Entrevista

“A escola ainda é um motor de exclusão”, diz professora travesti Sayonara Nogueira




Por Neto Lucon

Celebra-se nesta quinta-feira (15) o Dia do Professor no Brasil. Profissionais de grande relevância (mas nem sempre de grande valorização ou estímulo) que, por meio da qualificação acadêmica e pedagógica, têm a missão de ensinar, educar, levar conhecimentos, respeito e cidadania para crianças, jovens e adultos. E também enfrentar muitos preconceitos, como o machismo, a homofobia e a transfobia.

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Atuam no processo de formar cidadãos conscientes – afinal a escola é a base e também um recorte da vida afora – e são responsáveis por incentivar habilidades, despertar interesses, alimentar sonhos e provocar a autoestima. Quem não tem na memória um professor que marcou a vivência escolar e foi fundamental para os próximos passos? O contrário também ocorre, que fique registrado.

Nas escolas estaduais Mário Porto e Ignácio Paes Leme, de Uberlândia, Minas Gerais, uma professora é exemplo de dedicação, carinho dos alunos e também de visibilidade trans. Sayonara Naider Bonfim Nogueira (cujo nome já foi retificado), de 41 anos, professora de geografia e – ao contrário do que muita gente possa pensar, haja vista o bullying que os próprios alunos LGBT passam – travesti. Também é diretora do Grupo União LGBT e militante na Rede Trans Brasil.

São 15 anos lecionando e mudando vidas num espaço muitas vezes hostil para a diversidade, onde as divisões de gênero já provocaram marcas em muitas pessoas trans (travestis, mulheres transexuais, homens trans e outras transgeneridades). É respeitada por alunos, pais, professores e diretores, mas garante que tudo ocorreu após muita luta.

Sayonara topou conversar com o NLUCON nesta data (especial?) e falar sobre suas experiências e reflexões:

- Hoje é comemorado o Dia dos Professores. Pela atual situação e sua vivência na área, temos motivos para comemorar?

Acredito que não, a escola ainda continua um motor de exclusão e uma máquina burocrática para produção de números. Professores não podem adoecer, não podem ter nenhum tipo de contratempo, pois através do atual sistema nos tornamos uma linha de produção que não pode parar, devemos estar lá em frente ao maquinário escolar na hora, minuto e segundo exatos. Essa lógica faz com que a quantidade seja mais importante que a qualidade. Isso sem mencionar o salário que contínua extremamente baixo se comparado com outros pisos salariais de profissionais que possuem somente o Ensino Médio.

- Qual é o maior desafio do professor atualmente?

Fortalecer a relação professor e aluno, dinamizar as aulas, enfim é formar cidadãos críticos sobre a realidade que os cercam, e isso tudo com material sucateado, onde muitas vezes os recursos que nos oferecem é o giz, o quadro, a saliva e o livro didático. Muitas vezes somos obrigados a tirar capital de nossos bolsos para oferecer uma atividade diferenciada dentro da sala de aula.

- Você é professora do ensino fundamental e ensino médio há 15 anos. Como se deu a sua entrada na profissão?

Sou licenciada em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia e tenho pós graduação em Educação Inclusiva e Especial. Para mim, a profissão estava ligada a universo feminino, pois durante toda minha educação básica sempre tive professoras mulheres e sempre me inspirei nelas. E eu tinha medo de exteriorizar minha transexualidade e não conseguir inserir no mercado de trabalho e o magistério era uma alternativa, pelo menos na minha cabeça. Assim que formei dei início à minha transição com terapias hormonais e implantes de silicones, mas nesse período fui trabalhando a questão do gênero, da transexualidade e da travestilidade no espaço escolar, uma vez que leciono para crianças e adolescentes do Ensino Fundamental e Médio. A aceitação foi natural, pois acompanharam todo esse processo, não tenho relatos de negação em relação a minha identidade de gênero, ainda que sofresse ataques de alguns colegas de profissão.



- Então não houve nenhum tipo de resistência com o fato de travesti? Meio surreal, né, se lembrarmos que estamos falando de 15 anos atrás... O nome social foi reconhecido desde o início, por exemplo?

