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Letícia Lanz aponta 10 diferenças entre sua vivência transgênera e a de Caitlyn Jenner





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A ex-atleta olímpica Caitlyn Jenner revelou ao mundo que é transgênero aos 65 anos em 2015. A (então) surpreendente revelação foi feita em grande estilo: na capa da revista Vanity Fair. E os próximos passos foi o de contar todos os detalhes no reality show “I am Cait”, exibido pelo canal E!, e de ser ovacionada pelo público.

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Esta referência positiva (para ela, que bom!) levou muita gente acreditar que, apesar do risco de colocar tudo a perder, revelar-se transgênero após uma ascensão profissional é algo absolutamente tranquilo, confortável e até aceitável pela sociedade. Mas para quem não tem a conta recheada de Caitlyn a transfobia não é uma utopia. E as dificuldades são uma realidade bem próximas.

Uma das militantes brasileiras que mais defendem o movimento Transgente, a psicanalista Letícia Lanz – que assim como Caitlyn também se revelou transgênero depois 50 anos - escreveu 10 diferenças entre a sua vivência trans com a de Caitlyn. E, acredite, ela discorre as dificuldades que encontrou e afirma que ambas não têm absolutamente nada em comum.

O NLucon traz o texto na íntegra. Leia e reflita sobre privilégios:

Há tantas pessoas deslumbradas com a Cait, que está ficando totalmente impróprio e politicamente incorreto denunciar o show que ela está fazendo da sua transição, com ganhos expressivos para os seus cofres particulares. Apesar de termos quase a mesma idade, eu (63) e a Cait (65) não temos nada em comum. Respeito imensamente o que ela quiser fazer, especialmente com o seu corpo, sobre o qual toda pessoa tem o supremo direito de fazer o que bem quiser. Mas, afora esse aspecto, não temos nada em comum. Como sempre, falo de mim e por mim – e de ninguém mais. Resumi as nossas “diferenças” nos pontos abaixo:

1. Tempo de transição – a transição que a Cait fez em dois meses, entre salvas de canhões e fogos de artifício, eu levei cinco longos e penosos anos para completar, entre sangue, suor e lágrimas.

2. Aprendizado – aprender a agir como mulher na sociedade me demandou um esforço sobre-humano de observação e adaptação, sem ninguém interessado em me ajudar nesse aprendizado. A Cait chegou a contratar o estilista da Angelina Jolie para ajuda-la a ficar parecida com essa diva.

3. Guarda-roupa – dificílimo, nos primeiros tempos, conseguir comprar uma roupinha qualquer. Medo, vergonha e culpa só de entrar numa loja feminina. O guarda roupa da Cait custou, estimadamente, mais de US$1.500.000,00 e foi todo encomendado diretamente a costureiros. Nada de pret-a-porter, que é coisa de pobre.


4. Receptividade pública – muita gente me virou a cara. Muita gente, inclusive parentes muito próximos, que nunca mais falaram comigo. Tive que lutar com todas as minhas forças para conservar a minha própria família (mulher, filhos e netos), todos pressionados por uma sociedade hipócrita e pelos próprios “movimentos representativos” que queriam mais era nos ver separados e pelas costas (esqueceram que existe amor e só o amor salva). Ao se revelar publicamente, a Cait teve uma audiência coast-to-coast nos EUA de mais de 30 milhões de pessoas e a sua nova página, no facebook, como Cait registrou, em menos de 4 horas, mais de um milhão de acessos.

5. Nome – o Google, o facebook e o canal E!, que apresenta a série “I am Cait”, chegaram a soltar “cartilhas” contendo orientações de como a mídia deveria tratar a Caitlyn. Até hoje eu não consigo ser respeitada nem dentro do próprio gueto. Um monte de lideranças e membras (de)formadoras de opinião me chamam ostensivamente pelo meu nome masculino, acrescentado de coisas como “homem vestido de mulher”, pessoa indefinida, velho sem vergonha e ET.

6. Identidade de gênero – Embora eu passe muito bem como mulher, tendo sido essa, inclusive, uma das principais razões da minha transição, pois eu não aguentava mais ser “confundida” com mulher estando classificada como homem, eu nunca me declarei mulher, como a Cait faz questão de afirmar que é, a todo momento, agradando, é claro, à galera deslumbrada (e, como ela, totalmente despolitizada) do patropi.

7. Entendimento da condição transgênera - Em vez de me deslumbrar com coisas de mulher, exibindo vestuário e gestual devidamente estudado e monitorado para agradar o imaginário masculino, passei os últimos vinte anos da minha vida estudando e tentando entender a minha própria condição. Fiz um mestrado e escrevi um livro que o stablishment fez e continua fazendo questão de ignorar.

8. Engajamento político – luto por direitos civis e não por identidades; quero ser reconhecida e respeitada como cidadão, e não por ser homem, mulher, transexual, travesti ou o escambau. Nunca achei que ser transgênero seja uma questão individual. Pelo contrário, para mim é um fenômeno coletivo, determinado pela rigidez do modelo binário de gênero, que eu combato com todas as minhas forças, por ter sido o causador de todas as minhas desgraças nesse mundo. Ao contrário, esse é o sistema binário de gênero que a Cait defende.

9. Grana – ao transicionar, aumentou e muito os seus rendimentos; embora não confirmados, correram rumores de que o contrato para sair na Playboy lhe renderia uma grana preta. No primeiro episódio do seu programa “I am Cait”, ela mesmo disse que uma foto sua está valendo cerca de US$250.000,00. Ao transicionar, eu perdi todos os meus clientes de consultoria. Da minha conta bancária, com muitos zeros, ficaram somente os zeros.

10. Visibilidade pública – eu não sou uma curiosidade circense: sou um ser humano e quero apenas ser reconhecida como gente. Uma coisa é falar e compartilhar a própria experiência de vida, em nome de fortalecer a própria população transgênera. Outra coisa é transformar uma “experiência” de menos de dois meses vivendo como mulher em um grande espetáculo pirotécnico, que pretende ser um “reality show”. Para mim, não passa de uma obra de ficção. E de muito mau gosto.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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