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“Talvez precisássemos mesmo de ideologia”, diz militante trans em Seminário




Por Neto Lucon

“Muitos falam que queremos promover uma ideologia de gênero, o que é uma mentira. Mas escutando a música de Cazuza – naquele trecho ‘Ideologia eu quero uma para viver’ – acho que talvez falte para a nossa comunidade LGBT uma ideologia. Um propósito para que todos se unissem”, declarou a gestora e militante trans Ângela Lopes, mediadora da segunda mesa do 1º Seminário, Educação e Expressão de Gênero: Desafios Contemporâneos, que ocorreu no sábado (26), na SP Escola de Teatro, em São Paulo.


O escritor João Silvério Trevisan, depois de uma profunda explanação sobre a busca de encontrar a si mesmo, declarou que discussões sobre gênero e sexualidade não é algo contemporâneo, mas necessário. Sobretudo porque a comunidade LGBT brasileira anda bastante despolitizada. Se você vai ao Canadá, a vivência política de uma pessoa LGBT é automática. Aqui não, tem que ser militante para ser considerado politizado. As pessoas esquecem que levantar bandeira também é o que os héteros (cisgêneros) fazem quando colocam um anel no dedo”, declarou.

As frases de Angela e Trevisan se dão poucos dias após a aprovação da comissão especial de deputados no controverso “Estatuto da Família”, que visa considerar família apenas a união entre homem e mulher. Da mudança do nome do Comitê de Gênero, instituído pela Portaria 916, para Comitê de Combate às Discriminações, da Portaria 939. Além da retirada da palavra “gênero” do Plano Municipal de Educação. Todas iniciativas ideológicas da comunidade evangélica e considerada fundamentalista pelos movimentos sociais.

Neste sentido, o Seminário trouxe reflexões sobre a comunidade LGBT, com recorte na população formada por travestis, mulheres transexuais e homens trans, os caminhos que o grupo pode seguir a favor dos direitos igualitários, necessidades básicas pela cidadania e também a busca por alternativas.




(Atualização: Procurada pelo NLUCON, Angela reafirmou que pensa que o grupo precisa de uma motivação e talvez de uma ideologia para voltar a caminhar. Mas pondera ao dizer que não se trata da ideologia de gênero, termo que é comumente abordado por fundamentalistas para combater os direitos da comunidade trans. “Não se trata de ideologia de gênero, pois nós (travestis, mulheres transexuais e homens trans) não somos uma ideologia. Nós existimos, é uma pauta existencial”, declarou.


Ela continua: “Vejo que há décadas atrás e em momentos, como a Rebelião de Stonewall, as pessoas tinham a ideologia de luta, de libertação, de firmação política. Mas que, com todos os processos e conquistas, fomos perdendo essa motivação. E já que eles usam tanto essa questão de ideologia, nós enquanto movimento talvez devêssemos pensar numa ideologia que servisse de instrumento de luta, de união. Afinal, que ideal é esse que está disperso?”, questiona).

SAÚDE E MUDANÇAS


O Seminário foi promovido pela CAIS (Associação Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais) e Instituto Latino Americano de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos (ILADH) em parceria com a SP Escola de Teatro. E contou com a presença da cantora e presidente da CAIS Renata Peron, do advogado Dimitri Sales, além de Anna Paula Vencato (UNIMES/UFRJ/UFSCAR) na mesa “Democracia, Diferenças e Educação: A Luta Pelos Direitos de Gênero”, da cartunista Laerte Coutinho, do escritor João Silvério Trevisan e do médico Daniel Mori na mesa “Arte, Educação e Sociedade: o lugar da Resistência na Atualidade”.

Em discursos que passaram por diversas áreas, Daniel foi questionado por Edith Modesto, do GPH – Grupo de Pais de Homossexuais – o que ele pensa sobre crianças intersexo (que se refere à variedade de condições na anatomia reprodutiva ou sexual em que uma pessoa nasce), que são operadas logo após o nascimento para se encaixar em definições típicas do sexo feminino ou masculino. O médico reconhece as problemáticas e danos do procedimento e afirmou que é uma discussão que deve ser levada adiante, sobretudo para o departamento de endocrinologia. “É necessário outra visão para os intersexos”.





Daniel falou sobre a patologização e despatologização da identidade trans, que se encontra no CID-10 e é vista como transtorno mental, e revela com esperança que o CID-11 recoloque o grupo em outro lugar. Caso o grupo continue, ele pondera dizendo que a gravidez também se encontra no CID e diz que, apesar de não ser obviamente doença, trata-se de um período em que a pessoa precisa de cuidados específicos. E que é assim que a questão da transgeneridade ou transexualidade deveria ser vista pela medicina.

Ele também declarou que nos últimos anos passou a receber várias pessoas que se dizem não-binárias e que isso não é um problema. “Eu nunca vou dizer para a pessoa o que ela é. É ela que tem que dizer para mim”.

EMPREGO E PRECONCEITO


Em outro momento, ao abordar preconceito e emprego, o ator e diretor Ivan Cabral – que mediou a segunda mesa - declarou que a SP Escola de Teatro tenta quitar a dívida com a comunidade trans, oferecendo 10% das vagas para travestis, mulheres transexuais e homens trans. “E todas as pessoas são contratadas com dignidade. Com carteira assinada, todos os benefícios e direitos trabalhistas assegurados. É possível a gente estabelecer projetos que estejam ligados a alteridade e que visam perceber o outro”, declarou. 

Ao falar sobre direitos, a cartunista Laerte – que havia elaborado um discurso sobre resistência, mas desistiu - declarou que pela primeira vez pensa em entrar com uma ação contra uma agressão transfóbica – trata-se do jornalista Reinaldo Azevedo, da Veja, que chamou a travesti de "farsante", "Homem que se finge de mulher", "baranga", "aberração", "falsa senhora", "mulher horrenda" e "fraude de gênero". Ela reconheceu que as ações similares são chatas e demoradas, mas que em muitos casos são necessárias.

ARTE E CONCLUSÃO

A arte também esteve presente no Seminário. Renata Peron cantou músicas do seu álbum Guerreira, e estreou o videoclipe "Ferida", uma paródia da música "Comida", que fala sobre a comunidade de travestis e mulheres transexuais. E os atores Daniele Veiga, Lucas Vanatt, Mari Costa, Nataniel Torres encerraram ao encenar a peça “Drag ou as delícias de ser mulher”. Ao todo, foram 120 pessoas, que ficaram da 1h até às 17h30 falando sobre gênero.

“Eu achei super-proveitosa, principalmente por conseguirmos abordar um público diferente do que estamos acostumados. Desta vez, não ficamos falando para nós mesmos. Ao contrário, fomos atrás de pessoas que nos apontam o dedo, que nos julgam e que ficaram horas ouvindo a gente falar e escutando as nossas demandas. Foi muito proveitoso”, afirmou Renata ao NLUCON.

Você pode ver outras fotos do encontro na fanpage no NLUCON clicando aqui
















About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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