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Crossdressers têm festa própria em São Paulo e “querem sair da escuridão”

Por Neto Lucon

Quando recebi o convite da artista
Luhly Cow para ser jurado de um concurso que elegeria a “melhor crossdresser" de uma festa em São Paulo, me assustei. Nunca tive proximidade com o grupo e a imagem que tinha até então beirava ao preconceito: fotos de “bundas peludas com calcinha publicadas nas redes sociais”.

Relutei ao convite num primeiro momento, até por esperar uma resposta negativa dos leitores, mas logo entendi que muitas vezes é preciso encarar o outro lado e se permitir a entender universos que ficam evidentes somente entre quatro paredes, em festas fechadas e em fotos de redes sociais.

E lá estava eu, em frente à festa Rainha Cross, no Bar Queen, no centro de São Paulo, com os preconceitos e conceitos deixados em casa. Logo no início a imagem preconceituosa dá vida a rostos maquiados, tensos e com muito medo. Deparo-me na portaria com três jovens CDs. De peruca, maquiagem e salto alto. Corriam e pareciam assustadas, intimidadas com a rua, com os olhares e com o preconceito que poderia bater a porta. 

Outra apareceu dentro de um taxi e, quando virei o rosto, já estava dentro da festa.

O espaço – já conhecido pela temática LGBT - conta com música eletrônica, clipes de divas internacionais nos televisores e pequenos grupos de CDs conversando nas mesas. A vestimenta vai desde vestidinhos “periguete” aos vestidos de gala. A maquiagem vai desde as primeiras montagens às profissionais de concurso. E não há regra ou padrão de público.  Teve até uma que estava de peruca, bermuda e... Tênis! Todas olhavam e riam.

No piso superior, figuras ilustres aguardavam o início dos shows e do concurso: a drag queen Kaká di Polly, a apresentadora Marisa Carnicelli e o apresentador Cazé Peçanha, que há pouco falou sobre crossdresser no programa A Liga, da Band, são algumas delas. 

MAS O QUE É CROSSDRESSER?

O termo foi criado nos EUA e existe desde os anos 60. A princípio, era referido aos "homens, geralmente casados com mulheres e heterossexuais, que se realizavam em se vestir com trajes do universo feminino em algum espaço de tempo". E, depois, se desmontar e levar a vida como qualquer outro homem. No Brasil, não é uma prática apenas de héteros, tendo muitos gays e bissexuais praticando o crossdressing. E nem com um único discurso ou motivação.

“O que eu mais gosto é poder usar um vestido, sentir o tecido na minha pele, colocar peruca e desabrochar esse outro lado feminino em alguns momentos. Depois, tirar tudo e levar uma vida de homem, como qualquer outro”, declarou a CD Carla, que é um empresário em outros espaços. “Para mim, é um modo de vida e a possibilidade de viver o lado masculino e feminino”, concordou a amiga, que é bancário.

Enquanto a maioria dava as costas quando sabia que eu era jornalista, outras surpreendiam ao mostrar que, em alguns casos, a vivência crossdresser é um passo para se assumirem posteriormente travesti ou mulher transexual. A cartunista Laerte Coutinho, por exemplo, iniciou dizendo-se crossdresser. Hoje, com o guarda-roupa todo feminino e o contato com outros grupos de militância TT e definições, define-se como travesti ou simplesmente transgênero.

Bianca vê na cartunista uma inspiração: “Sou CD porque não tenho condições de me tornar uma travesti. É o meu sonho, mas minha família não me aceitaria”. “Não fico com uma aparência bonita para me assumir trans. Então me contento com esses momentos. Mas, para mim, desmontar, tirar o vestido, o esmalte e a maquiagem é o momento mais triste”. Chamam de síndrome da acetona.

Além disso, concorrendo no concurso havia uma pessoa que se reconheceu como travesti por uma década, mas que acabou desistindo pela transfobia. Hoje, ela se diz verdadeiramente feliz em espaços em que pode se montar e ser uma CD. "É onde eu respiro", limitou-se a responder.  


NOITE PARA SE SENTIR MULHER – SEM CULPA

A festa é produzida e comandada por Jaime Braz Tarallo, que encarna a personagem Lizz Camargo – cover de ninguém menos que Hebe Camargo. “Criei a festa há quatro anos, quando percebi que não havia um espaço social para elas em São Paulo, que tivesse estrutura adequada, com camarim para elas se montarem”, contou.

