Pride

Enem compra briga pelo feminismo, mas transfobia ainda mostra a cara

Uma redação falando sobre violência contra a mulher e uma pergunta envolvendo a citação da filósofa e escritora francesa Simone de Beauvoir no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2015 no sábado (24) e domingo (25) causaram reações positivas por parte de femininas, transfeministas e apoiadores da causa. E – claro! - também rejeição de conservadores.

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino” ,trazia a questão. O candidato, então, deveria caracterizar o movimento social de 1960. Ou seja, a alternativa C, “organização de protestos públicos para garantir a igualdade de gênero.

Memes, postagens e comemorações tomaram as redes sociais. “Machistas não passarão. Nem no Enem”, “Você não gosta de feministas. Mas o Enem gosta”, “Olá machistinha, já pensou em não passar no Enem por minha causa?” dizia uma das postagens. Outras comemoravam: “Eu vivi para ver o Enem falar sobre Simone de Beauvoir e o feminismo” e “Feminismo na redação do Enem pode? Pode sim. E se reclamar vai ter na redação também”.

A estudante Ariel Nolasco, que é uma mulher transexual, declarou ao NLUCON que, ao contrário de toda a repercussão, não se surpreendeu com a questão. “O assunto gênero tem sido muito falado por grandes pensadores atualmente. E isso tem sido pauta há muito tempo no âmbito nacional, como a questão do gênero nos planos municipais e estaduais de educação”.

 A especialista em gênero e sexualidade cis Nádia Lapa também disse que a pergunta é adequada ao movimento político atual. E lamentou que uma frase publicada em um livro de 1949 seja ainda atual. “Nós não nascemos mulheres, nós nos tornamos mulheres porque a socialização feminina é cruel conosco”, declarou ao G1. 
Na mesma reportagem, a escritora cis Daniela Lima ressalta que Simone foi a única mulher citada pela prova.

A REDAÇÃO

“O importante é que esta pergunta com Simone de Beauvoir levou a questão de gênero de novo para a educação. É sabido que em âmbito regional, estadual e federal o plano nacional da educação foi alijado do direito de falar sobre gênero nas escolas. Um retrocesso. A questão viabiliza falar do feminino e do que se entende como feminino as questões filosóficas, sociais, culturais de um Estado onde a laicidade frágil está perdendo espaços para leis perigosas, retrógradas e excludentes, que podem adentrar nas questões pedagógicas. E também o combate à visão criacionista e biologizante baseado em visões religiosas, reducionistas, machistas, misóginas, transfóbicas e, como sempre, excludentes”, declara a historiadora e professora Laysa Carolina Machado, que é uma mulher transexual.

E, como não poderia ser diferente, teve gente que reclamou e disse que estavam tentando implantar a ideologia de gênero e classificando o Enem como feminista. E até desqualificar Beauvoir como representante do movimento social dos anos 60. Memes e discursos de políticos conservadores e fundamentalistas – que dispensam apresentações e menções – foram despejados à revelia na rede. O deputado cisgênero Jair Bolsonaro (PP-RJ) compartilhou um post do filho cis Carlos: “Mais ou tão grave quanto a corrupção é a doutrinação imposta pelo PT junto a nossa juventude. O João não nasceu homem e a maria não nasceu mulher. O sonho petista em querer nos transformar em idiotas materializa-se em várias questões do Enem”. Vale lembrar que Bolsonaro já foi condenado a pagar indenização por discursos machistas e homofóbicos.

Para o desespero dos conservadores, no dia seguinte (25) lá estava a redação falando justamente sobre violência contra a mulher. O tema: a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira. A estudante de jornalismo Lola Ferreira escreveu um dos comentários mais compartilhados:

“É importante prestarmos atenção à forma como o tema da redação do Enem deste ano foi proposto. Não é só "violência contra a mulher" como se fosse um caso isolado, um mito, algo que ouvimos falar de forma pontual. É sobre a persistência desta violência e sobre como continuamos a ser violentadas diariamente, de diversas formas, em uma sociedade feita para isso. Persistência é o presidente da Câmara promover retrocessos na lei que visa proteger mulheres, é meninas não serem vistas como meninas, é ver como é comum existirem milhares de milhares de relatos sobre assédios infantis. Persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira pode ser abordada de diversas formas, e muitas mulheres apontaram todas elas exaustivamente durante este e vários anos”.


E A TRANSFOBIA?

A citação de Beauvoir também é utilizada por movimentos feministas que integram travestis e mulheres transexuais– respeitando a sua identidade de gênero e ressaltando que elas também são mulheres– ou na causa transfeministas – com o recorte voltado para esta população. Laysa Machado diz que, apesar de não ter o contexto quando escreveu, a citação “não se nasce mulher, torna-se” dialoga perfeitamente com a vivência das mulheres transexuais. Afinal, assim como as mulheres cis,  elas também se tornaram mulheres e sofrem opressões por esta identidade.

Porém, várias travestis e mulheres transexuais que ainda não fizeram a retificação dos documentos alegaram terem sofrido transfobia no Enem, que neste ano teve 278 alunos e alunas T inscritos. Desde o último ano, foi divulgado que a prova respeitaria o nome social e sobretudo a identidade de gênero do grupo. Mas na prática há vários erros e capacitação por parte de fiscais e professores.


Ariel Nolasco e Laysa Machado


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Lara Lincon MIlanez, que fez a prova em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, por exemplo, afirmou ao UOL que os fiscais a trataram no masculino e disseram que ela não poderia assinar com nome “fictício” na lista de presença. “A coordenadora e a fiscal começaram a falar abertamente, na frente de todo mundo, ‘ele mudou de nome, agora se chama Lara’ e ficaram se referindo a mim no gênero masculino”. Já Tyfany Stacy afirmou ter sido humilhada por fiscais ao ser encaminhada ao banheiro de deficientes, na Universidade Estácio de Sá, campo Norte Shopping, na Zona norte do Rio. “Perguntei para a coordenadora se eu tenho algum tipo de deficiência”.

Algumas das provas de que, mesmo falando sobre feminismo, nem todas as mulheres estão incluídas nesta pauta – e este debate perpetua na internet, nos grupos de militância e em outros espaços. Como na lei do feminicídio deste ano – que promete rigor nas punições de violências contra a mulher – em que o texto foi mudado (tiraram "gênero feminino" e incluíram "sexo feminino") e as travestis e mulheres transexuais foram excluídas, apesar do gênero feminino. Laysa diz que “’mais que não se nasce mulher, torna-se mulher’, ‘não se nasce mulher, torna-se mulher e se mata todas as formas as que se tornaram".  Inclusive as trans, tá?

É preciso ressaltar que, para muitas travestis e mulheres transexuais, a experiência foi positiva: “Comigo deu tudo certo. As únicas coisas que achei estranho foi o fato de estar ‘meu nome civil/ meu nome social’ na lista que fica no portão da escola. Achei que estaria lá na letra A o meu nome, mas não estava. Quando cheguei na sala, óbvio que os olhares rolaram de cima a baixo, mas fui 100% respeitada pelos funcionários, todos. Na faculdade que fiz, na Anhembi Morumbi do Brás, deu tudo muito certo. E no fim dos dias, eu tive que assinar um documento sobre o uso do nome social. Já em relação ao banheiro, ocorreu legal”, disse Ariel.

Agora, é só esperar a nota e continuar na luta contra o machismo, a transfobia e outras opressões.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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