Quando adentrei na escola para trabalhar eu tinha muito receio, cheguei a trabalhar com o cabelo preso dentro da roupa, sem adornos e com os seios enfaixados com medo de retaliação. De acordo que fui trabalhando a construção de gênero na sala de aula ligada aos movimentos sociais, pois a Geografia me dá esse gancho, eu pude demonstrar que na sala de aula o que importava era a profissional que estava ali na frente e não minha sexualidade e meu gênero. Em relação aos alunos não tive resistências, mas em relação aos professores, direção de escola e inspetores tive alguns desafetos.

Fui proibida de usar o banheiro feminino a pedido de uma secretaria, meu nome social não era respeitado, independente de existir resoluções, portarias e etc. Sempre faziam piadas dizendo que eu não poderia ser duas pessoas. Eu lembro uma vez que depois que cheguei das férias, já com as próteses mamárias colocadas, a vice diretora pegou na minha mão, passou de sala em sala e disse aos meus alunos: “de agora em diante ela é mulher 24 horas, mas aqui dentro é o professor Marcos”. Tudo que conquistei em relação ao respeito no ambiente escolar foi com muita luta e militância. E os meios de comunicação tiveram um importante papel para essa inclusão, pois sempre faziam alguma matéria comigo sobre a quebra de preconceitos e minha inclusão no ambiente escolar.


- Vi numa matéria que você vai passar pela redesignação sexual – vulgarmente conhecida como mudança de sexo. Mas se define travesti. Explica?

Identifico-me como travesti, pois o termo traz empoderamento e eu sinto a necessidade de empoderar mais meninas, para que possam voltar ao bancos escolares, ter uma formação superior ou técnica e ocupar outros espaços que não seja a rua e que a prostituição deixe de ser um fator determinante nas nossas vidas .

- Existe ou existiu algum tipo de diálogo sobre a questão trans dentro da escola? Como é a abordagem?

O papel da escola não é formar fiéis e sim cidadãos. Hoje existe uma abertura maior para debater a questão da construção do gênero nas salas de aulas devido aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) que trazem um eixo transversal e te possibilita trabalhar a questão, existem ainda as diretrizes curriculares nacionais que te oferecem esse suporte. Eu trabalho a Cartografia da Resistência com todas as minhas turmas, onde explico o papel dos movimentos sociais no território e as marcas e conquistas que eles nos deixam.

A partir dessa questão trabalho a desconstrução do gênero, onde deixa de ser uma questão biológica e passa a ser entendido como uma construção histórica, cultural e social. Posteriormente os alunos mapeiam o índice de assassinatos de travestis e transexuais em todo país e apresentam em forma de gráficos e mapas. E concluem que o número de assassinatos e maioria esmagadora nas ruas se prostituindo se deve a exclusão familiar e escolar e a falta de uma política pública de mercado de trabalho e geração de renda e uma lei de identidade de gênero no nosso país.


- O que pensa sobre a exclusão do debate sobre gênero nas escolas pelo PME? O que poderia ser melhorado, caso esse debate ocorresse? E o que é reforçado ao não falarmos sobre gênero?

Falar sobre gênero e das suas diversas identidades é lutar por uma sociedade onde as oportunidades sejam iguais. O que o plano municipal coloca é o respeito à identidade de gênero, à orientação e diversidade sexual, bem como a promoção desse respeito no ambiente escolar. Vereadores e deputados em muitas cidades brasileiras norteados por argumentos mentirosos e distorcidos, cristãos fundamentalistas estão fazendo pressão para que se retire do Plano Municipal de Educação todos os termos relativos a gênero.

Segundo eles, o projeto impõe aos alunos a ideologia de gênero, ameaçando a família e incentivando a homossexualidade. Na realidade, além do respeito pela comunidade LGBT, o PME inclui a questão de gênero, que discute o machismo em nossa sociedade. Retirar as referências de gênero do PME é um retrocesso, é negar a existência do preconceito, violência e intolerância que ocorrem frequentemente na sociedade e são reproduzidas na escola. A escola, em sua função social, assinala-se como um espaço democrático que deve oportunizar o debate de questões sociais e permitir o desenvolvimento do pensamento crítico.


