cada vez mais sozinho. E sozinho eu me afundava cada vez mais no mundo trans. Todos aqueles blogs de pessoas que conseguiam adequar seus corpos... Muita motivação. Mas que me deixava ainda mais disfórico com meu corpo, às vezes. Percebi que não sabia o que me separava da mastectomia. Como eu poderia consegui-la?

Comecei a pesquisar. Procurei com afinco os médicos, os caras trans brasileiros que fizeram a cirurgia, falei com eles, comecei a construir um mapa com minhas opções. Os melhores resultados (e mais acessíveis) que encontrei foi do Dr. Erick Carpaneda. Ele cobrava R$ 7.500,00 pela cirurgia. Se eu tivesse sete mil reais, fazia a mastectomia. O que me separava do que eu queria era eu mesmo. E dinheiro, mais especificamente. Mas dinheiro a gente consegue trabalhando e a única coisa que eu tenho nessa vida é minha força de trabalho. E um gato.

OBJETIVO: A MASTECTOMIA

Decidi começar a vender cigarros na faculdade pra juntar a grana pra fazer a cirurgia, sem contar o dinheiro que eu guardaria do meu salário todo mês. Se eu guardasse o que planejava por mês, dentro de um ano conseguiria a mastecto. De buenas, só uma questão de tempo agora. Meus amigos estavam me apoiando muito. Eu nunca pediria esse dinheiro emprestado a nenhum deles. Além do mais, quem da minha idade teria sete mil reais guardado no banco?

Até que um dia, eu totalmente desprevenido, recebi a notícia que duas amigas, a Bia e a Amanda (!!), iam me emprestar a grana pra a cirurgia. MANO, COMO ASSIM?! Hahaha Se bobear eu nem tenho palavras pra explicar como eu me senti e o que isso representou pra mim. Quer dizer, eu posso descrever o quanto eu fiquei feliz, esperançoso, otimista, confiante e BEM do ponto pra frente de quando recebi essa notícia, e que eu poderia então marcar o procedimento e só o que me separava daquilo que eu demandava há tanto tempo (um ano e meio, para falar em números) era só mais um espaço de tempo.

Eu poderia descrever como eu já consigo projetar uma vida easy, sonhar coisas concretas e fúteis, desejar fundo com a alma, como eu posso gostar de mim (coisa que sempre me disseram que eu tinha que fazer e eu não via como fazer, mas agora eu vejo que isso realmente me faltava) e andar por aí pronto pra confrontar o mundo e não ser acuado por ele; enfim, coisas que eu perdi o jeito de fazer a três anos atrás, o que quase me matou.

Quero dizer, eu mesmo quase me matei. Eu não podia ser mesmo feliz. Mas agora eu posso. Então, eu não sei como os teóricos, os doutores, as senhoras de Icaraí, ou senhores das bancas de jornal, meus colegas de trabalho ou os parentes distantes de Xerém vão explicar esse fenômeno, esse evento – que nada tem a ver com eles, mas com o MEU corpo, MINHA vida, diz respeito à MIM e somente; minha subjetividade, minha forma de existir no mundo, minha identidade -, mas eu ajudo: se trata apenas de felicidade, é sobre possibilidade de existência, sobre quem eu sou e minha forma de me apresentar pro mundo.

Eu não poderia existir de outra maneira, ou não seria uma existência real. Seria sobreviver, mas hoje eu vivo.

E A MÃE?

Então eu tomava t, era Theo e a minha mãe estava viva. Três coisas que eu achei que não seriam compatíveis estavam existindo juntas. Pensei, bom, “se a gente ia ter que lidar com isso numa hora ou outra, então eu faria isso do jeito certo”. Afinal, claro que eu preocupava sobre o que ela pensava disso ou se ela iria me aceitar ou não.

Comecei a mandar reportagens para ela da relação familiar de pessoas transexuais que saíram do armário na esperança de que ela visse que eu era "normal" ou como "lidar" com um filho trans. Lembro-me da reportagem do filho do Marcelo Taz, o Luc... Mandei diversos e-mails à ela com assuntos trans. Ela nunca respondia nenhum. Então fui almoçar na casa dela num fim de semana e ela tocou no assunto (com bastante ironia): "então quer dizer que é assim, primeiro é bissexual, aí é lésbica e depois vira homem? É uma evolução, são etapas?"




Tentei explicar sem me alterar, "não, mãe, não é que sejam etapas - bissexual, lésbica, trans - mas pra mim, por exemplo, fez parte de autoconhecimento. Primeiro sobre minha sexualidade, depois sobre meu gênero, só assim é que pude saber quem eu sou hoje". Eu não conseguia explicar nada nas primeiras conversas. Continuava escrevendo e mandando textos pra ela. Ela me surpreendia às vezes. Um dia pela manha, pegamos a barca juntos e ela perguntou se eu estava tomando hormônios. Respondi que não, pra evitar a sequência de comentários e perguntas que ela faria de forma nada discreta no meio do transporte público.

Depois mandei uma mensagem dizendo que sim. Expliquei pra ela não estava tomando hormônios de qualquer jeito, mas que estava num programa do SUS, que eu era acompanhado por uma equipe médica, composta por endocrinologista, psiquiatra, psicólogo e assistente social, que eu fazia uma coisa segura, responsável e respaldada por profissionais que estava de acordo com a minha vontade. Ela pareceu entender, mas seguiu me julgando novo demais para realizar a hormonioterapia.

Enfim, acredito que nossos laços com nossos pais são muito complexos e frágeis e rodeados por traumas, é bem difícil sair inteiro de relações desse tipo. É muito difícil me expressar abertamente pra minha mãe, com a mesma objetividade, acertividade e força que tenho com as outras pessoas, mas sei que todas as relações podem ser trabalhadas, no sentido de se tornarem algo mutuamente saudável e positivo. Minha mãe me surpreendeu não se afastando de mim quando contei a verdade ela. Então acredito que podemos construir uma relação de respeito a partir dessa pequena aceitação. A partir do diálogo, sempre.

Continuamente saber se impor, argumentar, ensinar sobre uma realidade que não é óbvia. Incansavelmente procurar pela habilidade de ser respeitado. Sinto que nossa relação está caminhando, mas eu não dependo disso pra ser feliz. Isso me dá certa vantagem.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

8 comentários:

Trans Giovanka disse...

Que lindo e fofo ele.

Leandro disse...

Tenso vai ser se houver arrependimento no futuro! :/

Marina G. disse...

Foda, Theo! Lembro de como era conturbada sua relação com sua mãe quando você ainda era Bissexual.. salvo engano, a relação era muito pior.. né?! Se bem que a diferença de idade e independência financeira também pesam. Tamo junto, te admiro!

Theo Barreto disse...

Leandro, arrependimento? Só se for sobre não ter realizado tudo isso antes, né ¬¬

Marina, <3

Giovana, ^^

Talita Maximiniano disse...

Inspiração!

Jonatan disse...

Que orgulho de uma das pessoas mais importantes da minha vida ! Te amo, amigo ! Tamo junto nessa busca pela felicidade, a dimensão imaterial da vida !

Jonatan disse...

Que orgulho de uma das pessoas mais importantes da minha vida ! Te amo, amigo ! Tamo junto nessa busca pela felicidade, a dimensão imaterial da vida !

Anônimo disse...

obrigado por compartilhar de tudo isso

Tecnologia do Blogger.