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Médico ícone da cirurgia de redesignação sexual no Brasil tem consultório interditado




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O médico Jalma Jurado, de 78 anos, foi um dos pioneiros a fazer a cirurgia de redesignação sexual (vulgarmente conhecida como mudança de sexo) no Brasil. Mas nos últimos anos vem sendo acusado de ter cometido inúmeros erros médicos, causado deformações em mulheres transexuais e levado algumas à morte. E teve recentemente o consultório em Jundiaí, a 50km de São Paulo, interditado.

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Desde o último ano, o NLUCON recebeu denúncias de pacientes que sofreram com tais erros. Mas nenhuma quis relatar seus casos, tanto por medo de represálias, pelo receio da exposição – “não quero servir de chacota pelo insucesso na cirurgia” – quanto pelo processo que abriram e que aguardam em segredo de justiça. São oito processos – seis tiveram seus corpos deformados e duas tiveram infecção generalizada e morreram.

Rita de Cássia, de 57 anos, passou por seis cirurgias nas mãos de Jalma antes de falecer. O sobrinho dela, Roberto Eustáqui, declarou que os médicos constaram perfuração no intestino e perfuração na bexiga. Outra paciente, que gastou mais de 150 mil e prefere não se identificar, continua viva, mas relata que o sonho da cirurgia de redesignação sexual se tornou um pesadelo”. “Não tenho órgão genital masculino e também não tenho o órgão genital feminino.

O Conselho Regional de Medicina informa que Jalma está suspenso por cautela e que condenação não é definitiva. Mesmo assim, o médico foi flagrado operando uma mulher transexual em seu consultório pelo Ministério Público há cerca de um mês. Mas nada foi feito. Coube a uma reportagem do SBT Brasil fazer a nova denúncia por meio de uma câmera escondida.

REPORTAGEM DO SBT FLAGRA ESQUEMA CRIMINOSO

Há algumas semanas, a equipe do jornalístico foi com a mulher transexual Nicolle Mahier e uma câmera escondida ao consultório de Jalma e provou que ele continua operando – e vendendo laudos falsos – mesmo com o impedimento do Conselho Federal de Medicina. Na câmera, ele admite que “não pode mais operar” e diz que a paciente deve dizer que veio operada da Europa. Jalma diz ainda que, enquanto ela pagaria até 60 mil pela cirurgia em um hospital, em sua clínica iria pagar pouco mais de 35 mil.



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O laudo falso – que deveria ser entrega depois de cerca de dois anos de consultas com psicólogos – é oferecido pelo valor de R$180 a consulta e R$180 o laudo. Tudo oficializado no papel timbrado da clínica. Durante a reportagem, a jornalista notou que as mãos do médico estão constantemente trêmulas.


O CRM pediu exames que comprovem que Jalma tem capacidade para as cirurgias devido à idade avançada. E a Vigilância Sanitária, constatou irregularidades na clínica, como o fato de o médico vender laudos. Ela interditou o consultório. O promotor Afonso Presti declarou que é “Imprescindível que os órgãos que controlam a classe dos médicos, tanto estadual quanto federal, atuem duramente sobre isso”.

Ao ser questionado sobre o esquema e informado da gravação, Jalma negou e disse que as pacientes com deformações estão interessadas em dinheiro. Já o advogado do médico disse que a interdição do consultório foi equivocado, pois o médico havia conseguido por meio de um recurso a autorização do Conselho Federal de Medicina para exercer o trabalho clínico e fazer cirurgias de baixa complexidade.

As vítimas comemoram a decisão.


Assista a reportagem:


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Cibelle Montini disse...

Excelente reportagem, Neto Lucon, e esse açougueiro tem que pagar pelos seus crimes, e idenizar as vitimas.

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