- No fundo, você acha que as pessoas sabem o que significa gênero?

Não e nem imaginam, eu faço um trabalho nas escolas estaduais, que se chama Fala Jovem! e sempre vou com um profissional da biologia. Quando indagamos sobre a questão do gênero, percebemos uma visão muito ligada a biologia. Nesse trabalho proponho que se façam perguntas relacionadas a questão de forma anônima e assim vamos sanando as dúvidas. Concluímos que ainda há muito o que ser trabalho em relação a construção e desconstrução do gênero na escola.

- Você já deu aulas para alguma aluna trans? O que poderia falar sobre o acolhimento ou exclusão das escolas para alunas trans?

Sim tive alunas trans no regular noturno, na Educação para Jovens e Adultos. Tive que tomar a frente e coloca-las debaixo das minhas asas, e assim fazer respeitar o uso do nome social e até o banheiro feminino. Mas e quando eu não estou presente? Fico noites sem dormir pensando no processo de exclusão que elas sofrem dentro da escola, uma vez que essa instituição foi criada para o homem branco, burguês, cristão e heterossexual, e quem se posiciona diferente passa a ser automaticamente excluído. As escolas devem se preparar mais para nos acolher, capacitar seus profissionais, fazer respeitar o nome social e o uso do banheiro de acordo com seu gênero, pois são políticas mínimas que farão que permanecemos dentro das salas de aula.

- Você acha que as coisas estão mudando?

De 15 anos para cá, sim, com certeza mudaram. Hoje você observa várias professoras/es trans e travestis atuando na rede pública. Na rede privada ainda sinto uma negação. Tem as portarias de nome social, que apesar de ser uma politica paliativa, uma migalha que nos ofereceram, está trazendo nosso segmento para as salas de aulas. Mas ainda temo essa conjuntura política que vivemos, um retrocesso sem tamanho em relação as questões sociais. E preocupo comigo também. Eu a partir de 31/12 deste ano estou desempregada.



- Desempregada? Como assim?

Em 2002 fiz concurso fui aprovada e na época o governo de Minas deu pouquíssimas posses, usando nossa classificação no concurso para contratos temporários. Em 2005 fiz outro concurso sendo aprovada e não nomearam também. Até que em 2007 o Governo de Aécio Neves criou uma lei dando efetividade para quem estava em sala de aula, concursado ou não. Lógico uma lei inconstitucional que foi derrubada pelo STF o ano passado e nos deram o limite de permanecer até o final desse ano. Consequentemente terei que pedir emprego a partir de janeiro do ano que vem, sabendo-se que terei muitas portas fechadas por causa da minha identidade de gênero.

- Diante de tantos problemas, o que te motiva a continuar dando aula?

O que motiva é fato de poder mudar a realidade, formar opiniões, abrir perspectivas novas para meus alunos, alimentar sonhos, e formar cidadãos. Eu tenho só relatos de êxitos com meus alunos, me respeitam como sou, uma pessoa com direitos que muitas vezes são amputados pela sociedade e pelo Estado. Nas escolas que atuei, meu aniversário paralisa as escolas, são bilhetes, festas e presentes tanto dos alunos como dos pais. Sou convidada a jantar na casa dos meus alunos, a participar de festas de 15 anos. Recentemente perdi minha mãe e o carinho que tiveram comigo, durante o velório, visitas em casa e até o meu retorno a escola com faixas de boas vindas e cartas dizendo que sentiram minha falta, isso tudo me emociona e me estimula a continuar na profissão.

- Você teve alguma professora que te marcou?

Sim, na antiga 2 série do primário, em 1982. Ela chamava Angelina, uma pessoa forte e politizada. Ela sempre considerava no processo ensino-aprendizagem as nossas vivências e experiências. Sua memória era impressionante, reconhecia a maioria das suas centenas de alunos pelo nome completo. E por força do destino em 2004 reencontramos trabalhando na mesma escola. E quando me viu, me reconheceu e até hoje quando me encontra faz questão de ir até onde estou e me abraçar.

- Obrigado, Sayonara! Parabéns pela luta!




About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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