Segundo Lizz, o primeiro evento teve a presença de apenas nove CD, fruto do medo de serem flagradas e sofrerem preconceito. “Há resistência de algumas ainda, por culpa ou medo da visibilidade. É uma festa delicada, pois há cross que se programam para vir há três anos, mas ainda não conseguiram. Seja porque a esposa ainda não sabe, por medo e até por não entenderem a sua condição”.




Ela, que também se considera cross e até é chamada de mãe por algumas, defende que luta é para que elas possam ter uma noite em que se sintam mulheres – e sem culpa. “Antes da Luhly surgir na minha vida, há um ano e meio, a Lizz não existia. Ela fez o make e, depois de dois dias, a internet estava bombando com todo mundo me dizendo: ‘Olha a Hebe’. Foi algo espontâneo e que eu adorei”.

No palco, Lana Miranda – artista transformista que é cover oficial de Carmem Miranda – arrasa nas performances.

CDZINHA É PEJORATIVO

- Posso falar CD para dizer crossdresser ou é um termo pejorativo?
- O termo CD não é ofensivo, mas CDzinha, sim.
- Sério?
- As CDzinhas, apesar de também se considerarem crossdresser, tem o fetiche alto e normalmente utilizando do crossdressing para promover encontros sexuais.
- Mas qual é o problema de partir para o lado fetichista?
- Nenhum, mas é que é bem diferente do princípio do crossdressing, que fala mais sobre arte.
- Para você ser crossdresser é fazer arte?
- É um estilo de vida. Pessoas que levam dois momentos e que transitam nos universos masculinos e femininos. Se você reparar aqui, as pessoas não estão pensando em fazer pegação, estão mais para vivenciar o lado feminino. Entende a diferença?
- Total!

CAZÉ PEÇANHA É HOMENAGEADO

Durante a festa, o apresentador Cazé Peçanha, que estava acompanhado da mulher Fernanda Thompson, foi homenageado, devido à reportagem que fez para o programa A Liga, da Band. Ao anunciar, Liz declarou que ele tirou as CDs das sombras.

Muito simpático e aparentemente bem a vontade, Cazé tirou foto com vários presentes e declarou que a reportagem o ajudou a “harmonizar o lado masculino com o feminino”. Foi a primeira vez que entrei neste universo feminino, com bastante respeito. E tentei trazer a mulher que existe dentro de mim para fora.

O apresentador declarou que o ser humano divide as pessoas em tantos rótulos que, muitas vezes, algo que poderia ser unido está separado. Da experiência de se montar para a reportagem, ele declarou que pior parte foi a depilação. “Foi muito doloroso e quase desisti”.

Ao NLUCON, Liz comentou a declaração sobre as CDs quererem “sair das sombras”, uma vez que grande parte prefere, sim, o anonimato. “Referia-me ao respeito e entendimento que elas precisam ter delas próprias e pela sociedade. O anonimato que elas querem é de exercer o fetiche e numa noite de sonho. Mas muitas, quanto acabam as festas, não se conformam em ter de se desmontar”.

O CONCURSO

Ao todo foram 12 concorrentes, das cidades de São Paulo, Roraima, Santo André, Morro do Pinhalzinho, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul. Elas foram anunciadas por Luhly e desfilaram para a plateia com seus vestidos.

Diferente de outros concursos de beleza, não há padrões pré-definidos para participar, tampouco a cobrança de andar ou figurinos de miss. As candidatas têm de 18 a 43 anos, 1,67m a 1,84m, diversos padrões de beleza (magras, gordinhas, novatas, veteranas...) e apostas diversas de figurino.

Depois de vários desfiles – tímidos, desinibidos, desajeitados e até de modelos de passarela – os jurados deram os votos em público. Cazé Peçanha votou em Alyssa Brandão, o Neto Lucon votou em Playt Patricia, assim como Kaká di Polly. E os demais jurados deram o voto para Cynthia Andreia, tornando-a Rainha Cross.

Ela recebeu a faixa, tirou fotos e terá, entre as responsabilidades, bater cartão na festa e representar as crossdressers.

BATE-PAPO COM A RAINHA CROSS
Andréense ou Cynthia Andreia, 35 anos, projetista mecânico, solteiríssima, meiga e adora fazer amizade.





- Me falaram aqui que crossdressers buscam o direito a um estilo de vida. Me explica?

A gente quer poder transitar nestes dois mundos sem problema nenhum, sem sofrer preconceito. O crossdressing pode ser encarado como um hobbie, um estilo de vida e para algumas pessoas também pode ser um fetiche. Mas no fundo queremos o que todos os transgêneros querem, sermos reconhecidas e podermos andar na rua livremente, se sentir a vontade com o gênero feminino, mesmo que temporariamente.

- Mas não se trata de uma luta pela identidade, como é o caso das travestis e mulheres transexuais, certo?

Não, pois a luta pela identidade é das travestis, transexuais, que são mulheres ou que vivem o gênero feminino 24h. Ele não faz parte da vontade da crossdresser, que vivencia os dois gêneros por determinado período. Apesar disso, não há rivalidade. Nós entramos como apoiadoras da luta e achamos legítima a luta. Até porque tem algumas cross que acabam se descobrindo travestis ou transexuais depois de um tempo.

- A Liz disse que o Cazé tirou as CDs do escuro. Mas o grupo não prefere justamente ficar às escondidas? Não é um grupo fechado?

Não queremos ficar escondidas de forma alguma, esse grupo tem que ser aberto, a maioria ainda fica se escondendo por medo exatamente dessa sociedade. E muitas também são casadas, namoram, a família não sabe, o emprego também não aceitaria este outro gênero. Mas no fundo sabemos que temos que nos mostrar para ampliar este grupo, para que a sociedade passe a nos ver com menos preconceito e mais aceitação. No meu trabalho, por exemplo, todos sabem que me monto, porém isso não interfere em nada. Até porque nunca fui montada para lá.

- E você gostaria de trabalhar montada?

Diria que sim, porque às vezes acordo tão menina que minha vontade é ir (risos).

- Existe diferença entre as CDs do Brasil e dos EUA?

Aqui noto que a maioria é gay ou bissexual, sendo que lá existe aquela questão de “serem homens heterossexuais que se vestem...”. Neste sentido, acho que estamos mais soltos. Eu sou sou heterossexual, ou seja, só me relaciono com mulher. 

- Como foi que você percebeu que era uma CD?

Costumo dizer que a gente não se descobre CD, nasce CD. Eu já curtia esse lado feminino desde criança mesmo. Sempre achei mais graça nas peças femininas que nas masculinas. E o interessante é que nunca fui afeminadinha, sempre curti mulheres... Mas o lado feminino me atrai demais, incluindo essa mudança temporária de gênero.

- Foi tranquilo o processo de se entender CD?

No início foi difícil, porque eu me achava totalmente diferente. Às vezes pensava: Será que eu sou travesti, será que eu sou trans? Mas depois de muito pesquisar, ler e conversar com outros iguais, me encontrei. Resolvei buscar amizade com outras CDs também para trocar experiências, ver novas perspectivas e abrir mais a minha mente também. Hoje, eu me considero dentro da categoria transgênero.

- Lembra a primeira vez que você se montou?

Com sete anos eu já colocava escondida as lingeries da minha mãe, tia e primas (risos). Mas quando realmente me montei por completo eu tinha uns 23 anos. E fui só evoluindo e tomando gosto cada vez mais por essa prática.

- O que acha da festa Rainha Cross?

Essa festa foi uma das maiores descobertas da minha vida. Me deu muita liberdade em fazer o que realmente é importante, que é ampliar minhas amizades com as cross, além de ajudar as iniciantes. O Jaime é um anjo de pessoa, um ser humano fantástico e tem me ajudado muito nessa minha caminhada. A festa realmente é um lugar para as cross se sentirem bem recepcionadas e serem tratada como Divas e Rainhas, por que ali é o momento delas.

- Como foi ganhar o Miss Rainha Cross?

Foi uma surpresa, porque tinha candidatas maravilhosas. Adorei! É uma responsabilidade grande representar essa classe.

- E miss pode beijar nas festas?

Só se não borrar o batom (risos).

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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